Mundo
30/05/2026
7 min
O Brasil pode ser a próxima Groenlândia de Donald Trump

O PCC e o Comando Vermelho foram designados terroristas globais pelos Estados Unidos na noite desta quinta-feira. No dia 5 de Junho entra em vigor uma segunda designação, mais pesada — Foreign Terrorist Organization — que torna crime, sob a lei americana, qualquer apoio material às duas organizações, incluindo o processamento bancário inadvertido das suas transações. Para a maioria dos brasileiros é uma notícia de segurança pública. Para quem lê geopolítica é o capítulo final de uma progressão que demorou 16 meses e que ninguém em Brasília parece ter lido em sequência.
Fevereiro de 2025: seis cartéis mexicanos, o Tren de Aragua venezuelano, o MS-13 salvadorenho. Setembro de 2025: Los Choneros e Los Lobos no Equador, cujo presidente pediu a designação e abriu em troca as portas a bases militares americanas. Novembro de 2025: o Cartel de los Soles na Venezuela, descrito como liderado pessoalmente por Maduro — a moldura jurídica que justificou a sua remoção semanas depois e onde existem muitas dúvidas se esse Cartel existe mesmo, algo que levou mesmo à demissão de funcionários da CIA. Junho de 2026: o Brasil. Cada designação preparou o terreno para a seguinte. O Brasil não foi surpreendido. Foi o destino anunciado de uma lógica que avançava para sul a cada estação.
O que mudou não é a designação em si. Outros países do hemisfério já estavam lá. O que mudou é o terreno. Durante décadas, vários países aceitaram a extraterritorialidade americana porque as lideranças de Washington operavam dentro de um quadro previsível e juridicamente reconhecível. Esse quadro desapareceu por duas vias. A primeira é a imprevisibilidade da agenda de Trump.
A segunda, mais profunda, é a transferência do combate ao crime do domínio da justiça para o domínio da segurança nacional. Nesse domínio os tribunais americanos raramente entram. Não querem e muitas vezes não podem. Não há recurso, não há transparência, não há devido processo. Há decisão discricionária e opacidade garantida. Tudo nas mãos de um só homem.
O México mostra para onde isto conduz. Operativos da CIA participaram diretamente em operações letais contra cartéis; dois morreram num acidente em Chihuahua ao regressar da destruição de um laboratório. Quando forças mexicanas, apoiadas pela inteligência americana, eliminaram El Mencho, líder do CJNG, as represálias do cartel paralisaram o país em mais de duzentos pontos de vinte estados em poucas horas. O Estado mexicano ficou na pior posição possível: nem soberano sobre o seu território, nem capaz de proteger a sua população do caos que a operação desencadeou.
Há ainda uma razão de calendário. O fiasco estratégico da guerra contra o Irã empurrou Rubio e a ala do MAGA focada no hemisfério a redobrar a aposta na América Latina. É um teatro que oferece a Trump o sonho de império sem os perigos geopolíticos e militares da Ásia ou do Oriente Médio. Rubio se colocou à margem de forma visível dos esforços diplomáticos no Golfo, mas se manteve focado em Cuba, por exemplo. A Europa já calcula que a ressaca do Golfo se traduzirá num esforço renovado sobre a Groenlândia. E a América Latina está na fila.
É aqui que a comparação com a Groenlândia deixa de ser retórica. Com possíveis bases americanas instaladas numa Venezuela submissa, a fronteira norte do Brasil fica exposta não apenas ao caos venezuelano e ao garimpo ilegal que ele alimenta, mas à possibilidade de presença militar americana permanente, justificada pela doutrina de combate ao narcoterrorismo. A Amazônia tem minerais críticos, a maior reserva de água doce do planeta e uma posição central no hemisfério.
O mecanismo é diferente do da Groenlândia — coerção por extraterritorialidade em vez de anexação aberta —, mas o princípio é idêntico: recursos estratégicos numa região que a potência dominante considera de interesse de segurança nacional. Ser aliado da OTAN não impediu os EUA de olharem com cobiça para a Groenlândia, parte do território da Dinamarca que contou também com o apoio da restante União Europeia. O Brasil está muito mais sozinho.
Seria desonesto intelectualmente ignorar a parte brasileira desta equação. O Brasil deixou o flanco aberto. A falha no combate ao crime organizado é real e prolongada. Mas a negligência não justifica a perda de soberania. Torna-a possível, que é coisa diferente e de consequências distintas. Há, aliás, um detalhe que o debate público ignora: as milícias, que parte do sistema político protege, dificilmente serão sujeitas ao mesmo escrutínio que o PCC e o Comando Vermelho.
A designação é seletiva, e a seletividade obedece sempre a uma lógica que ultrapassa a segurança pública. A medida terá ainda o seu próprio debate interno, porque parte do espectro político brasileiro não apenas a aceita como a articulou e celebra — uma intervenção na soberania nacional com apoio doméstico, que se tornará tema central da campanha presidencial. O debate deixou de ser apenas geopolítico. Ele vai dominar o ano político.
Para empresas e investidores, o risco concentra-se onde o Brasil é mais vulnerável: no sistema financeiro, que depende como nenhum outro setor do acesso ao dólar. O PCC ganha hoje mais com a venda de combustível ilegal do que com a cocaína, e a sua penetração na economia formal é difusa, profunda e impossível de mapear com precisão.
A partir de 5 de junho, qualquer instituição que processe inadvertidamente uma transação ligada às organizações designadas fica exposta a acusação de apoio material a terrorismo sob a lei americana — sem recurso, porque estamos no domínio da segurança nacional. O compliance transforma-se num risco sistêmico: as instituições financeiras não conseguem avaliar a sua exposição, não conseguem ler a lógica por detrás das designações, e não têm mecanismo de contestação. A esta frente soma-se a pressão sobre o Pix, que a Visa, a Mastercard e as grandes plataformas tecnológicas americanas gostariam de ver desmantelado.
E há um último elemento, o mais silencioso. O limite histórico a este tipo de intervenção sempre foi a capacidade humana de processar informação. A inteligência artificial remove esse limite. Empresas como a Palantir vendem precisamente essa capacidade ao governo americano; o X, que já teve os seus conflitos com a justiça brasileira, faz parte do mesmo ecossistema. A designação cria o mercado, a tecnologia remove o último constrangimento operacional.
Não é necessário invocar conspiração para a reconhecer — basta observar a convergência de interesses entre o poder estatal e o poder corporativo nos EUA, que o próximo governo brasileiro terá de mapear com uma urgência que ainda não demonstrou.
A questão não é se o PCC e o Comando Vermelho são organizações criminosas violentas. São, e o Estado brasileiro falhou durante anos em enfrentá-las. A questão é quem passa a ter jurisdição sobre o território e o sistema financeiro do Brasil e em que condições essa jurisdição pode ser invocada por uma potência estrangeira sobre a qual o Brasil tem muito pouca influência.
George Kennan, o arquiteto da política de contenção americana na Guerra Fria, escreveu em 1946 que “qualquer país que espera manter sua posição pela boa vontade e pelo autocontrole dos outros é um país ingênuo”. Era um americano a avisar os aliados da América. Este aviso torna-se agora mais pertinente e incômodo. O risco geopolítico mundial, que entrava sorrateiramente no Brasil pela porta dos fundos, escancarou agora a porta da frente.
AutorDiogo Castro e Silva
FonteExame
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