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Sacre Investimentos
InvestMercadosACS
05/11/2026
7 min

O balanço da C&A foi bom ou ruim? Lucro supera previsão, mas vendas decepcionam

Despesas crescem o triplo das vendas e consomem o ganho de margem com roupas

O balanço da C&A foi bom ou ruim? Lucro supera previsão, mas vendas decepcionam
O que aconteceu?
  • A C&A teve lucro ajustado de R$ 56,5 milhões no terceiro trimestre, queda de 23,3%, mas acima do esperado pelo mercado
  • Lucro reportado de R$ 170,3 milhões foi inflado por R$ 198,5 milhões em créditos tributários
  • Margem bruta de vestuário subiu pelo 21º trimestre seguido, para 56%
  • Vendas nas mesmas lojas cresceram só 1%, com Copa do Mundo e juros altos
  • Ação acumula queda de 47% em 2026 e vale um terço do pico de julho de 2025

A C&A (CEAB3) entregou um terceiro trimestre considerado fraco, mas não tanto quanto o mercado temia. A varejista vendeu pouco, gastou mais com marketing e viu o lucro recorrente encolher. Ao mesmo tempo, voltou a ampliar a margem com roupas, reduziu a inadimplência do cartão próprio e terminou o período com dívida baixa. Para os analistas, o saldo ficou acima das projeções.

O lucro líquido reportado foi de R$ 170,3 milhões, alta de 145% em relação ao mesmo período de 2025. O número, porém, foi turbinado pelo reconhecimento de R$ 198,5 milhões em créditos de PIS e Cofins, um efeito contábil que não se repete. Sem ele e outros itens não recorrentes, o lucro ajustado ficou em R$ 56,5 milhões, queda de 23,3% na comparação anual.

"O lucro reportado é inflado pelos créditos de PIS/Cofins e deve ser desconsiderado", afirma Júlio Vieira, analista da Acta Partners. Mesmo menor, o lucro ajustado superou os R$ 45,5 milhões previstos pelo consenso da LSEG e os R$ 50 milhões projetados pelo BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).

Vendas fracas, com Copa e juros no caminho

A receita líquida consolidada somou R$ 1,88 bilhão, avanço de 2,3%. Em vestuário, carro-chefe da empresa, a alta foi de 2,6%, para R$ 1,69 bilhão. As vendas nas mesmas lojas (SSS, na sigla em inglês), indicador que mede o crescimento das unidades abertas há mais de um ano, subiram apenas 1%, ante 8,1% um ano antes.

A companhia atribuiu o desempenho ao menor fluxo de clientes durante a Copa do Mundo, que se estendeu do segundo para o início do terceiro trimestre, e ao alto comprometimento da renda das famílias com juros elevados.

Segundo a C&A, o movimento nas lojas melhorou aos poucos e atingiu um ponto de virada em meados de setembro, junto com a chegada da coleção de verão.

Pesaram ainda as 18 reformas de lojas em andamento, que tiraram cerca de 1 ponto percentual do SSS. Sem esse efeito, o indicador teria crescido 2%. Em eletrônicos e beleza, a receita caiu 15,3%, reflexo da saída da operação de celulares e da mudança na tributação de cosméticos em São Paulo.

No digital, a história foi outra. As vendas pelo site e pelo aplicativo cresceram 27,6% e já representam 8% da receita de mercadorias.

A margem foi a boa surpresa

O destaque positivo veio da margem bruta de vestuário, que chegou a 56%, alta de 0,6 ponto percentual e a 21ª expansão trimestral consecutiva. A XP esperava estabilidade. A varejista creditou o avanço a um sistema de precificação dinâmica, coleções mais acertadas, à nova estratégia logística e ao câmbio favorável, que barateia peças importadas. A margem bruta consolidada subiu 1 ponto, para 55,7%.

O ganho, no entanto, foi consumido pelas despesas. Os gastos com vendas cresceram 6,9% e passaram a representar 33,9% da receita, puxados por campanhas dos 50 anos da marca no Brasil e pela presença no Rock in Rio, investimentos que a empresa classifica como pontuais. Com vendas que cresceram pouco, as despesas fixas também foram menos diluídas.

Com isso, o Ebitda ajustado, que mede a geração de caixa operacional, recuou 4,7%, para R$ 317,6 milhões, com margem de 16,9%.

