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Sacre Investimentos
EXAME AgroACSBDR
25/08/2026
6 min

O El Niño vem aí e deve mexer com o milho, o arroz — e até a cerveja

Santander vê riscos para SLC Agrícola e MBRF com o fenômeno climático, enquanto o calor pode impulsionar a Ambev

O El Niño vem aí e deve mexer com o milho, o arroz — e até a cerveja

O El Niño é a principal preocupação do mercado para as empresas ligadas ao agro e aos setores de alimentos e bebidas na safra 2026/27. Entre as commodities, o milho é um dos principais focos dos investidores, uma vez que uma eventual queda na produtividade deve afetar companhias como a SLC Agrícola e a MBRF.

Na outra ponta, as temperaturas mais elevadas podem favorecer o consumo de bebidas e beneficiar a Ambev. A tese é do Santander e foi divulgada nesta segunda-feira,24, pelos analistas Guilherme Palhares, Laura Hirata e Ulises Argote.

Segundo o banco, as empresas já estão se preparando para ofenômeno com aumento de estoques, mudanças no ritmo de aplicação de fertilizantes e defensivos, rotação de culturas e outras medidas de mitigação.

Os analistas afirmam que o consenso atual aponta o milho como a cultura mais vulnerável e onde está concentrada a maior parte dos riscos. O cenário ganha peso porque o El Niño ocorre em uma temporada considerada particularmente cara, enquanto a demanda por grãos melhora em relação à oferta.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para 93% a probabilidade de o El Niño atingir intensidade “muito forte” entre setembro e novembro, quando o aquecimento das águas do Pacífico equatorial fica pelo menos 2°C acima da média.

A perspectiva se torna ainda mais relevante no trimestre seguinte. Entre outubro e dezembro, a NOAA calcula em 95% a chance de um El Niño muito forte. Há ainda 69% de probabilidade de o evento estar entre os mais intensos registrados desde 1950, início da série histórica utilizada pela agência americana.

Apesar da preocupação, o Santander ainda identifica impacto limitado do fenômeno sobre as estimativas de consenso para as empresas do setor. O movimento já aparece, porém, no posicionamento dos investidores, que estariam reduzindo a exposição às companhias potencialmente mais afetadas.

Entre as companhias analisadas, a SLC Agrícola aparece como uma das exposições mais diretas ao risco climático. A empresa tem recomendação neutra do Santander e preço-alvo de R$ 16 por ação para o fim de 2027. Na data de referência utilizada pelo relatório, 19 de agosto, os papéis estavam cotados a R$ 14,22.

Segundo os analistas, os investidores estão especialmente preocupados com a produtividade da companhia na temporada 2026/27.

“Um evento forte de El Niño poderia levar a períodos de seca em Mato Grosso, particularmente na região Nordeste do estado, enquanto temperaturas mais altas podem aumentar as taxas de evapotranspiração”, dizem.

Para os analistas do banco, aSLC está mais preparada do que estava durante o último grande evento climático, em 2016. Segundo eles, as áreas operacionais estão mais maduras, a irrigação avançou em regiões mais expostas aos riscos do clima e a companhia possui hoje melhores condições para administrar situações adversas.

A estratégia envolve acompanhar a implantação das lavouras e tomar decisões gradualmente sobre a aplicação de fertilizantes e defensivos. O objetivo é evitar gastos adicionais em uma área caso as condições indiquem que a produtividade esperada não será alcançada.

A companhia também está estabelecendo um calendário mais disciplinado para o plantio de algodão, milho e sorgo durante a segunda safra. Para o Santander, uma quebra de safra provocada pelo El Niño está explicitamente entre os riscos negativos para a tese de investimento da SLC.

A cautela climática chega em um momento de maior atenção ao balanço da companhia. Em 2026, a SLC realizou uma aquisição de terras de R$ 669 milhões. Segundo o Santander, os juros elevados aumentam o desconto de liquidez dos ativos de terras e, simultaneamente, pressionam a alavancagem.

Se para os produtores agrícolas o risco está na produtividade, para empresas que utilizam milho e soja como insumos o problema pode chegar por meio dos custos dos grãos.É o caso da MBRF.

Diante da possibilidade de quebras de safra associadas ao El Niño e de preços mais altos, a companhia informou que ampliou suas posições de hedge para assegurar o abastecimento.

“Dado o risco de quebras de safra associadas ao El Niño e o potencial de preços mais altos dos grãos, a companhia indicou que estendeu suas posições de hedge de grãos”, afirmam os analistas.

A proteção envolve estoques físicos, contratos a termo e outros instrumentos e alcança farelo de soja, milho e óleo. Segundo o relatório, a empresa trabalha com posições de proteção mais longas.

A MBRF tem recomendação Outperform do Santander, equivalente a uma expectativa de retorno pelo menos 10% superior ao benchmark adotado pelo banco. O preço-alvo é de R$ 28 para o fim de 2027, ante cotação de R$ 17,25 considerada no relatório.

A preocupação com os grãos se soma a um momento de atenção ao caixa. A MBRF consumiu R$ 2,8 bilhões em capital de giro no primeiro semestre, dos quais R$ 1,6 bilhão ficaram concentrados em estoques. O Santander espera uma liberação de capital de giro no segundo semestre, principalmente no quarto trimestre.

Do arroz à cerveja

Os efeitos do fenômeno, entretanto, não são necessariamente negativos para todas as empresas. No arroz, o Santander avalia que o cenário sob condições de El Niño pode ser construtivo para os preços.

A Camil, que tem recomendação neutra e preço-alvo de R$ 6,50, ante cotação de R$ 4,64 considerada pelo banco, espera uma melhora dos preços do cereal em 2027. A luminosidade durante a germinação permanece como uma variável importante para a produtividade.

Ao mesmo tempo, os preços mais baixos registrados no último ano levaram produtores a reduzir a área plantada na safra 2025/26, tendência que pode continuar no próximo ciclo. Para os analistas do relatório, o ponto de equilíbrio da produção está próximo de R$ 70 por saca.

Outra companhia que pode sentir um efeito diferente do fenômeno é a Ambev. Enquanto investidores do agronegócio acompanham o risco de seca e quebra das lavouras, temperaturas acima das médias históricas podem estimular o consumo de bebidas no segundo semestre.

Os analistas do Santander afirmam que os investidores já observam o aumento das temperaturas como um possível catalisador para o consumo de bebidas no terceiro e quarto trimestres de 2026.

A exposição do conglomerado de bebidas ao consumo fora de casa, em bares e restaurantes, torna a companhia particularmente sensível às condições climáticas. O banco mantém recomendação neutra para as ações, com preço-alvo de R$ 17,50, frente aos R$ 14,73 considerados no relatório.

Por enquanto, o Santander não incorporou grandes alterações nas estimativas de consenso para o setor por causa do El Niño. Mas o comportamento dos investidores indica que o risco já começou a entrar nas decisões de alocação.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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