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Mercado ImobiliárioFII
17/06/2026
5 min

O condomínio de luxo israelense que levou Gwyneth Paltrow ao centro de uma guerra histórica

O condomínio de luxo israelense que levou Gwyneth Paltrow ao centro de uma guerra histórica

A atriz e empresária Gwyneth Paltrow virou o centro de uma polêmica que vai além do mundo do entretenimento. Ela é a estrela da campanha publicitária do 51 Park, empreendimento imobiliário de luxo em construção na cidade israelense de Herzliya, a cerca de 16 quilômetros ao norte de Tel Aviv. O vídeo, gravado em Nova York pela agência israelense WhyWorry, mostra Paltrow acordando em um apartamento de alto padrão com vista para o Central Park, saindo para correr e orientando seu motorista a levá-la ao "51 Park, em Herzliya, Israel". "Existe um motivo para os edifícios mais icônicos do mundo estarem perto de um parque", diz ela na peça.

A campanha gerou reações negativas nas redes sociais em meio ao aumento das críticas internacionais às operações militares israelenses em Gaza. Mas a polêmica em torno do anúncio tem uma camada adicional — e ela está relacionada à história da região onde o empreendimento está sendo construído.

O território e seu histórico

Parte das críticas ao empreendimento associa a área costeira de Herzliya à antiga aldeia palestina de Al-Haram, uma localidade que tinha cerca de 520 habitantes em meados da década de 1940. Segundo registros históricos, Al-Haram foi despovoada durante a guerra árabe-israelense de 1948. Da antiga localidade, resta hoje a mesquita histórica de Sidna Ali como principal vestígio material do antigo assentamento.

Nas redes sociais, ativistas associaram diretamente o 51 Park a esse histórico. "Aquela praia era a aldeia palestina de Al-Haram, esvaziada de seu povo em 1948. Os israelenses chamam isso de moradia de luxo. As pessoas expulsas daquela costa costumavam chamá-la de lar", escreveu o perfil RyanRozbiani. A jornalista britânica Carole Cadwalladr, conhecida por investigações sobre desinformação eleitoral, também ironizou a participação de Paltrow na campanha em publicações nas redes sociais.

O debate sobre o território permanece politicamente sensível e integra discussões mais amplas sobre os deslocamentos populacionais ocorridos durante a guerra de 1948 e suas consequências para israelenses e palestinos.

Segundo dados do Instituto Central de Estatísticas de Israel, Herzliya é hoje a segunda cidade mais cara do país, atrás somente de Tel Aviv. No terceiro trimestre de 2025, o preço médio de um apartamento na cidade chegou a 3,66 milhões de shekels (cerca de US$ 1 milhão). No segmento de luxo, imóveis novos com 140 a 220 metros quadrados em bairros nobres variam entre 6 e 15 milhões de shekels — o equivalente a US$ 1,9 milhão e US$ 4,7 milhões. As coberturas do 51 Park, anunciadas por cerca de US$ 10 milhões, estão no topo dessa faixa.

O que é o 51 Park

O 51 Park é composto por duas torres residenciais de luxo com 51 andares cada, projetadas para oferecer vista para o Parque de Herzliya, o litoral mediterrâneo e o entorno urbano da cidade. O empreendimento prevê 646 apartamentos com plantas que variam de dois a seis dormitórios, além de coberturas anunciadas por valores próximos de US$ 10 milhões. O projeto inclui ainda piscina, cinema privativo, áreas de lazer e espaços comerciais.

O empreendimento é desenvolvido pela Aviv Melisron, uma das maiores incorporadoras imobiliárias de Israel. A companhia resulta da fusão entre o Aviv Group, construtora fundada há mais de seis décadas, e a Melisron, holding imobiliária controlada pela empresária Liora Ofer e integrante do índice TA-35 da Bolsa de Valores de Tel Aviv. Enquanto a Melisron construiu sua reputação sobretudo na operação de shopping centers e centros comerciais, o Aviv Group ganhou notoriedade por projetos de engenharia e incorporação residencial de grande porte.

Colagem mostra imagens do empreendimento 51 Park, em Herzliya, com fachada envidraçada, torres residenciais e área de piscina.

Imagens do 51 Park, empreendimento residencial de luxo em Herzliya, Israel (Divulgação)

Quem é a construtora

O portfólio do grupo inclui alguns dos edifícios mais conhecidos de Israel. Entre eles estão a Moshe Aviv Tower, em Ramat Gan — um dos edifícios mais altos do país, com 68 andares, o complexo comercial e hoteleiro Rothschild 22, na avenida Rothschild, em Tel Aviv, e o hospital privado Assuta, um dos maiores centros médicos privados de Israel. O grupo assina ainda a Lieber Tower, no bairro histórico de Neve Tzedek, e as Sea and Sun Towers, na região costeira de HaTsuk.

Em Herzliya, a Aviv Melisron mantém outros projetos além do 51 Park. O empreendimento integra o complexo urbano Kiryat Shechakim, onde o grupo também venceu licitações para o desenvolvimento de outras áreas residenciais, comerciais e institucionais. Em uma dessas frentes, o projeto prevê 733 unidades habitacionais próximas à estação ferroviária da cidade.

O portfólio local inclui ainda o Aviv on Maslul, composto por duas torres de 27 andares planejadas para a região do antigo aeródromo de Herzliya, próxima ao bairro de Kfar Shmaryahu, além de empreendimentos voltados ao segmento de luxo em Herzliya Pituach, uma das áreas mais valorizadas do litoral israelense.

A escolha de Paltrow

A atriz de 53 anos tem ascendência judaica pelo lado paterno — seu pai, o cineasta Bruce Paltrow, era judeu — e não comentou as críticas à campanha. A agência WhyWorry descreveu Paltrow como uma personalidade que representa "elegância internacional" e um estilo de vida premium.

O anúncio foi publicado nas redes sociais da Aviv by Melisron em 7 de junho e sua repercussão ultrapassou rapidamente os limites do mercado imobiliário israelense. O que começou como a divulgação de um empreendimento de luxo acabou se transformando em uma discussão mais ampla sobre memória histórica, geopolítica e os limites do marketing de alto padrão em meio a um dos conflitos mais controversos do último século.

AutorPaulo Holland
FonteExame
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