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Bolsa e dólarACS
16/07/2026
9 min

O efeito Ozempic acabou: por que as canetas emagrecedoras não estão mais funcionando para esta ação na bolsa?

O efeito Ozempic acabou: por que as canetas emagrecedoras não estão mais funcionando para esta ação na bolsa?

A substância atravessa a fronteira com o Paraguai como dá: escondida em fundos falsos e nos motores de veículos, amarrada ao corpo de contrabandistas e até emaranhada em caminhões clandestinos. Todo esse esforço é para abastecer o mercado brasileiro com as drogas que estão entre as mais desejadas do momento: as canetas emagrecedoras, como o Ozempic.

A Polícia Federal já encontrou milhares e milhares de quilos de medicamentos não aprovados pela Anvisa tentando fazer essa travessia. Acontece que, além de ser um perigo para quem consome, o chamado “Ozempic do Paraguai” acaba também fazendo outras vítimas… na bolsa de valores.

A RD Saúde (RADL3) é uma das que mais sofrem, na visão de analistas, principalmente porque ela é a mais exposta ao público que geralmente tem acesso a esses medicamentos. As ações da companhia já caem mais de 20% no ano, enquanto o Ibovespa avança 30%.

Tirando de jogo o cenário macroeconômico desfavorável e algumas especificidades do setor, uma das principais frustrações dos investidores tem sido o desempenho abaixo do esperado dos medicamentos da classe GLP-1, o hormônio da saciedade que esses medicamentos imitam.

Se antes essa classe de fármacos era a grande promessa com potencial de alavancar as ações das farmácias, agora o efeito para as ações tem sido o mesmo que para os pacientes: emagrecimento — e a informalidade é um dos grandes vilões nesse caso.

A explicação passa pelo preço. Segundo uma pesquisa da Nielsen, 16% dos consumidores apontam o custo como a principal barreira para iniciar o tratamento com as canetas.

“Hoje, o Mounjaro mais barato custa entre R$ 1.100 a R$ 1.200, enquanto a caneta vendida no mercado informal sai na faixa R$ 400 ou R$ 500. É uma diferença muito grande de preço, e isso acaba levando muitas pessoas a recorrerem ao mercado clandestino”, diz João Mamede, co-head de renda variável da AZ Quest, em entrevista ao Seu Dinheiro.

Por que o 'efeito Ozempic' está deixando de engordar as ações de redes de farmácias?

“Não é que o mercado de GLP-1 não esteja crescendo, mas uma parte desse crescimento acontece fora do mercado formal. Isso acaba limitando um avanço mais forte do volume vendido pelas redes de farmácia”, Vinicius Strano, analista do UBS BB, ao Seu Dinheiro.

Segundo as estimativas do banco, o mercado informal pode movimentar hoje um volume de três a quatro vezes o formal, com cerca de 840 mil unidades comercializadas por mês nos canais oficiais. Isso significa que os canais não oficiais podem responder por 2,5 milhões a 3,4 milhões de unidades mensais.

Já o Itaú BBA estima que, atualmente, cerca de 50% dos medicamentos GLP-1 consumidos no Brasil estejam no mercado informal.

É importante ressaltar que, quando se fala nesse tipo de comércio irregular, não entram apenas as importações ilegais do Paraguai. Alternativas não autorizadas oferecidas por farmácias de manipulação também entram na conta.

“Elas estão oferecendo versões manipuladas do Mounjaro a preços muito inferiores aos do medicamento original, embora a tirzepatida [princípio ativo do medicamento] ainda esteja protegida por patente”, afirma Mamede. No Brasil, os direitos de exclusividade sobre a molécula só expiram em 2036.

Segundo estimativas do Itaú BBA, os manipulados podem movimentar cerca de R$ 12 bilhões em 2026, o equivalente a aproximadamente 40% de todo o mercado de tirzepatida, mais potente que a semaglutida por atuar sobre dois receptores hormonais (GLP-1 e GIP), enquanto a semaglutida age apenas sobre o GLP-1.

Assim, por mais que esse mercado siga pulsante — com a expectativa de crescer 40% até 2030, batendo os US$ 9 bilhões, segundo a Peers Consulting — esse avanço não deve necessariamente chegar ao caixa das farmácias.

O Ozempic do Paraguai até tende a diminuir, mas isso não ajuda as farmácias

No entanto, essa pressão da informalidade tende a se dissipar, na visão de Strano.

A expectativa é que a entrada de novos fabricantes e a queda dos preços decorrentes da perda da exclusividade da patente da semaglutida, do Ozempic, ampliem o acesso aos medicamentos e reduzam o incentivo econômico ao mercado clandestino.

"Existe uma parcela da população que nunca se sentiu confortável em recorrer ao mercado informal, mas também nunca teve dinheiro para comprar o medicamento no mercado formal. Com a queda dos preços, esse público passa a ter acesso ao tratamento", afirma o analista do UBS BB.

A tese é sustentada pelas projeções do banco. Segundo o UBS BB, o preço médio dos medicamentos GLP-1 deve cair de cerca de R$ 1.500 atualmente para aproximadamente R$ 700 até 2030, com a entrada de genéricos e similares.

Para o Itaú BBA, uma fiscalização mais rígida da Anvisa sobre clínicas e farmácias de manipulação pode acelerar a migração das vendas para os canais formais, beneficiando as grandes redes de drogarias.

