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Sacre Investimentos
Future of MoneyCPTO
17/10/2026
7 min

O dinheiro do futuro será emitido por bancos ou por empresas de tecnologia?

Um sistema financeiro do futuro com a coexistência entre stablecoins e depósitos tokenizados é possível

O dinheiro do futuro será emitido por bancos ou por empresas de tecnologia?

Por Marcos Viriato*

Durante boa parte da história do sistema financeiro, mudanças na forma do dinheiro aconteceram de maneira relativamente gradual. O dinheiro em espécie deu espaço aos depósitos bancários, os cartões transformaram a maneira como consumimos e, mais recentemente, os pagamentos instantâneos reduziram significativamente o tempo necessário para movimentar recursos. Em cada uma dessas etapas, novas tecnologias foram incorporadas ao sistema existente sem necessariamente eliminar por completo aquilo que havia antes.

Agora, a discussão sobre o futuro do dinheiro parece estar entrando em uma etapa semelhante, mas com uma diferença importante. Pela primeira vez, diferentes formas de dinheiro podem não apenas ser armazenadas ou transferidas digitalmente, mas também interagir diretamente com ativos e aplicações construídos sobre uma mesma infraestrutura tecnológica.

É nesse contexto que ganhou força o debate entre stablecoins e depósitos tokenizados. Em agosto, durante o simpósio de Jackson Hole, o Bank of International Settlement (BIS), que reúne todos os bancos centrais do mundo, tratou os dois modelos como alternativas que podem desempenhar papéis distintos na evolução do sistema monetário.

O gerente-geral da instituição, Pablo Hernández de Cos, destacou que os depósitos tokenizados preservam características importantes do sistema atual, como a possibilidade de diferentes formas de dinheiro serem convertidas entre si pelo mesmo valor, enquanto as stablecoins apresentam desafios relacionados à fragmentação, à regulação e à soberania monetária.

Coexistência de stablecoins e depósitos tokenizados

A discussão é relevante, mas colocá-la como uma disputa entre os dois modelos pode limitar a compreensão sobre o que está acontecendo. O mais provável é que stablecoins e depósitos tokenizados coexistam, atendendo a necessidades diferentes e fazendo parte de uma transformação mais ampla da infraestrutura financeira.

Para entender por quê, é importante separar os conceitos. Um depósito tokenizado é, em essência, um depósito bancário representado digitalmente em uma infraestrutura baseada em tecnologia de registro distribuído. O relacionamento continua sendo com uma instituição financeira e o ativo permanece inserido na lógica do sistema bancário, mas sua representação digital permite que ele seja movimentado e programado de maneiras diferentes das atuais.

Uma stablecoin segue outra lógica. Trata-se de um token emitido por uma entidade privada, normalmente referenciado a uma moeda fiduciária e projetado para manter uma relação estável com esse ativo de referência. Como pode circular em redes blockchain, a stablecoin consegue interagir com aplicações descentralizadas, contratos inteligentes e outros ativos digitais sem depender necessariamente das mesmas infraestruturas utilizadas pelos bancos tradicionais.

Essa diferença ajuda a explicar por que os dois instrumentos podem encontrar espaços distintos no mercado. Depósitos tokenizados tendem a fazer mais sentido em operações que dependem da estrutura bancária, como crédito, gestão de liquidez e relacionamento entre instituições financeiras. Stablecoins, por sua vez, podem apresentar vantagens em ambientes nos quais a abertura das redes, a operação contínua e a capacidade de movimentar recursos entre diferentes jurisdições e aplicações são características relevantes.

Isso não significa que uma tecnologia esteja destinada a dominar a outra. Uma mesma empresa pode, por exemplo, manter seus recursos no sistema bancário, utilizar depósitos tokenizados em determinadas operações financeiras e recorrer a uma stablecoin para fazer um pagamento internacional. Conforme esses instrumentos se tornarem mais integrados, a escolha deixará de ser necessariamente uma questão de preferência tecnológica e passará a depender da finalidade de cada operação.

Um ambiente mais tokenizado

É justamente nesse ponto que a tokenização ganha importância, porque a discussão sobre stablecoins e depósitos tokenizados faz parte de um movimento maior de transformação dos mercados financeiros. A tokenização permite representar digitalmente títulos, fundos, recebíveis, moedas e outros ativos em infraestruturas baseadas em blockchain ou tecnologias de registro distribuído.

