‘O desafio é organizacional’: CFO trocou curso de finanças por IA e criou 5 níveis de capacitação
André Luís Rodrigues fez o PIACC da Saint Paul e usou o repertório para reestruturar a governança de inteligência artificial na WEG

"O verdadeiro desafio da inteligência artificial não é tecnológico." A frase de André Luís Rodrigues, vice-presidente administrativo financeiro da WEG, resume o que ele levou da Saint Paul Escola de Negócios para dentro da fabricante catarinense de equipamentos elétricos.
Antes de chegar a essa conclusão, ele tentou duas vezes entrar na turma do PIACC, Programa de Inteligência Artificial para C-levels, Conselheiros e Acionistas da escola. Nas duas, a grade de aulas bateu de frente com sua agenda de viagens. Na terceira tentativa, decidiu que não abriria mão.
"Chegou um momento, em um ano, que eu falei: bom, eu tenho que fazer isso. E a hora que eu recebi a grade, eu falei: encaixou perfeitamente. Não perdi nenhuma aula", diz o executivo.
CFO da WEG desde 2015, Rodrigues concluiu o curso e usou o repertório para reestruturar a governança de IA nas áreas administrativas da companhia. O resultado foi um programa interno com cinco níveis de capacitação, que vai de uma formação básica de duas horas até um curso de 180 horas para formar programadores dentro de casa.
Da engenharia química ao comando financeiro
Formado em engenharia química pela Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), em São Bernardo do Campo, Rodrigues começou a carreira na Rhodia, multinacional francesa de química e especialidades, atuando em processos e produção de fábrica.
A virada para as finanças veio por um convite interno, para uma área chamada controle de gestão, uma função de análise de negócios voltada a explicar variações de margem e propor planos para melhorar a rentabilidade.
"O fato de eu vir de outra área me ajudou muito a ter uma visão além de finanças em tudo que desenvolvi", diz o executivo sobre a transição.
A trajetória na Rhodia incluiu um MBA em finanças corporativas na USP, uma especialização em administração pela FAAP, o cargo de gerente financeiro para a América Latina e, mais tarde, diretor financeiro global da unidade de negócios, com quatro anos de expatriação entre Alemanha e França.
De volta ao Brasil, assumiu a vice-presidência de finanças da Rhodia para toda a América Latina. Depois de 20 anos na empresa, buscou um setor diferente e se tornou CFO da JHSF Participações, com operações em shoppings, no Fasano e em aeroporto. Em 2015, veio o convite da WEG, sediada em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.
Por que IA e não finanças
Aluno de José Roberto Securato ainda no MBA da USP e próximo de José Cláudio Securato pela atuação conjunta no Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), Rodrigues já acompanhava a Saint Paul desde os primeiros anos da escola. Diante da formação em inteligência artificial, e não em finanças corporativas, ele diz que a escolha teve um motivo direto.
"Eu buscava uma formação executiva que combinasse visão estratégica, aplicação prática e discussão sobre o impacto da IA nos negócios", ele complementa.
Na WEG, Rodrigues já respondia pela liderança da frente deinteligência artificialnas áreas administrativas, ao lado da equipe de TI. Segundo ele, acompanhar notícias e testar ferramentas não bastava: era preciso conhecer fundamentos, oportunidades, limitações, riscos, governança e, principalmente, como gerar valor para o negócio.
André Luís Rodrigues, vice-presidente administrativo financeiro da WEG
O módulo que fez ele repensar
Entre os módulos do curso, um se destacou na memória dele: a aula de Patrícia Peck sobre a definição de propósito antes de qualquer implementação de inteligência artificial. Rodrigues chegou a dar um feedback ao curso sugerindo que esse conteúdo fosse antecipado, e não deixado para o fim da formação.
"Eu senti que estava seguindo talvez o erro de 70%, 80% das organizações que começam a implementar IA por IA, sem definir um propósito específico. Isso me ajudou a repensar e corrigir algumas coisas que eu estava fazendo dentro da WEG", diz.
Cinco níveis de capacitação
Com a formação concluída, Rodrigues diz que passou a ter base para definir objetivos estratégicos para a IA nas áreas administrativas, construir uma governança mais sólida e estruturar a priorização de casos de uso, hoje validada por um grupo de trabalho interno. A gestão de riscos também ganhou mais atenção. A WEG já contava com um comitê de inteligência artificial formado por executivos de C-level, do qual o CFO participa.
A principal entrega prática foi a criação de cinco níveis de formação interna em IA para capacitar os colaboradores. O primeiro é uma formação básica a distância, de duas horas, para todos os funcionários. No outro extremo está um programa de upskilling de 180 horas, para formar programadores dentro da própria empresa.
Para o CFO, a formação confirmou a tese que hoje orienta sua atuação à frente do tema na companhia: a tecnologia, segundo ele, é a parte mais simples do desafio. O que pesa de verdade, diz, é o lado organizacional.
