O Banco Central só ouve a “Faria Lima”? Galípolo responde às críticas

Era para ser um painel sobre política monetária. Mas logo de cara o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já disse que ia "desviar" das perguntas sobre a próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), prevista para 5 de agosto.
Em sua participação da Expert XP, nesta sexta-feira (24), Galípolo aproveitou o momento para responder às críticas que a autoridade monetária vem recebendo sobre a política de juros do país.
Segundo o presidente, a premissa de que o BC só "ouve a Faria Lima" — em referência aos agentes do mercado financeiro — e por isso os juros estão no patamar que estão, de 14,25% ao ano, está errada.
Neste momento, ele abriu um power point e começou a listar todas as pesquisas e consultas que o Banco Central faz aos diferentes setores da economia antes de decidir o próximo patamar da taxa Selic.
A pesquisa que ganhou mais destaque foi a Firmus, feita com o meio empresarial, reconhecido como o mais avesso ao atual nível dos juros.
"A ideia de que a taxa de juros alta é boa para o mercado não se comprova na realidade", disse Galípolo. O presidente, em sua face professoral, falou sobre como os ativos financeiros perdem valor diante de taxas maiores.
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No final de sua apresentação, o presidente do Banco Central colocou um QR Code e o email na tela, pedindo aos convidados que se cadastrem para participar das pesquisas, seja a Focus, com o mercado financeiro, ou a Firmus, com os empresários.
"É super importante para o BC sondar e ouvir os diversos setores da economia. Estamos aqui para dar transparência e encaminhar da melhor forma a política monetária", disse Galípolo.
O que esperar da Selic
Quando enfim começou a entrevista com o economista-chefe da XP, Caio Megale, Galípolo executou o seu plano de desvio das respostas diretas sobre a taxa Selic.
Ele elencou as três principais preocupações que podem ter pressão inflacionária relevante no curto e médio prazo:
- a guerra no Oriente Médio e os efeitos no preço do petróleo;
- o El Niño, a depender dos efeitos que pode ter sobre as safras; e
- os efeitos da inteligência artificial sobre os empregos e a produtividade.
Para o presidente do BC, a questão da inteligência artificial é a mais predominante nesse momento, porque o petróleo e o El Niño devem ser choques passageiros. Já a IA começa a ter um efeito maior de precificação nos juros futuros dos Estados Unidos.
Por aqui, o momento é de acompanhamento e a visão é de uma economia que mantém uma trajetória que se desenha há meses: atividade econômica e mercado de trabalho resilientes, com expectativas de inflação futuras que seguem desancoradas.
"Entendemos que o remédio é manter os juros em patamar restritivo por um período ainda mais longo", disse.
Entre cortes e pausas
Neste cenário, Galípolo enfatizou a escolha pela "calibração" ao iniciar os cortes, e não o começo de ciclo de afrouxamento monetário, de fato.
Para ele, os efeitos dos juros altos por tempo prolongado aparecem em diferentes áreas da economia, mas de forma pontual.
Em paralelo, o ambiente geral, no Brasil e no mundo, ainda é de incerteza.
"Temos que ter humildade na comunicação dos próximos passos e também no uso de dados para a análise. Há uma dificuldade muito grande de projeções futuras neste momento", afirmou o presidente do BC.
Segundo ele, nas últimas reuniões, o Copom tem optado por traçar diversos cenários com os dados coletados e avaliar qual traça a melhor trajetória de encaminhamento da inflação para a meta.
E, tudo indica, que não será um caminho linear, mas de cortes e pausas ao longo do processo.
