O ‘efeito colateral’ do payroll: Trump critica Wall Street após uma boa notícia virar problema para os mercados

Um mercado de trabalho forte demais acabou se transformando em problema para Wall Street nesta sexta-feira (5). Segundo o relatório payroll, A economia dos Estados Unidos criou 172 mil vagas de emprego em maio, muito acima das 85 mil esperadas pelos economistas.
O dado reforça a resiliência da maior economia do mundo. No entanto, o indicador reacendeu um temor que tem guiado os mercados em 2026: o de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) precise manter os juros elevados por mais tempo — ou até voltar a apertar a política monetária.
O relatório chega em um momento particularmente sensível para os mercados, às vésperas da primeira reunião de política monetária sob o comando de Kevin Warsh, novo presidente do Fed.
O banco central dos EUA ainda convive com uma inflação acima da meta, pressionada, entre outros fatores, pelos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre energia e cadeias produtivas.
Mercados reagem ao payroll
Em meio ao payroll, as bolsas em Wall Street passaram a operar no vermelho nesta sexta-feira.
As ações de tecnologia lideram as perdas no exterior, acompanhadas pelas commodities, que também recuam.
Confira os principais índices de Nova York por volta das 12h45:
- Dow Jones: -0,54%, aos 51.285 pontos;
- S&P 500: -1,39%, aos 7.478 pontos; e
- Nasdaq: -2,36%, aos 26.196 pontos.
Na Europa, as bolsas encerraram a sessão majoritariamente no vermelho. Em Londres, o FTSE 100 fechou em alta de 0,07%. Enquanto isso, em Frankfurt, o DAX caiu 0,69% e, em Paris, o CAC 40 perdeu 0,32%, pontos.
A reação negativa dos mercados após um dado forte de emprego desencadeou críticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em publicação em sua plataforma de mídia social, a Truth Social, o republicano criticou o comportamento dos investidores e argumentou que um relatório robusto de emprego deveria impulsionar, e não derrubar, as bolsas.
"Com um relatório de empregos ótimo, como o que acabou de ser anunciado, as ações deveriam ir para cima, não para baixo. É assim que foi pelos últimos 200 anos. Crescimento não significa inflação! De que outra forma pode um país obter SUCESSO???", escreveu o republicano.
Tecnologia lidera as perdas nos EUA após payroll, enquanto petróleo cai forte
O ajuste de expectativas para os juros nos EUA atingiu principalmente as empresas de crescimento, mais sensíveis ao aumento das taxas de desconto utilizadas pelos investidores.
No mesmo horário, a Nvidia, companhia mais valiosa do mundo em valor de mercado, recuava 4,5% no início da tarde. Intel, Micron, AMD e Broadcom registravam perdas entre 5% e 8% no mesmo horário.
O setor de tecnologia acumulava o terceiro pregão consecutivo de queda, enquanto o índice Philadelphia Semiconductor, referência para fabricantes de chips, tombava quase 6%.
Com a perspectiva de juros mais altos por mais tempo, investidores também reduziram exposição a commodities e outros ativos de risco.
Na Comex, o cobre recuava mais de 3%, enquanto a prata tombava cerca de 6%. O ouro também opera em queda.
O petróleo também amarga perdas hoje. O Brent, referência no mercado global, recuava 1,69%, a US$ 93,42 o barril, enquanto o WTI, referência no mercado norte-americano, caía 2,50%, aos US$ 90,71.
Segundo a consultoria High Frequency Economics (HFE), o payroll praticamente elimina a possibilidade de cortes de juros no curto prazo e fortalece o dólar e os rendimentos das Treasuries — títulos de dívida do governo dos EUA —, movimento que costuma pressionar commodities e mercados emergentes.
Ibovespa perde força
No Brasil, a repercussão também foi negativa na volta do feriado de Corpus Christi.
Em dia de liquidez reduzida e agenda econômica esvaziada, o Ibovespa tem dificuldade para sustentar os 170 mil pontos. Por volta das 12h45, o principal índice de ações da B3 recuava 0,57%, aos 169.358 pontos.
O avanço dos bancos ajuda a limitar as perdas nesta sessão, mas o movimento é parcialmente neutralizado pela queda de quase 3% da Vale (VALE3) e pelo desempenho mais fraco das ações da Petrobras (PETR3; PETR4).
“Por aqui, mercados locais deverão seguir sob pressão, em linha com exterior e fuga de recursos de estrangeiros”, avalia Rafael Passos, analista da Ajax Asset Management.
A bolsa brasileira passou a refletir o mesmo dilema que domina os investidores globais: uma economia norte-americana ainda aquecida pode significar juros mais altos por mais tempo — e menos espaço para ativos de risco.
*Com informações da Reuters e do Estadão Conteúdo.
