‘O Brasil vai ser o salvador da fome do mundo’, diz Júnior Friboi
Depois de participar da expansão internacional da JBS, empresário não descarta repetir esse caminho com a sua empresa JBJ Agropecuária

Uberaba (MG)* - “Não tem limite. Nada tem limite na vida”, afirma José Batista Júnior, conhecido por Júnior Friboi e fundador da JBJ Agropecuária, gigante brasileira do agronegócio.
Em entrevista à EXAME, durante o Leilão JBJ Genetics e Família Nelorista, realizado pelo grupo em Uberaba, Minas Gerais, o empresário fala com otimismo sobre o crescimento da empresa no Brasil.
“Oportunidade de crescer o negócio surge todo dia. Basta você acreditar no que está fazendo,” afirma Batista Júnior.
Uma dessas oportunidades Batista Júnior vê no melhoramento genético do gado. Tanto que o grupo JBJ tem como uma das empresas a JBJ Genetics, que anunciou em março deste ano a compra do Nelore JMP, uma das marcas mais reconhecidas na seleção de genética no país.
“O Brasil lá atrás não tinha uma preocupação com a genética, com a qualidade. Nós abatíamos animal de quatro, cinco anos. Hoje nós estamos abatendo, cada ano que passa, animal mais novo, mais precoce.”
O grupo realizará só neste ano 13 leilões de gados de raça no Brasil, sendo dois presenciais, um neste fim de semana em Minas Gerais e outro em outubro na fazenda da empresa em Goiás.
A agenda de Minas Gerais, inclusive, bateu um novo recorde: o evento movimentou R$ 42 milhões em dois dias, representando um aumento de 23% em relação ao último ano.
Imagem do Leilão JBJ Genetics e Família Nelorista promovido pela JBJ Agropecuária em Uberaba, Minas Gerais (Eduardo Martins/Brazil News/Divulgação)
A ambição familiar da JBS para a JBJ Agropecuária
A ambição por crescer parece ser um traço de família. A JBJ Agropecuária foi criada em 2012 por Batista Júnior depois de sua saída da JBS, companhia fundada por seu pai, José Batista Sobrinho, em 1953, em Anápolis, Goiás.
Júnior participou da expansão e da internacionalização do negócio familiar, foi presidente por 25 anos da companhia e em 2005 decidiu passar o cargo para seu irmão Joesley Batista.
Em seguida, criou uma empresa que, desta vez, leva as próprias iniciais: JBJ Agropecuária.
“Nós criamos a JBS, que é o nome do meu pai. E eu acho que, quando você cria uma empresa com a sigla do seu nome, te dá muito mais credibilidade, muito mais responsabilidade, porque o seu nome está envolvido”, afirma.
Hoje, a JBJ Agropecuária cresce com 14 fazendas, 4 frigoríficos e milhares de cabeça de gado. Os planos envolvem todas as frentes, segundo Júnior Batista, como ampliar confinamentos, expandir a operação frigorífica da Prima Foods, avançar em produtos de maior valor agregado e continuar prospectando oportunidades dentro e fora do Brasil.
“Nós vamos adquirir mais algumas plantas. Estamos num processo de expansão”, diz o empresário.
Segundo ele, o grupo analisa outros negócios e oportunidade porque se tem uma coisa que ele aprendeu na JBS é que não há limites para crescer.
“Quando eu presidi a JBS, eu comecei com a JBS abatendo 20 bois por dia. Aí hoje você pergunta: tem limite? Não tem. A JBS está crescendo todo dia.”
Veja também: Petrobras mira o agronegócio e investe US$ 1 bilhão em nova fábrica de fertilizante no MS
Prima Foods deve ganhar escala
A expansão passa principalmente pela Prima Foods, braço frigorífico do grupo. Hoje, segundo Júnior, 72% da produção da companhia é destinada à exportação. A intenção é crescer tanto no mercado externo quanto em industrializados, processados, commodities e produtos de maior valor agregado.
“A Prima Foods vai crescer no industrializado, no processado, no commodity, na exportação. Tudo de valor agregado,” diz o empresário. “No caso dos Estados Unidos, a carne brasileira vai para o hambúrguer, para a carne moída. Não é para o supermercado, não é para o consumo premium.”
Na pecuária, outro projeto ajuda a dimensionar os planos. A JBJ prepara um novo confinamento na Fazenda Ressaca, em Cáceres, no Mato Grosso, com capacidade projetada para 100 mil bois estáticos.
O grupo também avalia oportunidades em estados como Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul, regiões que concentram parte relevante do rebanho brasileiro.
Questionado sobre a meta apresentada pela gestão de levar a JBJ a R$ 10 bilhões de faturamento até 2027, Júnior apontou uma estratégia diversificada. O crescimento deve passar pela indústria, pecuária, integração lavoura-pecuária, produtos elaborados, genética, equinos e até pelo setor imobiliário.
