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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
12/09/2026
4 min

O desconto da gasolina e a conta do etanol: por que as usinas não devem perder

A queda do imposto sobre a gasolina poderia pressionar o biocombustível, mas compensação prevista em lei mantém equilíbrio para produtores, avalia BTG

O desconto da gasolina e a conta do etanol: por que as usinas não devem perder

A redução de impostos sobre a gasolina deve ter impacto neutro para as empresas produtoras de açúcar e etanol, segundo análise do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).

O banco avalia que o mecanismo de compensação criado pela Lei 235/2026 deve preservar a competitividade do etanol hidratado e evitar pressão negativa sobre companhias como São Martinho, Jalles Machado e Adecoagro.

Segundo os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, embora uma gasolina mais barata pudesse reduzir a atratividade do etanol para o consumidor, a compensação tributária prevista na legislação deve equilibrar o efeito para os produtores. O banco manteve recomendação neutra para as três empresas acompanhadas.

A mudança ocorre após ogoverno federal reduzir o PIS/Cofins da gasolina A em R$ 0,63 por litro, valor superior ao corte inicialmente esperado de R$ 0,44 por litro. A medida entrou em vigor em 10 de setembro e permanece válida até 5 de outubro.

Inicialmente, a Petrobras anunciou um aumento no preço da gasolina A, mas voltou atrás e informou que não aplicaria o reajuste. Segundo o BTG, a decisão deve resultar em uma redução de aproximadamente R$ 0,19 por litro no preço da gasolina vendida pela Petrobras às distribuidoras.

O impacto potencial para o setor está na competição direta entre os combustíveis. Quando a gasolina fica mais barata, o etanol hidratado pode perder vantagem econômica na decisão de abastecimento do consumidor.

Segundo os analistas, a redução de R$ 0,19 por litro no preço da gasolina A deve representar uma queda de aproximadamente R$ 0,13 por litro na gasolina C, combustível vendido nos postos, que é composto por 68% de gasolina A e 32% de etanol anidro.

A preocupação do mercado era que uma gasolina mais barata reduzisse a diferença competitiva do etanol hidratado e pressionasse as margens das usinas. Para o BTG, porém, a legislação criada para esse cenário deve evitar uma perda estrutural de competitividade do biocombustível.

A avaliação do banco é de que o mecanismo de compensação deve preservar o equilíbrio entre os dois combustíveis, mesmo com a redução do preço da gasolina.

O relatório destaca que as empresas do setor continuam expostas a fatores tradicionais da indústria, como preços internacionais do açúcar, preços domésticos dos combustíveis, condições climáticas e o equilíbrio entre oferta e demanda global de açúcar e etanol.

Para o BTG, a medida altera a dinâmica de preços para consumidores, mas não deve modificar de forma relevante o cenário competitivo das principais produtoras de açúcar e etanol.

Como funciona a compensação do etanol

O mecanismo de compensação está previsto na Lei 235/2026. A regra determina que, caso a redução da carga tributária da gasolina seja superior a 30%, o imposto federal sobre o etanol deve ser reduzido a zero.

O corte atual ultrapassou esse limite. Antes da mudança, a gasolina A tinha uma carga de impostos federais de R$ 0,8925 por litro. A redução de R$ 0,63 por litro representa uma queda de aproximadamente 71% da tributação, acima dos 30% previstos pela legislação.

O problema, segundo os analistas, é que o etanol já partia de uma carga tributária menor. O combustível pagava aproximadamente R$ 0,19 por litro em impostos federais, valor que será eliminado com a nova regra.

Esse corte, porém, não seria suficiente para manter a vantagem competitiva anterior, porque o benefício tributário concedido à gasolina foi maior em termos absolutos.

Por isso, os analistas do BTG calculam que seria necessária uma compensação adicional de aproximadamente R$ 0,236 por litro aos produtores de etanol.

Segundo o banco, consumidores devem sentir uma redução nos preços tanto da gasolina quanto do etanol. Ao mesmo tempo, os produtores de etanol devem receber compensações por meio da redução de impostos e de uma subvenção adicional prevista no mecanismo criado pela legislação.

O BTG estima que, com a compensação, o preço do etanol na usina ("mill gate price") passa de aproximadamente R$ 2,76 por litro para R$ 3,10 por litro, recuperando parte da diferença criada pelo corte maior de impostos sobre a gasolina.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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