O Bitcoin de Teseu: criptomoeda é a mesma depois de 99% do código mudar?
Entenda as alterações e o mecanismo de consenso por trás da maior de todas as criptomoedas

O Bitcoin de 2026 não é mais o mesmo de 2008. Pelo menos é essa a conclusão a que alguém poderia chegar ao ouvir o dado divulgado pela Vinteum, organização que apoia desenvolvedores do Bitcoin na América Latina, de que 99% do código da criptomoeda foi alterado desde aquela época.
A história lembra o famoso questionamento filosófico do Navio de Teseu, segundo o qual o navio do herói grego mitológico Teseu foi mantido em um porto em Atenas por tantos anos que as madeiras apodreceram aos poucos, precisando ser substituídas uma a uma até não sobrar nenhuma parte original. O navio ainda é o mesmo ou o que os atenienses estavam olhando agora era outra embarcação?
Em entrevista à EXAME, Bruno Garcia, head de engenharia na Vinteum, falou sobre essa questão, explicando por que o Bitcoin sofreu tantas alterações.
Garcia afirmou que todas as mudanças realizadas no Bitcoin tendem a ser relevantes, mas há dois tipos principais de alterações: as mudanças para correções de vulnerabilidade e melhoria de desempenho ou aquelas que vieram de alterações de protocolo.
Mudanças de protocolo e revisão dos devs do Bitcoin
No segundo caso está, por exemplo, a atualização Bitcoin Segwit, que foi ativada em 2017 e separou a parte da assinatura que comprova a validade de uma transação daquela que descreve seu efeito econômico, impedindo que informações relacionadas à assinatura pudessem ser alteradas sem invalidar a operação. Além disso, a atualização permitiu abrir mais espaço útil por bloco de validação do Bitcoin sem mudar o limite de 1 mb por bloco.
Garcia diz que qualquer mudança no código do chamado Bitcoin Core, o software aberto que valida o blockchain do Bitcoin, tem risco de trazer um problema de segurança. "É por isso que toda mudança precisa passar por um processo criterioso de revisão, teste e análise. Se adotarmos uma abordagem de mudar o código a torto e direito sem uma régua mínima de qualidade e segurança, mesmo uma mudança que pareça benéfica pode introduzir vulnerabilidades."
Essas revisões acontecem na plataforma de colaboração em projetos de software, GitHub, e depois precisam ser aprovadas por contribuidores frequentes. Ou seja, um desenvolvedor pode escrever uma mudança no código, mas não pode obrigar a rede a aceitá-la.
Depois de passar pelos desenvolvedores, os participantes da rede precisam adotá-la para que ela se torne efetiva por meio de consenso. É por isso que mudanças que tornem o Bitcoin um ativo filosoficamente diferente são quase impossíveis de acontecer.
Mecanismo de consenso e os 'forks'
Em 2017, por exemplo, parte da comunidade do Bitcoin estava descontente com a lentidão nas confirmações de transações na rede do Bitcoin. O custo por O custo por operação cresceu muito devido ao limite de espaço nos blocos. Assim, foi proposto aumentar o limite de memória em cada bloco.
No entanto, essa atualização não foi aceita em consenso. Como resultado, houve uma divisão (fork) na rede e os participantes que queriam a mudança passaram a registrar suas transações em uma cadeia separada da original, seguindo as novas regras que escreveram em código. Foi assim que surgiu a criptomoeda Bitcoin Cash.
Olhando para frente, uma das maiores discussões no Bitcoin atualmente é como torná-lo resistente a um possível ataque de um computador quântico. Embora a tecnologia para isso ainda não exista hoje, ela está se desenvolvendo cada vez mais rápido e ameaça a criptografia de curvas elípticas do blockchain da maior das criptomoedas.
Para proteger a rede, pesquisadores têm trabalhado em tornar o protocolo resistente a ataques quânticos. De acordo com Garcia, essa resistência viria de novos protocolos, que teriam que ser implementados no código. Ou seja, ainda há mais uma grande mudança de código no futuro previsível da criptomoeda.
BTC ainda é filosoficamente o mesmo?
Mas então, o Bitcoin ainda é o mesmo após ter sido alterado em 99%. Para Garcia, é sim. Na opinião dele, o ativo é filosoficamente o mesmo, pois as ideias centrais por trás da criação de Satoshi Nakamoto se mantiveram.
"Mudanças no protocolo e no código fazem parte para evoluir e melhorar", defende.