Mas o empresário diz que tamanho, sozinho, não é o objetivo.
“Não é a quantidade, é a qualidade. O que nós buscamos hoje é geração de caixa com produtos de qualidade”, afirma o JBJ.
Veja também: Sem boi, alta de preço e frigoríficos fechados: o que acontece com a carne nos EUA
Internacionalização continua no radar
Depois de participar da expansão internacional da JBS, Júnior Friboi não descarta repetir parte desse caminho com a JBJ.
Uma fábrica nos Estados Unidos ou em outro país, assim como uma fazenda no exterior, pode fazer parte do futuro, mas o empresário evita estabelecer um cronograma. Para ele, movimentos desse porte dependem da oportunidade e do momento certo.
“O sonho existe. O sonho sempre existiu. Por isso é que nós criamos a JBS, internacionalizamos a JBS, e assim uma coisa de cada vez.”
Júnior também vê a relação da família com a JBS como uma vantagem nessa estratégia. Segundo ele, a presença global da companhia criada pela família funciona como uma ponte para os negócios da JBJ.
“Tudo que eu precisar para internacionalizar a JBJ, nós temos a JBS no mundo inteiro dando suporte,” diz Batista Júnior.
A experiência internacional de Júnior Friboi também permitiu trazer práticas de outros mercados para o agronegócio brasileiro.
“Uma coisa importante que nós fizemos e que melhorou muito o agro, principalmente para o Brasil, foi fazer essa conexão de cultura, esse intercâmbio que nós fizemos no mundo inteiro, e trazer as coisas boas de fora para dentro e levar as coisas boas de dentro para fora”, afirma.
Veja também: Como a Farm conquistou os EUA e transformou o mercado internacional em 40% do faturamento
China cresce e Estados Unidos funcionam como ‘certificado’
Na visão do empresário, a expansão da pecuária brasileira está diretamente ligada ao avanço em genética e qualidade do rebanho.
Júnior lembra que, no passado, o país chegava a abater animais com quatro ou cinco anos. Hoje, a pecuária consegue produzir animais cada vez mais precoces, melhorando características como sabor e textura da carne, um processo que, segundo ele, contribuiu para abrir mercados internacionais.
A China deve continuar como um dos principais destinos. Mesmo com eventuais medidas de proteção ao produtor local, Júnior acredita que o consumo de carne bovina continuará avançando no país.
“A China, todo ano, começou a comprar carne do Brasil e ela não vai parar mais,” diz o empresário.
Já os Estados Unidos têm uma importância diferente. Para Júnior, estar habilitado a vender ao mercado americano funciona como uma espécie de selo de qualidade para outros destinos.
“Os Estados Unidos são muito mais o certificado do que o volume. Porque você estando habilitado para os Estados Unidos, o mundo inteiro acredita no Brasil.”
Segundo ele, boa parte da carne brasileira enviada ao país abastece a indústria de hambúrguer e carne moída. Com a redução do rebanho americano, o produto brasileiro ganhou espaço para complementar a oferta local.
Além de China e Estados Unidos, Júnior cita Emirados Árabes, outros mercados do Oriente Médio, Indonésia, Vietnã, Chile e Europa entre os destinos relevantes ou em processo de abertura para a carne produzida pelo grupo.
Veja também: ‘O agro brasileiro é, sim, sustentável’, diz CEO da Bayer
Mercosul x União Europeia: um acordo que ainda não vale para a JBJ
Júnior também vê com cautela os efeitos do acordo entre Mercosul e União Europeia sobre o agronegócio brasileiro. Na avaliação do empresário, a abertura comercial continuará condicionada à necessidade de abastecimento dos países europeus, que enfrentam pressão de produtores locais para proteger o mercado.
“Ele só vai dar certo o dia que eles precisarem de nós”, afirma. “A hora que faltar lá, eles vêm aqui. Aí vale o acordo. Se não faltar lá, o acordo está assinado, mas não está valendo”, diz Júnior Batista.
Veja também: 'Nem todo o agro está feliz’, diz CEO de vinícola sobre o acordo entre Mercosul-UE
“Quem vai salvar a fome do mundo vai ser o Brasil”
A confiança na expansão da JBJ acompanha uma visão otimista de Júnior sobre o futuro do agronegócio brasileiro.
Para ele, terra fértil, disponibilidade de água, capacidade produtiva e custos competitivos colocam o Brasil em posição privilegiada diante do aumento da demanda mundial por alimentos.
“Daqui há 10 ou 20 anos, o Brasil vai ser o salvador da fome do mundo. Quem vai salvar a fome do mundo vai ser o Brasil”, diz Júnior Batista.
Veja também: ‘A carne vermelha vai ficar cada vez mais escassa’, diz CEO da JBJ Agropecuária
* A jornalista viajou para a cobertura do leilão a convite da JBJ Agropecuária.
