O brasileiro ainda investe só no Brasil? Os números dizem que não

O brasileiro não investe no exterior? Isso é passado. A percepção de que o investidor brasileiro tem um forte “home bias”, a tendência de investir apenas no mercado doméstico, está sendo cada vez mais questionada pelos números.
Um levantamento da Elos Ayta mostra o crescimento dos negócios com as ações de empresas internacionais listadas na B3 por meio dos Brazilian Depositaty Receipts (BDR).
Ainda que sejam formalmente ativos brasileiros transacionados em reais, os BDR são o produto que mais se aproxima de um investimento no exterior. São recibos de ações de companhias não-brasileiras (em sua maioria, dos Estados Unidos). Sua oscilação depende da variação das cotações em outras bolsas, e também das oscilações do câmbio.
Os números mostram um crescimento contínuo e consistente dos negócios com esses papéis. Em 2020, o volume médio dos negócios com BDRs era de pouco mais de R$ 100 milhões por dia. Em 2026, considerando os resultados até junho, essa cifra havia aumentado praticamente dez vezes, para um volume médio diário de R$ 1,022 bilhão.
Apenas em 2023 houve uma retração momentânea do crescimento. Nos demais períodos, o aumento do volume de negócios, sempre um desafio no mercado brasileiro, foi um movimento ininterrupto (observe o Gráfico 1).
O crescimento da liquidez é um dos principais indicadores de amadurecimento de qualquer mercado. Quanto maior o volume negociado, maior tende a ser a eficiência na formação de preços e menor o custo implícito para investidores que desejam comprar ou vender ativos.
Mas ele não é o único indicador. No caso dos BDRs, esse avanço ocorreu em paralelo à ampliação da oferta de papéis e ao aumento do interesse dos investidores brasileiros por empresas globais.
A pesquisa da Elos Ayta considerou a quantidade de BDRs que estiveram presentes em 100% dos pregões. Ou seja, dos que foram negociados pelo menos uma vez em todos os dias nos quais a bolsa funcionou.
Quase tão importante quanto o volume financeiro, a presença nos pregões permite o trabalho do analista e a apreciação do investidor: sem negócios, não é possível entender o que prejudica ou beneficia os preços.
Aqui, também, os números mostram uma tendência consolidada. Em 2020, apenas um BDR, o da Apple, marcou presença em 100% dos pregões. A lista de BDRs presentes em 90% dos pregões era maior, mas contava com apenas 36 nomes.
Também nesse caso houve um crescimento consistente e contínuo dos números. Em 2026, havia 131 BDRs presentes em 100% dos pregões e 238 com presença em pelo menos 90% das sessões (observe o Gráfico 2).
A expansão do universo de BDRs permitiu que investidores locais acompanhassem de forma mais próxima as transformações da economia mundial. Ao longo dos últimos anos, temas como inteligência artificial, digitalização, transição energética, saúde avançada e infraestrutura tecnológica passaram a ter peso crescente nos mercados internacionais, ampliando o interesse pelos recibos negociados na B3.
A grande pergunta, porém, é se investir fora do Brasil faz sentido. A resposta vai ao encontro dos princípios mais consagrados da teoria financeira e da gestão de investimentos. Assim como ocorre em diversos países emergentes, o mercado brasileiro é mais volátil do que em economias desenvolvidas.
É fácil entender o motivo. Os principais setores econômicos listados na B3 são commodities (com Vale e Petrobras), serviços públicos / utilities (Axia, Sabesp) e o sistema financeiro (Itaú Unibanco, Bradesco e a própria B3).
As cotações das commodities são voláteis. Basta pensar no que ocorreu com os preços do petróleo desde o ataque americano e israelense ao Irã. Essa volatilidade se transfere às cotações das empresas do setor.
No caso dos bancos, os resultados dependem da taxa de juros (que define a inadimplência), que também é algo imprevisível. Apesar de os bancos brasileiros de varejo serem grandes, sólidos e solventes, a expectativa dos investidores com relação aos resultados muda muito, provocando solavancos nas ações.
Finalmente, as empresas de serviços públicos, que em economias desenvolvidas são consideradas uma “renda fixa da bolsa”, também estão sujeitas à imprevisibilidade das decisões do governo e das agências regulatórias, o que eleva a volatilidade estrutural de suas ações.
Por isso, uma comparação simples mostra que o mercado brasileiro é bem mais volátil do que o americano (observe o Gráfico 3).
Ao ancorar parte de sua carteira a empresas cujas ações não oscilam simultaneamente aos ciclos das commodities internacionais e dos juros brasileiros, o investidor reduz estruturalmente a volatilidade de sua carteira e consegue obter resultados mais previsíveis e melhores.
O crescimento expressivo da liquidez, o aumento da quantidade de ativos negociados regularmente e a expansão do universo de empresas acessíveis aos investidores brasileiros mostram que os BDRs deixaram de ocupar uma posição periférica no mercado de capitais nacional.
Esse movimento acompanha uma tendência observada em diversos mercados desenvolvidos. A diversificação geográfica passou a ser vista não apenas como uma alternativa, mas como uma ferramenta importante para reduzir a concentração de riscos associada a uma única economia.
Em um cenário de crescente integração financeira global, investidores têm buscado exposição a empresas que atuam em setores muitas vezes pouco representados na bolsa brasileira, como tecnologia, semicondutores, computação em nuvem, biotecnologia e consumo digital.
Se em 2020 o segmento ainda dava seus primeiros passos em direção à popularização, em 2026 ele já se consolidou como uma das principais pontes entre o investidor brasileiro e a economia global. E os números recentes indicam que esse processo de expansão continua em curso, sustentado por uma combinação de maior acesso, maior liquidez e crescente integração entre os mercados financeiros do Brasil e do exterior.