Cartão próprio dá lucro e calote cai

O C&A Pay, braço de crédito da varejista, lucrou R$ 20,2 milhões, mais que o dobro dos R$ 7,9 milhões de um ano antes. A receita subiu 26,7%, para R$ 100,8 milhões, com mais vendas parceladas com juros e o início dos testes de empréstimo pessoal.

A empresa apertou a concessão de crédito para novos clientes.

A emissão de cartões caiu 17,5% e, em compensação, a inadimplência acima de 90 dias recuou 2,5 pontos percentuais, para 13,9% da carteira.

Estoque alto e caixa menor

Um ponto de atenção, segundo a XP, são os estoques, que estão 16 dias acima do nível de um ano antes. A C&A diz que o trimestre marca o início de uma redução gradual. O fluxo de caixa livre caiu para R$ 184 milhões, ante R$ 244 milhões no terceiro trimestre de 2025, com menor geração operacional e investimentos 26,2% maiores, em reformas, novas lojas e um centro de distribuição no Nordeste.

A estrutura de capital segue folgada. A alavancagem, medida pela dívida líquida sobre o Ebitda, ficou em 0,2 vez, mesmo depois de a empresa distribuir R$ 139,8 milhões em juros sobre capital próprio e gastar cerca de R$ 110 milhões em recompra de ações no ano. Após o fim do trimestre, a varejista trocou dívidas que custavam CDI + 1,6% ao ano por uma nova, com vencimento em 2029 e custo de CDI + 0,8%.

A companhia também lançou o Full Power, novo ciclo estratégico de 2027 a 2030, que prevê continuar com aberturas e reformas de lojas, ampliar o uso de inteligência artificial em sortimento e abastecimento e expandir a Ace, bandeira de moda esportiva.

O que dizem os analistas

O BTG Pactual classificou o trimestre como "fraco, mas um pouco melhor do que o temido" e manteve recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 19, potencial de alta de 179% sobre o fechamento de quarta-feira, 4. Para o banco, o cenário de juros altos segue como risco para o crescimento, mas o programa de reformas, a disciplina com rentabilidade e a remuneração ao acionista sustentam a tese.

A XP também manteve compra e avalia que o foco do investidor deve ficar nos estoques e na recuperação esperada para o quarto trimestre. A casa aponta como fatores favoráveis a virada no fluxo de clientes em setembro, a reabertura das lojas reformadas (outras dez estão previstas até dezembro) e uma base de comparação mais fácil, já que o fim de 2025 foi fraco.

Da disparada ao tombo na bolsa

O balanço chega num momento em que a ação acumula perdas pesadas. Em 2025, a C&A foi uma das estrelas da bolsa. O papel saiu de R$ 7,47 no primeiro pregão do ano e chegou a R$ 20,65 em 3 de julho, seu pico no período, uma valorização de 176%. A alta atraiu a atenção dos analistas, que ainda viam espaço para ganhos.

Dali em diante, a ação perdeu fôlego, oscilou na casa dos R$ 15 a R$ 18 no segundo semestre e entrou em queda firme a partir do fim de novembro. Ainda assim, fechou 2025 a R$ 12,76, com alta de cerca de 71% no ano.

O ano de 2026 começou com um tombo. Em 5 de janeiro, as ações caíram 15,7% em um único dia, após a empresa sinalizar a analistas um quarto trimestre de 2025 mais fraco do que o esperado. Em meados de janeiro, o papel tocou R$ 9,51.

Houve recuperação até abril, quando a ação voltou a R$ 13,60, seguida de nova rodada de perdas. Em agosto, depois de um segundo trimestre em que a Copa freou as vendas, o papel desceu a R$ 7,28.

Entre setembro e outubro, a C&A embarcou no rali dos ativos brasileiros entre os dois turnos da eleição e quase dobrou de valor, atingindo R$ 14,27 em no último dia 20, a máxima de 2026. O movimento foi interrompido em 26 de outubro, primeiro pregão após o segundo turno, quando a ação desabou 47,5% em reação à reeleição de Lula. Varejistas, mais sensíveis aos juros, estiveram entre os papéis mais castigados.

Na quarta-feira, 4, último pregão antes da reação ao balanço, a ação fechou a R$ 6,81. O valor representa queda de 46,6% em 2026, de 52% desde a máxima de outubro e de 67% em relação ao pico de julho de 2025.

"Esperamos uma reação neutra a levemente positiva da ação ao balanço, dado o valuation já estressado", conclui Vieira, da Acta.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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