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TecnologiaBDR
22/07/2026
5 min

O caminho do Pix até comunidades ribeirinhas da Amazônia

O caminho do Pix até comunidades ribeirinhas da Amazônia

Serviços que boa parte do Brasil considera básicos (como transferir dinheiro via Pix, consultar um médico à distância, assistir a uma aula) dependem de uma tecnologia que nem sempre está totalmente disponível — sinal de internet. Em comunidades ribeirinhas do Pará, por exemplo, isso fazia com que a população tivesse acesso reduzido a facilidades que, para outras pessoas do país, já são rotina.

O programa Rede Amazônia +Conectada instalou infraestrutura de conexão em mais de 600 domicílios de 62 comunidades tradicionais do município de Juruti, no Baixo Amazonas.

Com a rede funcionando, moradores passaram a fazer transações por Pix, acessar telemedicina e estudar online, segundo o relatório da Microsoft, uma das empresas parceiras do projeto.

“Sob as árvores da maior floresta tropical do mundo, 30 milhões de brasileiros vivem suas rotinas diárias”, disse Daniel Grynberg, diretor executivo do Grupo +Unidos no documento. “Eles precisam de dignidade, renda e conexão para que possam continuar vivendo aqui e protegendo a floresta", afirmou.

A conectividade na Amazônia Legal avançou nos últimos anos com a expansão da fibra óptica e da internet móvel. No Amazonas, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), a conexão chegou a 94,3% dos domicílios em 2025.

O número, porém, se concentra nos lares urbanos. Os três estados com menor proporção de domicílios conectados do país são Acre, com 75,2%, Amazonas, com 77,7%, e Pará, com 79,4% — os únicos com mais de 20% das residências sem acesso, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em 2024. No Distrito Federal, por exemplo, o índice é de 96,2%.

A desigualdade se agrava fora das cidades. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) sobre a região Norte descreve baixa qualidade de conexão, cobertura limitada e preços altos — com trechos em quehá poucos provedores e velocidades baixas.

"O cenário desolador de acesso à internet na região não é nenhuma novidade para nortistas nem para pesquisadores", afirmou Luã Cruz, pesquisador do programa de telecomunicações e direitos digitais do Idec, ao apresentar o estudo.

O projeto nasceu antes da Microsoft

A Rede Amazônia +Conectada não começou como iniciativa da big tech.

O programa foi lançado em 13 de junho de 2023, em São Paulo, como uma iniciativa de R$ 10 milhões apoiada pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) e executada pelo Grupo +Unidos — organização que articula empresas americanas com operação no Brasil em projetos sociais. Ted Gehr, então diretor da agência no país, participou do lançamento.

"Esperamos que o acesso a uma tecnologia de banda larga de qualidade e alta velocidade facilite o desenvolvimento local e promova a transformação social", afirmou Grynberg na ocasião.

Em Juruti, o terreno já estava preparado. A articulação local coube ao Instituto Juruti Sustentável (IJUS), criado anos antes para conduzir a agenda de desenvolvimento do município, que seleciona as famílias participantes por critérios de renda e inclusão.

A meta anunciada no lançamento era chegar a 750 residências, em um território de 8.305 quilômetros quadrados e cerca de 240 comunidades espalhadas por planalto e várzea.

A estrutura sempre foi de coalizão, com cada parceiro em uma função: a Conecta Amazônia na infraestrutura de conexão — fibra óptica, roteadores, antenas Starlink e rádio, com internet gratuita por 12 a 24 meses —, o escritório Trench Rossi Watanabe na consultoria jurídica, a escola EBAC com bolsas de estudo, e as instituições de pesquisa J-PAL e Muva na medição de impacto. Alcoa, Qualcomm e Dell Technologies também integram o grupo.

Como a Microsoft entrou?

A big tech se somou à coalizão pela frente de capacitação. Por meio da iniciativa Microsoft Elevate, a empresa oferece formação que vai da alfabetização digital básica aos fundamentos de inteligência artificial (IA) — foram mais de 1.500 aprendizes certificados em habilidades digitais, segundo o relatório da companhia.

"Com a internet, finalmente posso acessar materiais e cursos que nunca tivemos. Quero ensinar à próxima geração que a tecnologia pode abrir portas, mesmo na Amazônia", relata Tiago Marques, morador da comunidade Pau D'Arco e estudante de pedagogia, em depoimento à empresa.

O financiamento, porém, mudou de mãos ao longo do caminho. Em outubro de 2025, quando o programa lançou um documentário de 25 minutos sobre a experiência, a Alcoa Foundation aparecia como principal patrocinadora, garantindo a continuidade das atividades por mais um ano.

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A proporção

Os números convivem com uma escala desproporcional ao problema. São 609 domicílios em um município com cerca de 240 comunidades, dentro de uma região onde vivem os 30 milhões de brasileiros que Grynberg cita.

O contraste aparece também no uso das ferramentas que a conexão viabiliza. Segundo a pesquisa TIC Domicílios, do Comitê Gestor da Internet no Brasil,o Pix é usado por 98% dos brasileiros da classe A e por 60% das classes D e E. No caso da IA, a distância é maior: 69% na classe A contra 16% nas classes D e E.

"O acesso à tecnologia não basta se a conectividade for limitada, ou faltarem habilidades digitais", afirmou Fabio Storino, coordenador da pesquisa, ao dizer que os benefícios da tecnologia podem seguir concentrados em quem já tem mais oportunidades.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
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