O caixa, a dívida e as receitas da Ambipar (AMBP3) — veja o que a empresa está oferecendo para conseguir aprovar sua recuperação judicial

A recuperação judicial da Ambipar (AMBP3) deve sair. Os credores assinaram um termo de apoio ao processo, mas exigiram uma série de garantias e um “infiltrado” para vigiar cada centavo que entra e sai.
E isso não é sem motivo. Junto ao documento que relevou os detalhes do acordo, a companhia abriu o seu “caixa de pandora”. Alocações em CDBs do Grupo Master, posição em pré-precatórios sem data de pagamento e investimento em um fundo sem liquidez ou transparência.
O relatório mostra que o caminho para a reestruturação da Ambipar será rigoroso e lento, mas a empresa traçou suas metas.
Entre os desafios, estão a retomada dos contratos perdidos por falta de confiança, recuperação das margens, renegociação de custos operacionais e crescimento das operações internacionais. Tudo deve se normalizar entre 2030 e 2031, segundo o plano.
A salvação da Ambipar?
A proposta central da Ambipar é uma ampla troca de dívida. Pelo plano, os credores concordaram em substituir títulos antigos que somavam US$ 1,043 bilhão por US$ 925 milhões em novas notas garantidas.
Os novos papéis terão as seguintes condições:
- Prazo: sete anos, com pagamento integral do principal no vencimento.
- Juros: 10% ao ano na modalidade PIK (quando os juros são incorporados ao principal) durante os primeiros 18 meses. Depois desse período, a remuneração passa para 2% ao ano em PIK e 8% ao ano pagos em dinheiro.
Na prática, a estrutura dá fôlego à companhia. O principal só precisará ser quitado daqui a sete anos e, durante os primeiros 18 meses, não haverá desembolso de caixa para pagamento de juros.
O acordo foi formalizado por meio de um Acordo de Apoio à Reestruturação (RSA), divulgado em 9 de julho, com credores que representam mais de 53,8% das chamadas green notes, com vencimento em 2031 e 2033.
O Itaú BBA também participa da negociação após reestruturar separadamente uma dívida de US$ 90 milhões.
Também faz parte do plano da Ambipar um pagamento de US$ 50 milhões aos credores, divididos em duas parcelas de US$ 25 milhões cada. A primeira parcela está prevista para após a confirmação da reestruturação, vinculada à venda de pré-precatórios ou ao prazo de 180 dias após a aprovação do plano de RJ.
Já a segunda parcela será paga em até um ano após a aprovação do plano, ou antes, caso a receita líquida da venda dos pré-precatórios exceda US$ 25 milhões.
Garantias
O alívio financeiro, porém, veio acompanhado de exigências relevantes.
A Ambipar ofereceu em garantia 100% das ações de suas duas principais divisões reorganizadas — NewCo Environment e NewCo Response — além de parte da participação na subsidiária americana Witt O'Brien.
Os credores também exigiram a criação da figura do chamado "Fiscalizador Ativo" (Watchdog).
Esse profissional terá acesso em tempo real às contas bancárias e aos sistemas financeiros da companhia, podendo vetar movimentações que contrariem o orçamento ou os termos acordados com os credores.
Na prática, trata-se de uma espécie de intervenção consentida. A Ambipar continua sob o comando de seus acionistas, mas as principais decisões financeiras passam a ser monitoradas por representantes dos credores que aceitaram a reestruturação.
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O caixa, as dívidas e as receitas
Em julho de 2025, a Ambipar declarava ter R$ 4,7 bilhões em caixa e pegou o mercado de surpresa ao, em outubro, entrar com um pedido de recuperação judicial alegando falta de liquidez para honrar seus compromissos.
Em meses, o montante havia diminuído para R$ 2,5 bilhões, e sua composição chamou atenção. Apenas R$ 295 milhões estavam em dinheiro vivo ou investimentos de fácil resgate em bancos de primeira linha.
