O capital que está ajudando o agro do Norte a crescer
Da agricultura familiar a produtores de maior porte, crédito financia custeio e investimentos; Banco da Amazônia prevê R$ 13 bilhões para o setor em 2026/2027

Quando Mauro Ferreira de Freitas chegou a Campos Lindos, no Tocantins, em 2000, uma das primeiras dificuldades que encontrou foi conseguir dinheiro para plantar. Sem acesso ao crédito bancário de que precisava para financiar a lavoura, recorria a empréstimos de tradings para colocar a produção em campo.
A relação com o sistema financeiro mudou quando transferiu sua conta para uma agência do Banco da Amazônia em Araguaína. Mais de duas décadas depois, o crédito acompanha diferentes momentos da Fazenda Santa Luzia, administrada por Freitas e pela família.
A propriedade trabalha com um sistema que combina agricultura e pecuária. A soja é plantada no início das chuvas e colhida entre janeiro e fevereiro. Depois, entra o milho, cultivado junto com braquiária. Com a retirada do grão, o gado aproveita a pastagem e os resíduos que permanecem na área.
“É uma fazenda familiar. Eu, minha esposa, meus dois filhos e uma das noras trabalhamos no negócio”, afirma Freitas, de 62 anos. Ele concentra o planejamento da propriedade, a busca por recursos e as negociações de maior volume, enquanto os filhos participam das decisões e dividem a gestão da operação.
Ao longo dos anos, o produtor diz ter reinvestido na própria atividade boa parte do resultado obtido com as safras. O dinheiro foi usado para comprar equipamentos e dar mais velocidade ao plantio e à colheita. Mais recentemente, o financiamento do Banco da Amazônia ajudou a construir um armazém dentro da fazenda.
A estrutura mudou uma etapa importante da operação. Com espaço próprio para armazenar a produção, Freitas ganhou mais flexibilidade depois da colheita e deixou de depender da venda imediata de toda a produção.
“O armazém nos deu mais tranquilidade e a condição de receber o produto rapidamente. Hoje temos essa estrutura”, diz.
A experiência da Fazenda Santa Luzia ajuda a entender uma mudança no papel do crédito rural. O recurso não entra apenas para pagar os custos de uma safra. Pode também financiar máquinas, infraestrutura e outros investimentos que ampliam a capacidade de uma propriedade ao longo do tempo.
Na Região Norte, o movimento ganhou escala. No ciclo 2025/2026, o Banco da Amazônia contratou R$ 2,868 bilhões em operações destinadas à agricultura familiar, considerando recursos próprios e repasses. O valor foi 47% superior ao registrado no ciclo anterior.
Entre 2023 e 2026, o segmento recebeu R$ 6,2 bilhões em crédito, distribuídos em 152,9 mil contratos que beneficiaram 84,2 mil famílias.
Do dinheiro para a safra ao investimento no negócio
O crédito rural atende necessidades diferentes conforme o estágio e o perfil de cada propriedade. As operações de custeio financiam despesas diretamente ligadas ao ciclo produtivo, como compra de insumos agrícolas, alimentação animal e atividades de recria e engorda.
Nas linhas de investimento, o horizonte é outro. O dinheiro pode ser usado na aquisição de máquinas e matrizes, construção de galpões, distribuição de água, instalação de cercas, recuperação de pastagens e preparo do solo.
No Banco da Amazônia, cerca de 75% do crédito concedido ao setor é destinado ao custeio agrícola e pecuário. Os outros 25% são direcionados a investimentos.
Entre as opções oferecidas pela instituição estão o Giro Produtor Rural, para a compra de insumos, matérias-primas e produtos destinados ao agronegócio; a linha de Máquinas e Equipamentos, voltada à aquisição de ferramentas e tecnologias; e o Financiamento de Veículo Produtor Rural, para compra ou troca de veículos utilitários.