No entanto, a queda dos preços pode até enfraquecer o mercado clandestino, mas também cria um problema para as redes de farmácias.

Afinal, medicamentos mais baratos são justamente o segundo fator que explica por que os GLP-1 deixaram de ser um sonho e passaram a se tornar um pesadelo para o setor.

O segundo problema: a guerra de preços das canetas emagrecedoras

Para Mamede, a demanda pelos medicamentos segue elevada. Por outro lado, a chegada de novos concorrentes após a quebra da patente da semaglutida desencadeou uma disputa comercial mais agressiva do que o mercado previa e reduzindo o preço médio das canetas e comprimindo a rentabilidade do setor.

“O volume continua crescendo, mas receita é preço vezes quantidade. A gente começou a ver uma agressividade comercial dos novos entrantes maior do que se esperava. Esse movimento reduz os preços e limita o crescimento da receita”, afirma o analista da Az Quest.

Na avaliação de Strano, houve uma queda de preços mais rápida do que o esperado. Isso reduziu o lucro gerado por cada caixa vendida pelas farmácias. “No fim do dia, o que importa para as farmácias é o lucro bruto por caixa vendida. Hoje, o preço está caindo”, diz o analista do UBS BB ao Seu Dinheiro.

Segundo o banco, o lucro bruto por unidade dos medicamentos GLP-1 deve cair de cerca de R$ 250 para R$ 170 no médio prazo.

Já o Itaú BBA calcula que um Ozempic ou Wegovy rende hoje cerca de R$ 150 a R$ 160 por caixa às farmácias, enquanto os novos similares geram aproximadamente R$ 60, uma diferença de quase três vezes.

O movimento ficou ainda mais evidente quando a própria Eli Lilly decidiu reduzir em cerca de 35% o preço do Mounjaro, com cortes que levaram o kit das menores dosagens de R$ 3.400 para R$ 2.250 e reduziram em R$ 2.600 o preço do pacote de 10 mg.

Para o Mamede, a decisão mostrou que nem mesmo o medicamento considerado referência na categoria ficou imune ao ambiente mais competitivo, impulsionado tanto pela chegada de novas versões da semaglutida quanto pelo avanço do mercado informal.

A redução dos preços também altera o comportamento do consumidor, já que, quanto maior a diferença de preço, menos provável é para o consumidor escolher a opção mais cara.

“Sempre tem a pessoa que faz um esforço maior para comprar o Mounjaro porque ele é mais eficaz. Se a diferença de preço para o Ozempic é pequena, muita gente aceita pagar. Mas, quando surgem alternativas por R$ 400, essa lógica muda”, diz Mamede.

A EMS também ampliou o programa de descontos do Ozivy, sua caneta de semaglutida, e passou a oferecer um pacote com três unidades de 1 mg por R$ 999, o equivalente a cerca de R$ 333 por caneta para pacientes cadastrados.

A grande questão, nesse cenário, é se a queda dos preços conseguirá acelerar o número de pacientes em tratamento.

Preço menor vai se traduzir em mais vendas? O que esperar de RADL3

Embora o potencial de expansão seja enorme, ainda não está claro se esse movimento acontecerá rápido o suficiente para compensar a compressão das margens. É justamente essa incerteza que hoje pesa sobre as ações das redes de farmácias.

Na visão de Mamede, isso não deve acontecer no curto prazo.

Para compensar a forte redução dos preços, o volume de vendas precisaria crescer de forma muito expressiva e, enquanto não houver evidências disso, o efeito tende a ser negativo para as drogarias. Ou seja, a pressão para as ações RD Saúde deve continuar.

O Citi também adota uma postura cautelosa. Para o banco, os cortes de preços dos GLP-1 ainda não provocaram uma expansão relevante do mercado formal.

Mesmo considerando um crescimento consistente das vendas dos demais produtos, o Citi estima que a receita do varejo da RD Saúde desacelere de 22% no quarto trimestre de 2025 para cerca de 13% no fim de 2026.

O banco também projeta que o lucro bruto por loja cresça abaixo da inflação no segundo semestre, o que, combinado às despesas ainda elevadas, pode pressionar as margens e sustentar revisões negativas de lucro. O banco tem recomendação de venda para os papéis.

Já Strano acredita que o mercado está excessivamente focado nos efeitos negativos imediatos da queda dos preços.

O analista está otimista de que o volume das vendas irá compensar a queda nos preços — e que o mercado ainda não está enxergando essa virada, que pode ser o grande gatilho de médio/longo prazo para RADL3.

"O mercado está olhando muito para ticket para baixo e volume que ainda não reagiu. Acho que vai ter uma reação de volume, e isso vem junto com uma expansão de margem bruta", afirmou ao Seu Dinheiro.

O UBS BB estima que o mercado formal mais que triplique até o fim da década, impulsionado pelo maior acesso da população aos medicamentos. O banco tem recomendação de compra para as ações.

O Itaú BBA compartilha dessa visão, mas pondera que parte desse crescimento continuará sendo absorvida pelo mercado informal, o que limita o potencial de expansão das redes de farmácia enquanto não houver uma fiscalização mais rigorosa sobre importações ilegais e medicamentos manipulados. A recomendação da casa para os papéis RADL3 é neutra.

AutorBia Azevedo
FonteSeu Dinheiro
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