Todo o restante da conta — quase 90% do que a empresa chamava de caixa — estava alocado em ativos sem liquidez imediata. O relatório que divulgou o acordo detalhou a composição dessas posições.
O caixa
Em dezembro passado, cerca de R$ 1,2 bilhão estava investido em pré-precatórios federais — dívidas do governo já reconhecidas pela Justiça, mas que ainda não têm data para pagamento e podem levar anos ou até décadas para serem convertidas em dinheiro.
Além disso, R$ 247 milhões estavam aplicados no Banco Pleno, instituição ligada ao Banco Master, liquidado em fevereiro deste ano. O documento ressalta que a instituição operava normalmente em dezembro de 2025.
Além dos pré-precatórios e das aplicações financeiras, o caixa em dezembro de 2025 incluía R$ 533 milhões em ações da Empresa Metropolitana de Água e Energia (Emae) e R$ 809 milhões no FIDC Fênix.
Desde então, porém, essas posições passaram por mudanças relevantes.
A participação de 23% na Emae foi vendida à Sabesp por R$ 171,6 milhões neste ano. Já a exposição ao FIDC caiu para R$ 83,9 milhões por estar ligado a dívidas da própria Ambipar.
Os cotistas do fundo são subsidiárias da Ambipar, enquanto os ativos são recebíveis de uma empresa de um dos sócios da companhia, que, por sua vez, presta serviços à Ambipar.
No documento, a empresa afirma que irá vender os pré-precatórios para pagar os credores. Já as cotas dos FIDCs e de outros fundos existentes serão incluídas na lista de ativos de garantia para as novas Notas Garantidas.
Em fevereiro deste ano, a empresa tinha apenas R$ 280 milhões em aplicações líquidas em caixa ou em bancos de primeira linha.
A dívida
Como parte da reestruturação, a Ambipar dividiu o passivo em três frentes:
- Dívida na recuperação judicial (R$ 11,5 bilhões): concentra a maior parte do problema financeiro e está totalmente incluída no processo.
- Dívida de frotas (R$ 795 milhões): relacionada a leasing e financiamentos de caminhões, mantida fora da recuperação judicial para preservar a operação da companhia.
- Dívida internacional (R$ 980 milhões): valores devidos por subsidiárias nos Estados Unidos e Canadá (cerca de R$ 594 milhões) e na Europa (aproximadamente R$ 14 milhões), também mantidos fora do processo para evitar impactos sobre os contratos globais do grupo.
As receitas
Após faturar R$ 6,1 bilhões em 2025, a Ambipar projeta uma leve queda para R$ 5,9 bilhões em 2026. Segundo a empresa, o recuo reflete principalmente os efeitos da recuperação judicial sobre a divisão de negócios Environment, que atua em gestão ambiental, economia circular e descarbonização.
O motivo é a cautela dos clientes, que hesitaram em renovar contratos logo após o pedido de recuperação.
“As operações de Environment têm sido mais afetadas pelo processo de RJ, com expectativa de redução de 12% em seu tamanho no Brasil em 2026 (principalmente devido à diminuição de volume em Materiais Reciclados e Movimentação)”, afirma o relatório.
A expectativa da administração é que a confiança dos clientes volte gradualmente a partir de 2027. A companhia projeta alcançar R$ 7,3 bilhões em receita até 2030.
Além disso, o grupo projeta uma expansão da margem Ebitda até 2030, impulsionada principalmente pela redução de custos de leasing e otimização da estrutura operacional.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) deve subir de R$ 937 milhões em 2026 para R$ 1,39 bilhão em 2030. Já a margem deve aumentar de 15,7% para 18,3%, respectivamente.
A maior confiança está no negócio Response, de gerenciamento de crises e atendimento a emergências envolvendo acidentes com produtos químicos e poluentes. O segmento é considerado mais resiliente, com crescimento concentrado nas operações no exterior (especialmente nos EUA).
