O Brasil já conhece criptoativos, agora é hora de incluir no dia a dia
Diretor da Coinbase fala sobre o papel do setor cripto em ajudar a tecnologia a se tornar mais fácil e prática

Por Fabio Plein*
O Brasil precisa reconhecer o espaço que as criptomoedas já ocupam na vida financeira dos brasileiros. Afinal, quando dois em cada três conhecem o tema e quase 29 milhões possuem ou já possuíram ativos digitais, estamos diante de uma realidade que alcançou uma parcela relevante da população.
Para mim, essa é a principal conclusão da 2ª Pesquisa Nacional de Criptomoedas, realizada pela Paradigma Education em parceria com o Datafolha e com patrocínio da Coinbase. O levantamento ouviu 2.004 pessoas em 137 municípios brasileiros e mostra que o mercado entrou em uma nova etapa de maturidade. Ao mesmo tempo, revela que apenas conhecer o tema não é suficiente: a próxima etapa depende da criação de condições para que os ativos digitais se tornem uma parte intuitiva e útil do sistema financeiro.
O conhecimento sobre criptomoedas chegou a 66,4% da população, um aumento de 10,1 pontos percentuais em relação a 2025. Em apenas um ano, milhões de brasileiros passaram a ter algum contato com o tema. Entre os diferentes níveis de escolaridade, o maior crescimento nos últimos 15 meses ocorreu entre aqueles cuja educação formal não foi além do Ensino Fundamental. A pesquisa mostra que as criptomoedas estão alcançando pessoas que, muitas vezes, permaneceram à margem de produtos financeiros mais sofisticados. A adoção também está longe de ser um fenômeno de elite. Entre os brasileiros que já investiram em criptomoedas, 77,6% ganham até três salários mínimos.
Por isso, é preciso abandonar definitivamente a ideia de que o mercado de ativos digitais fala apenas com investidores de alta renda ou especialistas em tecnologia. O usuário brasileiro de cripto é diverso e está espalhado pelo país. Qualquer estratégia de produto ou regulação que ignore essa realidade estará sendo construída para um mercado que já não existe.
O setor precisa tornar o uso de criptomoedas mais fácil
No entanto, os resultados também expõem um desafio que o setor precisa enfrentar com urgência. Entre os brasileiros que conhecem as criptomoedas, mas nunca investiram, 77% apontam a complexidade da tecnologia como uma barreira. Outros 42% citam a falta de informação.
A interpretação é inevitável. O amplo conhecimento sobre o tema não se traduz automaticamente em compreensão ou uso. Se três em cada quatro brasileiros interessados consideram a tecnologia complexa, a solução não pode depender de que cada pessoa se torne especialista antes de utilizá-la. Nós que atuamos no setor precisamos desenvolver produtos cujo valor seja claro e cuja utilização pareça natural na vida financeira das pessoas.
Muitas vezes, partimos do pressuposto de que as pessoas precisam compreender completamente uma nova tecnologia financeira antes de adotá-la. Mas, na prática, essa compreensão também se desenvolve por meio da experiência. Quando alguém pode usar um serviço para fazer um pagamento, transferir dinheiro, poupar ou investir de uma forma que resolva uma necessidade real, a tecnologia se torna concreta.
Stablecoins e a segurança jurídica
Já podemos observar esse movimento em escala global. Os pagamentos com stablecoins estão levando os ativos digitais para as transações cotidianas, enquanto as ações tokenizadas aproximam a infraestrutura blockchain de produtos financeiros que as pessoas já conhecem. Esses avanços mostram que a adoção cresce quando as pessoas encontram serviços úteis e intuitivos em seu dia a dia.
Marcos regulatórios claros são essenciais para que isso seja possível. Empresas precisam de segurança jurídica para investir, inovar e desenvolver produtos que integrem os ativos digitais ao sistema financeiro mais amplo. A regulação deve proteger os consumidores e estabelecer padrões rigorosos, ao mesmo tempo que oferece às empresas responsáveis o espaço necessário para desenvolver serviços seguros e acessíveis.
Para o Brasil, a prioridade deve ser construir regras que proporcionem essa clareza e apoiem a integração responsável das criptomoedas à vida financeira das pessoas. Um marco regulatório previsível pode estimular investimentos, fortalecer a confiança dos consumidores e permitir que o setor desenvolva produtos que reduzam a complexidade para os usuários.
Na Coinbase, acreditamos que a inovação e a regulação responsável precisam avançar lado a lado. O Brasil possui uma população conectada, um sistema financeiro digitalizado e uma abertura histórica para novas tecnologias. Agora, regras claras podem transformar o conhecimento crescente sobre cripto em adoção responsável e em aplicações que gerem benefícios reais para a economia.
*Fabio Plein é diretor regional da Coinbase para as Américas
