“O brasileiro já está acostumado com instabilidade”: CFO da Multiplan (MULT3) diz que crescimento continua, mas na dose certa
Embora parte do mercado pinte um Brasil praticamente falido na economia, os shopping administrados pela Multiplan (MULT3) não parecem refletir essa narrativa. Quem anda pelo Morumbi Shopping aos finas de semana, por exemplo, vê corredores lotados e filas nas lojas. Além da experiência empírica, os resultados da companhia também mostram o apetite do público pelas […]

Embora parte do mercado pinte um Brasil praticamente falido na economia, os shopping administrados pela Multiplan (MULT3) não parecem refletir essa narrativa. Quem anda pelo Morumbi Shopping aos finas de semana, por exemplo, vê corredores lotados e filas nas lojas. Além da experiência empírica, os resultados da companhia também mostram o apetite do público pelas compras.
No terceiro trimestre de 2026 as vendas dos lojistas cresceram 5,9%, para R$ 6,4 bilhões, com aceleração ao longo do período. Você pode conferir os detalhes do resultado nesta reportagem do Money Times.
“O brasileiro já se acostumou com a volatilidade e com desafios macroeconômicos. A única diferença agora é que estamos em boa companhia: o mundo inteiro está enfrentando incertezas”, afirmou o CFO da companhia, Armando d’Almeida Neto, ao Money Times.
A avaliação do executivo é que a instabilidade econômica exige cautela, mas não muda os planos de longo prazo da companhia. Em um negócio intensivo em capital, no qual o desenvolvimento de um novo shopping pode levar anos entre a aquisição do terreno e a inauguração, a previsibilidade dos juros é importante.
Ainda assim, segundo o CFO, a decisão de investir passa principalmente pela identificação das necessidades do consumidor e das oportunidades em cada região.
Inclusive, um dos principais vetores de crescimento da Multiplan tem sido a expansão de seus empreendimentos. No Morumbi Shopping, em São Paulo, a sexta expansão ampliou a área comercial do complexo, incorporando novos espaços e operações ao empreendimento.
O projeto já apresenta yield on cost anualizado de 11,9%. Além disso, impulsionou as vendas nas mesmas lojas das áreas originais, que cresceram 4,4 pontos percentuais acima da média do portfólio nos nove primeiros meses de 2026.
Entre novembro de 2024 e novembro de 2026, a companhia terá entregue quase 51 mil m² de nova ABL por meio de expansões e ainda conta com aproximadamente 137 mil m² de potencial de crescimento em seu banco de terrenos.
“Você não muda a direção, você muda a velocidade”, resumiu Neto. Nesse sentido, a companhia já tem quatro expansões prioritárias no radar: BH Shopping, Vila de Mall, Park Shopping São Caetano e Jundiaí Shopping. De acordo com o CFO, os conceitos dos projetos estão prontos, mas a implementação depende de negociações com parceiros, aprovações e, principalmente, da demanda dos lojistas.
- Leia também, no Seu Dinheiro, portal parceiro do Money Times – “Selic alta não atrapalha mais”: CEO da Multiplan (MULT3) mostra como pretende continuar crescendo apesar do cenário macro
Com um portfólio de alta ocupação e projetos voltados à experiência do consumidor, a estratégia é seguir investindo — ainda que em ritmo diferente. Enquanto os juros permanecerem elevados, é a velocidade de execução que pode mudar.
Brasil seguirá atraindo marcas internacionais
Além da ampliação física, a renovação do mix de lojas é outro pilar da estratégia. Desde 2023, a Multiplan promoveu mudanças em aproximadamente 205 mil metros quadrados de seus shoppings, envolvendo 1.767 lojas, de acordo com o executivo.
A estratégia busca antecipar tendências de consumo, atrair marcas internacionais ao mercado brasileiro e ampliar a presença de operações já conhecidas para novas cidades. Um dos exemplos é a espanhola Bershka, de moda jovem e do mesmo controlador da Zara, que estreou no Brasil pelo Morumbi Shopping.
Na avaliação de Neto, o Brasil ainda representa uma oportunidade para varejistas internacionais, inclusive diante das dificuldades enfrentadas por outros mercados. Ele avalia que marcas que já operam no país também podem ampliar sua presença geográfica, chegando a cidades onde ainda não estão instaladas.
“A volatilidade nos mercados não vai impedir que novas marcas venham para o Brasil. Basta olhar o desempenho que elas têm aqui. Por exemplo, um lojista que pretende expandir considera que a China está desacelerando, que a Rússia enfrenta a guerra e que, nos Estados Unidos, já tem uma presença expressiva. O Brasil, então, se torna uma oportunidade. Acredito que muitas marcas que ainda não estão no país virão”. afirmou o executivo.
Estacionamento também entra na estratégia
A experiência do consumidor passa ainda pela gestão dos estacionamentos. A Multiplan promoveu reajustes nas tarifas neste ano, com aumentos médios próximos de 10%, embora os percentuais tenham variado entre os empreendimentos.
Neto explicou que a política de preços não tem como objetivo apenas elevar a receita, mas também evitar que os estacionamentos sejam utilizados por pessoas que não frequentam os shoppings. De acordo com ele, em alguns empreendimentos havia veículos que permaneciam estacionados durante a madrugada, mesmo com o centro comercial fechado.
” A tarifa serve para regular isso, para medir isso”, explicou.
A administração acompanha a ocupação das vagas e utiliza ferramentas de inteligência artificial para monitorar a utilização dos espaços. A intenção é preservar a disponibilidade de vagas para os clientes e evitar que a procura por estacionamento prejudique a experiência de visita.
No terceiro trimestre, a receita de estacionamento da companhia cresceu 17,5%, para R$ 99,6 milhões, acompanhando o aumento do fluxo de veículos e os reajustes tarifários.
Tecnologia aproxima shopping e consumidor
A digitalização também ganhou espaço na estratégia da companhia. O aplicativo Multi, que funciona como canal de relacionamento entre os shoppings e os clientes, já ultrapassou 11 milhões de downloads.
Pela plataforma, os consumidores podem consultar benefícios, participar do programa de fidelidade, pagar o estacionamento e até reservar restaurantes. A proposta é utilizar os dados de comportamento para oferecer experiências e ofertas mais alinhadas aos interesses de cada pessoa.
No terceiro trimestre, o número de sessões no aplicativo cresceu 16% em relação ao mesmo período de 2025. Já o volume financeiro movimentado pelo programa de relacionamento avançou cerca de 30% nos 12 meses até setembro, enquanto os resgates de benefícios aumentaram 64% na comparação anual.
Para Neto, essa conexão permite que a companhia conheça melhor seu público e aumente a efetividade das ações comerciais. A intenção é deixar de tratar os visitantes como um grupo homogêneo e estabelecer uma comunicação mais personalizada.
Multiplan quer crescer e remunerar acionistas
A estratégia de expansão também precisa caminhar junto com a disciplina financeira e a remuneração dos acionistas. Em 2024, a companhia aproveitou uma oportunidade de recompra de ações quando, segundoo CFO, os papéis negociavam a um cap rate próximo de 12%.
Para equilibrar a alavancagem e preservar a capacidade de investimento, a Multiplan passou a vender participações minoritárias em alguns empreendimentos. A lógica, segundo o executivo, foi negociar esses ativos com taxas de desconto menores do que aquelas utilizadas nas aquisições anteriores, gerando valor para os acionistas.
No terceiro trimestre de 2026, a companhia concluiu, por exemplo, a venda de uma participação de 9,33% no Park Shopping Barigüi, por R$ 250 milhões. A operação contribuiu para o avanço do resultado financeiro do período.