O interesse não está apenas em criar uma versão digital de um ativo que já existe. A mudança mais relevante está na possibilidade de fazer com que diferentes ativos possam ser registrados, transferidos e liquidados em uma infraestrutura capaz de executar determinadas regras de forma automática.

Hoje, uma transação financeira pode passar por diferentes sistemas de registro, custódia, compensação e liquidação, muitas vezes mantidos por instituições distintas. Parte considerável do trabalho consiste justamente em fazer com que esses sistemas reconheçam a mesma operação e reconciliem suas informações.

Em um ambiente mais tokenizado, algumas dessas etapas podem ser realizadas dentro de uma infraestrutura compartilhada. Um ativo pode ser transferido simultaneamente ao pagamento correspondente, uma garantia pode ser bloqueada de acordo com determinadas condições e uma operação pode ser executada apenas quando todos os requisitos definidos em um contrato forem atendidos. O ganho potencial não está apenas na velocidade, mas também na redução de processos intermediários e da necessidade de reconciliação entre sistemas diferentes.

É por isso que blockchain precisa ser analisado para além da associação com criptomoedas. A tecnologia pode funcionar como uma infraestrutura para registrar e movimentar diferentes tipos de ativos, permitindo que eles interajam por meio de regras programáveis. Nesse cenário, uma stablecoin pode cumprir uma função que vai além de servir como meio de pagamento. Ela pode ser utilizada como um dos ativos de liquidação de uma economia na qual dinheiro e outros instrumentos financeiros passam a existir em formato digital.

Fronteira entre digital e sistema financeiro tradicional

O próprio BIS tem explorado essa possibilidade em seus trabalhos recentes sobre tokenização. A instituição aponta que uma infraestrutura tokenizada pode combinar diferentes funções de registro, transferência e liquidação, além de permitir que partes distintas de uma operação sejam coordenadas por meio de contratos inteligentes.

Ao mesmo tempo, o BIS chama atenção para desafios relacionados à interoperabilidade, à estabilidade financeira e à necessidade de preservar características fundamentais do sistema monetário. Nesta semana, o Banco Central Europeu deu mais um passo nessa direção ao lançar o Pontes, solução que permite que transações de ativos tokenizados no atacado sejam liquidadas em dinheiro de banco central, conectando infraestruturas baseadas em tecnologia de registro distribuído aos sistemas do Eurosistema.

Bancos, empresas de tecnologia, instituições de pagamento e empresas especializadas em ativos digitais estão desenvolvendo soluções que combinam diferentes componentes desse ecossistema. A própria Mastercard concluiu em agosto a aquisição de uma empresa de infraestrutura de stablecoins, com o objetivo de ampliar sua atuação em pagamentos internacionais, liquidação e gestão de tesouraria. A Visa também vem desenvolvendo iniciativas que combinam pagamentos baseados em stablecoins com mecanismos de crédito e financiamento.

Esses movimentos mostram que a fronteira entre o sistema financeiro tradicional e a economia digital está ficando menos definida. A discussão já não é apenas sobre quais empresas vão emitir dinheiro digital, mas sobre quais instituições serão capazes de operar em uma infraestrutura em que dinheiro, ativos e aplicações financeiras estejam cada vez mais conectados.

É nesse cenário que o Brasil precisa construir sua estratégia. A discussão regulatória continuará sendo necessária, especialmente para estabelecer requisitos de reservas, governança, prevenção a ilícitos e proteção dos usuários. Mas a regulação também precisará considerar as diferentes funções que esses instrumentos podem desempenhar e evitar que a tentativa de preservar o sistema existente impeça o desenvolvimento de novas infraestruturas.

O debate sobre stablecoins e depósitos tokenizados, portanto, não deveria ser conduzido apenas como uma disputa sobre qual tecnologia prevalecerá. Talvez, por isso, a melhor pergunta não seja se stablecoins ou depósitos tokenizados serão o dinheiro do futuro. O desafio será construir um sistema no qual diferentes formas de dinheiro possam cumprir funções diferentes sem deixar de fazer parte da mesma economia.

*Marcos Viriato é CEO da Parfin

AutorDa Redação
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