‘O Brasil não é para amadores’, diz embaixador da Noruega

“Há um ditado popular que diz que o Brasil não é para amadores, e isso é um conhecimento compartilhado também entre as empresas norueguesas no Brasil”, afirma Kjetil Elsebutangen, embaixador da Noruega no Brasil.
Em entrevista exclusiva à EXAME, o diplomata, que assumiu a embaixada em dezembro, afirma que empreender no país exige tempo, conhecimento local, parceiros estratégicos e previsibilidade. Ainda assim, diz ele, o Brasil segue como o principal mercado para a Noruega depois da Europa e dos Estados Unidos.
"Temos muito investimento na Inglaterra e na Alemanha. E a Europa é um pouco diferente, porque temos um mercado único. As empresas norueguesas estão no mercado europeu como se fôssemos parte da União Europeia, mesmo sem sermos membros", diz o embaixador.
A relação entre Brasil e Noruega começou em 1842
A relação econômica entre os dois países começou muito antes de petróleo, energia renovável ou acordos comerciais. Em 1842, o primeiro navio norueguês aportou no Brasil carregado de bacalhau e voltou à Europa com café nos porões, dando início a uma parceria comercial que atravessou quase dois séculos.
Hoje, essa relação reúne cerca de 300 empresas norueguesas em operação no país, aproximadamente US$ 14 bilhões em investimentos e uma nova agenda de crescimento baseada em energia, tecnologia, fertilizantes e descarbonização.
“As empresas norueguesas veem o mercado brasileiro de longo prazo. Não é um mercado onde entram por um ano, dois anos e depois vão embora”, afirma o embaixador.
A presença norueguesa no Brasil contribui para a geração de cerca de 120 mil empregos diretos e indiretos. Além disso, o fundo soberano da Noruega mantém aproximadamente US$ 7 bilhões investidos no mercado brasileiro.
Kjetil Elsebutangen, embaixador da Noruega no Brasil: “As empresas norueguesas veem o mercado brasileiro de longo prazo" (Luiz Nova/Divulgação)
Falta pouco para o acordo entre Mercosul e EFTA
Um dos principais motores dessa nova fase é o acordo de livre comércio entre Mercosul e EFTA, bloco formado por Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein. Segundo Elsebutangen, o tratado já foi aprovado pelo Congresso brasileiro e pelo Parlamento norueguês, restando apenas as etapas finais de promulgação.
“Esperamos que seja possível que este acordo entre em vigor neste ano, antes do fim deste ano”, afirma.
Na prática, o acordo deve reduzir tarifas para uma ampla lista de produtos e abrir espaço para novos investimentos em setores como máquinas, equipamentos, pescado, tecnologia e indústria marítima.
Para a Noruega, o Brasil se tornou estratégico em áreas como petróleo e gás offshore, energia renovável, fertilizantes, transporte marítimo e descarbonização. Empresas como Equinor, Statkraft, Yara e Hydro estão entre os principais nomes noruegueses com atuação no país.
“O setor de energia é muito importante e abre oportunidades. Temos o setor offshore, de petróleo e gás, onde várias empresas norueguesas contribuem, mas também o setor de energia renovável, onde há muitas oportunidades em eólica, solar e baterias”, diz o embaixador.
Outra frente de cooperação é a descarbonização do transporte marítimo. Segundo Elsebutangen, há um memorando de entendimento entre os dois países que reúne empresas, portos e organizações de pesquisa do Brasil e da Noruega.
“É um processo longo, mas muito importante. O interessante é que combina tecnologia com descarbonização e possibilidades de identificar novas oportunidades para as empresas”, afirma.
O acordo de livre comércio também pode aproximar pequenas e médias empresas norueguesas do mercado brasileiro. As grandes companhias já estão presentes, mas a redução de tarifas e a maior segurança regulatória podem tornar o Brasil mais acessível para negócios de menor porte.
“Com o acordo de livre comércio, precisamos mostrar para mais empresas as possibilidades que existem no Brasil. Talvez para empresas menores, que ainda não tiveram a possibilidade de descobrir o mercado brasileiro, há uma oportunidade”, afirma.
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Os desafios para avançar no Brasil
Apesar do otimismo, o embaixador reconhece que operar no Brasil exige resiliência. Juros elevados, volatilidade de preços, tarifas e complexidade regulatória estão entre os desafios para empresas estrangeiras.
Para ele, a previsibilidade é o principal fator para manter e ampliar investimentos no país.
“Previsibilidade é chave. Isso é muito, muito importante. As empresas muitas vezes podem se adaptar, podem aceitar vários tipos de regras ou fiscalização, se há previsibilidade”, diz.
Mesmo diante de um ano eleitoral e de um cenário global mais incerto, como a guerra no Oriente Médio que impacta o preço do petróleo e políticas tarifárias como de Donald Trump, Elsebutangen afirma que a visão das empresas norueguesas sobre o Brasil continua sendo de longo prazo.
“Temos certeza de que há um interesse conjunto entre partidos e forças políticas de continuar a cooperação econômica, atrair investimentos e empresas estrangeiras para criar valor aqui no Brasil”, afirma.
No próximo domingo, 5, Brasil e Noruega disputam uma vaga na Copa do Mundo. Nos negócios, porém, a rivalidade dá lugar à parceria. E, segundo o embaixador, essa relação deve continuar avançando com uma nova agenda baseada em comércio, energia, tecnologia e descarbonização.
