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Sacre Investimentos
Future of MoneyCPTO
29/08/2026
7 min

O dinheiro chega em minutos, mas o que mais as stablecoins podem fazer em empresas multi-país?

Enquanto o mercado discute a velocidade dos pagamentos internacionais, a transformação mais profunda acontece depois da liquidação

O dinheiro chega em minutos, mas o que mais as stablecoins podem fazer em empresas multi-país?

Por Nathaly Diniz e Jorge Marcon*

Há uma cena que toda tesouraria de empresa em expansão internacional conhece bem, e ela não acontece na hora de enviar o pagamento. Acontece depois. O dinheiro saiu do Brasil, chegou ao fornecedor no exterior, e agora é preciso responder a perguntas aparentemente simples: a que taxa exata essa operação foi convertida? Onde estão os comprovantes que a contabilidade de cada país vai exigir? Como esse movimento entra no fechamento do mês da matriz e da subsidiária ao mesmo tempo?

Em uma operação multi-país, cada resposta costuma envolver extratos de bancos diferentes, contratos de câmbio, tarifas embutidas no meio do caminho e uma planilha que alguém do time financeiro atualiza à mão.

O pagamento internacional é a parte visível do iceberg. A parte submersa, que consome as horas do time e trava o fechamento contábil, é tudo o que vem depois: reconciliar, comprovar, consolidar. E é justamente aí que as stablecoins, moedas digitais pareadas ao dólar que circulam em blockchains públicas, estão promovendo a mudança menos comentada e talvez mais valiosa para as empresas.

A liquidação ficou rápida. O pós-pagamento, não

O capítulo da velocidade já é conhecido: stablecoins liquidam em minutos, a qualquer hora e em qualquer dia, e o movimento atraiu gigantes como Stripe e Mastercard, que investiram bilhões em infraestrutura do setor após o marco regulatório americano de 2025. O mercado saiu do nicho: são mais de US$ 300 bilhões em circulação e trilhões de dólares processados por ano.

Mas para quem administra o caixa de uma empresa com entidades em mais de um país, a velocidade resolve só o primeiro problema. O sistema tradicional de pagamentos internacionais fragmenta a informação financeira: cada banco correspondente na cadeia adiciona uma tarifa que nem sempre aparece discriminada, o valor que sai não é o valor que chega, e a tesouraria descobre o custo real da operação dias depois, quando concilia os extratos.

Multiplicado por dezenas de pagamentos mensais em dois ou três países, esse trabalho vira uma função em tempo integral, e uma fonte permanente de divergências entre o que o sistema interno registra e o que a contabilidade consegue comprovar.

Trilhos de blockchain invertem essa lógica. Cada transação em stablecoin nasce com um identificador único, público e auditável, com valor, horário e destino registrados de forma imutável. Na prática, a reconciliação deixa de ser uma arqueologia de extratos e passa a ser um processo desenhado desde a origem: o sistema da empresa, o registro on-chain e a movimentação em moeda local podem ser pareados de forma automática, transação a transação. Para o CFO, isso significa enxergar o custo real de cada operação no momento em que ela acontece, e chegar ao fechamento do mês com as pontas já amarradas.

Uma jornada em estágios

As empresas raramente adotam essa infraestrutura de uma vez. A experiência dos provedores do setor mostra uma jornada em três estágios, cada um com exigências maiores de governança.

O primeiro é o pagamento pontual: um fornecedor no exterior, uma urgência de sexta-feira à tarde, uma remessa que precisava chegar antes do fim de semana. É a porta de entrada, e muitas empresas param aí por meses, testando o trilho com escopo controlado.

O segundo estágio é manter parte do caixa em dólar digital. Em vez de converter reais a cada pagamento, a empresa passa a ter uma reserva em stablecoin que funciona como conta de passagem entre países: liquidez disponível 24 horas por dia, proteção cambial e nenhuma necessidade de estrutura offshore ou conta em banco americano. Aqui, a governança sobe de nível: políticas de custódia, alçadas de aprovação e controles de compliance passam a ser condição de operação, não detalhe.

