O Brexit virou arrependimento — mas não há volta fácil para o Reino Unido

Dez anos após o referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit passou a ser visto por uma maioria de britânicos como um erro histórico.
Ainda assim, a possibilidade de reversão do processo segue distante, sem disposição clara do bloco europeu para reabrir rapidamente a porta para uma reintegração.
A data simbólica de 23 de junho de 2016, quando 51,9% dos eleitores votaram pela saída do bloco, contrasta com o cenário atual de insatisfação interna e cautela externa, em um debate que continua a dividir a política britânica.
Arrependimento crescente no Reino Unido
Pesquisas recentes indicam uma mudança relevante na percepção pública. Um levantamento do instituto YouGov mostra que 56% dos britânicos consideram que o Brexit foi um erro, enquanto 62% avaliam o resultado como um fracasso.
O tema também reacendeu expressões políticas como “Breturn” e “Breunion”, usadas para descrever uma possível reaproximação com a União Europeia, embora sem perspectiva concreta no curto prazo.
Segundo especialistas,o referendo não apenas definiu uma decisão geopolítica, mas reorganizou o sistema político britânico em dois campos duradouros.
“Quase dois terços dos britânicos ainda se identificam como Leavers ou Remainers”, afirmou Sara Hobolt, professora da London School of Economics (LSE), à AFP.
Europa mantém cautela sobre retorno
Apesar da mudança de humor no Reino Unido, diplomatas da União Europeia indicam que não há pressa em reabrir o processo de adesão. A posição predominante é de que um eventual retorno só seria possível sob as regras completas do bloco, sem exceções.
“Eles não estão dispostos a aceitar as obrigações que fazem parte da adesão à UE”, disse um diplomata ouvido pela AFP, ao destacar que o funcionamento interno do bloco se tornou mais simples após a saída britânica.
Outro representante europeu afirmou que o fim da participação britânica reduziu o tempo gasto em negociações internas e disputas por exceções regulatórias, o que teria aumentado a eficiência do bloco em algumas áreas.
Um impacto político que ainda reverbera
O Brexit também alterou o equilíbrio político dentro da União Europeia. Segundo o pesquisador Sébastien Maillard, do Chatham House, a saída britânica abriu espaço para avanços em iniciativas de “autonomia estratégica” e para políticas industriais mais integradas entre os países-membros.
“O Reino Unido não tem consciência de quanto a UE mudou nesses dez anos”, afirmou o especialista.
Ao mesmo tempo, o impacto interno no Reino Unido segue visível. O país está prestes a ter seu sétimo primeiro-ministro em pouco mais de uma década, em meio a um cenário de fragmentação política intensificada pelo referendo.
O papel da nova liderança trabalhista
A discussão sobre um eventual reposicionamento britânico em relação à União Europeia voltou ao debate político com o nome de Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester e possível sucessor no campo trabalhista.
Burnham já classificou o Brexit como um erro em declarações recentes, mas evita defender abertamente uma reversão imediata. Em entrevista à ITV, afirmou que existe um “argumento de longo prazo” para o retorno à UE, sem estabelecer prazos.
Especialistas avaliam que qualquer avanço nessa direção dependerá do equilíbrio entre a opinião pública e a necessidade de estabilidade política interna, em um país ainda dividido entre “Leavers” e “Remainers”.
Um divórcio ainda sem reconciliação
Apesar de sinais de reaproximação pontual, diplomatas europeus e analistas apontam que a relação entre o Reino Unido e a União Europeia permanece marcada por desconfiança e cautela mútua.
Os próximos encontros entre as partes devem se concentrar em ajustes pontuais, como mobilidade de jovens e facilitação comercial, sem mudanças estruturais no acordo atual.
Dez anos depois do referendo, o Brexit segue como um divisor político e social, enquanto a ideia de uma reconciliação plena permanece distante — tanto em Londres quanto em Bruxelas.
*Com AFP
