O dobrável da Apple chega sete anos depois de rivais, mas pode soar como uma grande inovação
Muito depois do pioneiro Galaxy Fold, da Samsung, a Apple entra num mercado pequeno, mas que já vale US$ 42 bilhões, e pode saltar direto para o segundo lugar do setor no primeiro ano

A Apple lançou nesta terça-feira, 9, o iPhone Duo, seu primeiro smartphone dobrável, sete anos depois de a Samsung abrir a categoria com oGalaxy Fold, em 2019.
O nome resolve meses de especulação em torno de "iPhone Ultra" e faz referência direta às duas telas do aparelho: uma externa, de cobertura, e uma interna, maior, no estilo "passaporte" ou também chamado de "livro".
O aparelho abre a nova linha de preços mais altos já vista num iPhone: a partir de US$ 2.000 na versão de 256GB, podendo passar de US$ 3.000 na configuração de maior armazenamento.
Apple Watch Series 12 e Ultra 4 chegam com sensor de coração 60 vezes mais rápidoEntre as características centrais anunciadas: tela interna de 7,8 polegadas, tela externa de cerca de 5,5 polegadas, chip A20 Pro e câmera traseira dupla de 48MP. A disponibilidade em lojas deve ficar para outubro, semanas depois da chegada do iPhone 18 Pro.
É o primeiro grande lançamento de hardware conduzido por John Ternus, que assumiu o cargo de CEO da Apple em 1º de setembro, sucedendo Tim Cook, um teste simbólico de peso para a nova gestão logo na estreia.
Um mercado pequeno, mas que cresce rápido e vale muito por unidade
O mercado global de dobráveis ainda é pequeno: cerca de 2,5% de todos os smartphones vendidos no mundo, segundo a Counterpoint Research, com projeção de 26,8 milhões de unidades em 2026, alta de cerca de 30% sobre o ano anterior.
Mas é um mercado desproporcionalmente valioso: o preço médio de um dobrável já chega a US$ 1.485, 18% mais caro que em 2025, e mais de três vezes o preço médio de um smartphone comum, gerando algo como US$ 42 bilhões em receita global estimada para o segmento neste ano, segundo cálculos da consultoria Axis Intelligence.
É esse tipo de matemática que faz sete anos de atraso parecerem menos um erro estratégico e mais um cálculo de timing: a Apple entra quando o componente mais caro e mais frágil de qualquer dobrável, a dobradiça e a tela sem vinco visível, já amadureceu o suficiente na cadeia de suprimentos (inclusive fornecida, em parte, pela própria Samsung) para permitir um produto sem os problemas de durabilidade que atormentaram a primeira geração de rivais.

O impacto competitivo projetado é grande. Segundo a Counterpoint, a Samsung deve seguir líder do mercado dobrável em 2026, mas com fatia caindo de 40% para 32%, justamente por causa da entrada da Apple, que a consultoria projeta capturar 25% do mercado global logo no primeiro ano, superando a chinesa Huawei (24%) e disparando à frente de Motorola (8%) e Honor (3%). Ou seja: a Apple pode saltar direto para o segundo lugar do mercado mundial de dobráveis com um único produto, num fenômeno raro mesmo para os padrões da empresa.
Uma analista da Counterpoint, Liz Lee, resume o momento: a entrada da Apple deve elevar a percepção geral do consumidor sobre a categoria e empurrar o padrão de qualidade dos concorrentes para cima, mas a Samsung ainda mantém vantagem em maturidade de produto, alcance de canais de venda e experiência de uso construída ao longo de sete gerações de aparelhos.
Por que o formato "passaporte" virou consenso da indústria
Chama atenção que o formato escolhido pela Apple, mais curto e largo, como um pequeno tablet quando aberto, seja o mesmo que Samsung, Huawei e Xiaomi já adotaram em lançamentos recentes.
Dobráveis desse tipo, chamados "book-type", devem responder por 65% dos aparelhos dobráveis vendidos em 2026, ante 35% em 2020. A hipótese mais plausível não é cópia direta, mas informação vazando pela cadeia de suprimentos: a Apple trabalha no projeto desde pelo menos 2017, e a própria Samsung, fornecedora do painel dobrável da Apple, segundo apurações do setor, provavelmente conhecia os planos da rival muito antes do público em geral, o que pode ter influenciado o desenho de sua própria geração mais recente de aparelhos.
iPhone Duo marca primeiro smartphone dobrável da Apple e foi anunciado ao lado dos modelos iPhone 18 Pro e Pro Max; confira os detalhes, disponibilidade e preços (Apple/Divulgação)
Há ainda um argumento de uso que ajuda a explicar por que o mercado inteiro convergiu para esse formato ao mesmo tempo: a ascensão de assistentes de inteligência artificial que passaram a rodar tarefas em múltiplos aplicativos simultaneamente, resumir documentos, editar conteúdo, gerenciar agenda — se beneficia diretamente de mais espaço de tela e de um layout mais flexível, o que torna o dobrável largo uma tela de fundo natural para a era dos agentes de IA, não apenas um capricho de design.