O portfólio inclui ainda linhas para projetos que combinam produção e preservação ambiental, como a Biodiversidade, e para empreendimentos que utilizam fontes renováveis de energia, por meio do FNO Energia Verde. Agricultores familiares enquadrados no grupo A do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar podem acessar o Pronaf A.
Para Guido Bianchi, gerente executivo do Agronegócio do Banco da Amazônia, o financiamento permite antecipar investimentos que poderiam levar anos para sair do papel caso dependessem exclusivamente do capital próprio do produtor.
“O que o produtor faria com recursos próprios em dez anos, considerando as oscilações das commodities, pode ser feito em um ano com o aporte de uma instituição financeira. Assim, ele consegue preparar a propriedade para produzir melhor em um período mais curto”, afirma.
Antes de financiar, é preciso saber onde investir
A decisão de contratar crédito começa antes da assinatura do contrato. O primeiro passo é identificar o que a propriedade precisa e qual investimento pode trazer resultado para a operação, levando em conta também a capacidade de pagamento do produtor.
É nessa etapa que a assistência técnica ganha importância. A visita à propriedade permite avaliar o sistema produtivo, identificar gargalos e definir quais mudanças fazem sentido para aquela atividade.
Na pecuária, o diagnóstico pode apontar a necessidade de subdividir pastagens, melhorar a distribuição de água ou alterar o sistema de produção. Na agricultura, pode indicar a correção do solo ou a aquisição de equipamentos. A partir dessa avaliação, o produtor apresenta um projeto ou solicita ao banco a análise de um limite de crédito.
Para agricultores familiares, é necessário ter o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), exigido para acessar as linhas do Pronaf. Com o cadastro e a definição da finalidade do financiamento, o produtor pode ser direcionado à modalidade adequada ao seu perfil.
Na Região Norte, o acesso envolve ainda um desafio que não aparece em uma planilha de crédito: a distância. As dimensões do território e as dificuldades logísticas tornam mais complexa a chegada dos serviços financeiros às áreas rurais mais afastadas.
Para ampliar esse alcance, o Banco da Amazônia atua em parceria com órgãos públicos e serviços de assistência técnica. No Pronaf, parte do processo pode ser iniciada digitalmente. O técnico vai até a propriedade, registra localização, imagens e informações sobre a produção e encaminha os dados ao sistema do banco.
No ciclo 2025/2026, as operações chegaram a 438 dos 450 municípios da Região Norte, o equivalente a 97% de cobertura territorial. No período, agricultura familiar e pequenos produtores empresariais contrataram R$ 7,238 bilhões. Entre médios e grandes produtores, foram R$ 4,802 bilhões.
Para o ano agrícola 2026/2027, o Banco da Amazônia projeta R$ 13 bilhões em crédito rural para produtores de diferentes portes. O volume deve atender tanto às necessidades de custeio quanto aos investimentos destinados à modernização das propriedades.
Uma fazenda, duas décadas de investimento
A história da Fazenda Santa Luzia acompanha, em escala menor, uma transformação que ocorre em parte do campo da região. Ao longo de mais de 20 anos, Freitas passou de um cenário em que dependia de crédito de tradings para financiar a lavoura a uma operação com equipamentos próprios e capacidade de armazenagem.
O caminho não foi construído apenas com financiamento. O produtor reinveste o resultado das safras, divide a gestão com os filhos e adapta a operação às condições de mercado e às características da terra. O crédito entra como uma das ferramentas para acelerar esse processo.
Quando chegou a Campos Lindos, Freitas encontrou uma região com poucas estradas. Os próprios produtores se organizavam para abrir caminhos e melhorar o acesso às propriedades.
A infraestrutura mudou desde então, assim como o tamanho e a complexidade dos negócios rurais. Mas uma decisão continua presente no dia a dia da fazenda: pensar hoje no investimento que pode fazer diferença na próxima safra.
É nessa conta que o crédito deixa de ser apenas um recurso para financiar o plantio e passa a ocupar outro espaço na gestão rural: o de capital para ampliar a capacidade de negócios.