O terceiro estágio é rodar a tesouraria multi-entidade nesses trilhos: fluxos entre matriz e subsidiárias, royalties, reembolsos intercompany, folha de times distribuídos, tudo com rastreabilidade nativa e comprovação contábil organizada por jurisdição. É o estágio em que a pergunta deixa de ser "quanto custa enviar dinheiro" e passa a ser "onde meu caixa precisa estar amanhã de manhã, e como eu provo cada movimento".

O caso Buddha Spa: desenhar a tesouraria antes de abrir a porta

Entre as empresas brasileiras que estão percorrendo essa jornada está o Buddha Spa, maior rede de spas do país, que se prepara para operar no Chile e na Argentina. As novas unidades ainda não abriram, e é exatamente isso que torna o caso interessante: a rede está no momento em que uma expansão internacional se decide de verdade, o do desenho da operação financeira.

Antes da primeira sessão de massagem em Santiago ou Buenos Aires, a tesouraria precisa responder como o dinheiro vai circular entre três entidades, em três moedas, com contabilidade e obrigações fiscais em três jurisdições.

Como remeter recursos de implantação? Em que moeda manter o caixa de cada operação? Como comprovar cada movimento para os contadores locais? O ganho imediato é previsibilidade: o time sabe quando o dinheiro sai, quando chega e quanto custa. O ganho estrutural é poder desenhar a operação multi-país desde o primeiro dia sobre um trilho em que cada transação já nasce documentada, em vez de herdar uma colcha de retalhos bancária para reconciliar depois.

O Brasil como laboratório

Poucos mercados ilustram essa transição tão bem quanto o brasileiro. Segundo o Banco Central, cerca de 90% dos fluxos de criptoativos no país já envolvem stablecoins, um sinal de que o brasileiro usa a tecnologia menos para especular e mais para transacionar e se proteger.

E o país que criou o Pix impôs uma régua alta não só para a velocidade dos pagamentos, mas para a qualidade da informação que viaja com eles: quem se acostumou a conciliar recebimentos instantâneos com identificador único não aceita voltar a esperar extratos.

Nenhuma tecnologia financeira é bala de prata, e as stablecoins não são exceção. A escolha de parceiros regulados, com práticas robustas de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro, é condição inegociável, e o arcabouço regulatório brasileiro para o setor ainda está em construção no Banco Central, o que exige acompanhamento próximo. A governança que cada estágio da jornada exige não é burocracia: é o que separa uma tesouraria moderna de um risco operacional novo.

A conversa que interessa ao CFO

No fim, a discussão sobre stablecoins nas empresas está mudando de departamento. Começou como pauta de custo, comparando tarifas de remessa. Está virando pauta estratégica: capital de giro que deixa de ficar imobilizado em contas pré-fundeadas pelo mundo, previsibilidade de caixa em qualquer fuso e moeda, fechamento contábil que acompanha o ritmo da operação em vez de atrasá-la. Para um CFO, dinheiro parado esperando liquidação é capital que não financia crescimento; horas de time gastas em reconciliação manual são inteligência financeira desperdiçada.

A história recente da tecnologia financeira sugere que as empresas que testam cedo, com escopo controlado, parceiros sólidos e governança adequada, capturam a vantagem antes de a eficiência virar commodity.

Foi assim com o Pix. Está sendo assim com as stablecoins. E, como mostra o caso de uma rede de spas brasileira desenhando sua tesouraria multi-país antes mesmo de abrir as portas em Santiago e Buenos Aires, a pergunta que importa já não é se esses trilhos funcionam, mas o quanto da operação financeira de uma empresa global pode nascer neles.

*Nathaly Diniz é CRO da Lumx

*Jorge Marcon é executivo de contas de soluções com stablecoins da Jeeves

AutorDa Redação
FonteExame
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