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11/09/2026
7 min

O Brasil na corrida global pela aviação de baixo carbono

O combustível sustentável de aviação abre uma nova fronteira de investimentos, tecnologia e competitividade

O Brasil na corrida global pela aviação de baixo carbono

*Por Maurício Godinho e Giovana Araújo

A transição energética é, frequentemente, debatida sob a ótica ambiental. Mas a história mostra que as grandes transformações econômicas, raramente, são definidas apenas por questões climáticas. Elas são determinadas pela capacidade de países e empresas capturarem valor ao longo de novas cadeias produtivas. O Combustível Sustentável de Aviação (SAF) se enquadra exatamente nessa categoria.

Embora ainda represente menos de 1% do combustível consumido na aviação mundial, o SAF está no centro da principal rota disponível para reduzir as emissões dos voos de médio e longo alcance nas próximas décadas.

Mais do que um novo combustível, portanto, estamos diante da formação de um mercado global capaz de redesenhar fluxos de investimento, comércio, tecnologia e competitividade industrial.

A aviação comercial responde por uma parcela relativamente pequena das emissões globais, mas ocupa uma posição singular na economia. Diferentemente de outros modais, dispõe de poucas alternativas tecnológicas viáveis para reduzir emissões em larga escala nos curto e médio prazos.

A eletrificação permanece distante para voos de médio e longo alcance, enquanto o SAF já surge como a principal estratégia disponível para viabilizar a descarbonização do setor e como parte de uma maior resiliência geopolítica. Por essa razão, o debate deixou de ser apenas ambiental e passou a ser estratégico.

O mundo começa a estruturar uma corrida silenciosa pela liderança desse mercado. União Europeia, Estados Unidos, Singapura e outros mercados vêm estruturando mandatos, incentivos econômicos e mecanismos comerciais para estimular a produção e assegurar acesso futuro ao SAF e às matérias-primas necessárias para produzi-lo. Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição singular.

Poucas economias combinam disponibilidade de biomassa, experiência acumulada em biocombustíveis, agricultura competitiva, conhecimento tecnológico e capacidade de expansão sustentável em uma escala comparável à brasileira.

Estimativas recentes da IATA indicam que o potencial brasileiro de matérias-primas poderia suportar a produção de aproximadamente 60 milhões de toneladas de SAF em 2050.

Mais importante do que dimensionar quanto SAF o Brasil poderá produzir, é entender quanto valor dessa nova cadeia seremos capazes de gerar e capturar no país.

A pergunta pode parecer simples, mas remete a um dilema recorrente na história econômica da América Latina. A região, frequentemente, participa de diversas cadeias globais como fornecedor de recursos naturais, enquanto parcelas relevantes do valor associado à transformação industrial, tecnologia, certificação, comercialização e financiamento são capturadas em outros mercados.

O SAF oferece a oportunidade de construir uma trajetória diferente.

O mercado nasce em um momento em que tecnologias, modelos comerciais, padrões de sustentabilidade e mecanismos de certificação ainda estão sendo consolidados. A disputa, portanto, não ocorre apenas pela construção de capacidade produtiva. Ocorre também pela capacidade de influenciar e operar a infraestrutura que permitirá ao mercado funcionar.

É justamente nesse aspecto que o avanço regulatório brasileiro ganha relevância. A Lei do Combustível do Futuro estabeleceu metas de redução de emissões para as operações domésticas de aviação, a partir de 2027.

Ao privilegiar a redução efetiva das emissões, em vez de simplesmente estabelecer um percentual volumétrico de mistura, o modelo cria incentivos para rotas tecnológicas e matérias-primas de menor intensidade de carbono.

Ao mesmo tempo, o Brasil avança na discussão dos mecanismos como o Book & Claim, que permitem separar o atributo ambiental do SAF de sua localização física. Isso possibilita que o combustível seja utilizado onde a logística for mais eficiente, enquanto seus benefícios ambientais podem ser adquiridos e contabilizados por empresas localizadas em outros pontos da cadeia, desde que existam mecanismos robustos de registro, verificação e prevenção de dupla contagem.

Essa arquitetura pode ser especialmente relevante para um país de dimensões continentais como o Brasil. Mas seria um erro imaginar que o avanço regulatório, por si só, será suficiente para assegurar competitividade.

A verdadeira disputa ocorrerá em torno do controle dos fatores estruturais que determinarão quem será capaz de produzir em escala, competir globalmente e capturar valor nessa nova cadeia. O primeiro deles é o acesso sustentável ao feedstock.

Em um mercado de demanda crescente, a capacidade de originar matérias-primas competitivas, certificadas e com baixa intensidade de carbono pode se tornar tão estratégica quanto a capacidade de refino.

O segundo é a financiabilidade dos projetos. Ainda hoje, o diferencial de custo entre SAF e combustível convencional torna a previsibilidade regulatória, contratos de longo prazo, mecanismos de compartilhamento de risco e acesso a capital elementos decisivos para novas decisões de investimento.

O terceiro é a infraestrutura de confiança. Quanto mais global e complexa se torna a cadeia, maior a necessidade de demonstrar origem, intensidade de carbono, sustentabilidade e cadeia de custódia das matérias-primas e dos combustíveis produzidos.

É nesse ponto que a infraestrutura de dados passa a assumir um papel estratégico: transformar atributos ambientais em valor econômico confiável e negociável. A experiência internacional demonstra que mercados eficientes dependem não apenas de ativos físicos, mas também de ativos institucionais e digitais.

Transparência, interoperabilidade de sistemas, integridade de informações e capacidade de verificação tendem a se tornar tão relevantes quanto refinarias, terminais logísticos ou unidades produtoras de biomassa.

O que está em jogo, portanto, não é exclusivamente a criação de uma nova fonte de energia. Estamos observando a formação de uma nova cadeia industrial.

Para o Brasil, ela pode significar novos investimentos, desenvolvimento tecnológico, diversificação do agronegócio, maior sofisticação industrial e o protagonismo brasileiro na economia global de baixo carbono.

A janela de oportunidade existe, mas dificilmente permanecerá aberta indefinidamente. Os países capazes de combinar regulação inteligente, matérias-primas competitivas, capital, capacidade industrial e infraestrutura de confiança serão aqueles que capturarão a maior parcela do valor gerado por essa transformação.

O Brasil já possui boa parte desses ativos. A questão que permanece é se teremos a capacidade de transformar potencial em liderança — e liderança em valor capturado no país.

*Maurício Godinho é sócio-diretor da KPMG no Brasil e Giovana Araújo é sócia-líder de agronegócio da KPMG no Brasil e nas Américas

AutorDa Redação
FonteExame
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