O ex-executivo de Flamengo e Vasco que fará R$ 100 milhões conectando atletas e marcas
Empresário carioca transformou os contatos e aprendizados de mais de uma década no futebol em uma agência que chegará aos R$ 100 milhões em 2026

A carreira do carioca Bernardo Pontes já parecia encaminhada quando, no início de 2014, o telefone tocou. Do outro lado estava Rodrigo Caetano, hoje coordenador executivo geral das seleções masculinas da CBF. Havia uma vaga para comandar o marketing do Vasco — e o nome de Pontes tinha sido indicado ao então presidente e ídolo do clube Roberto Dinamite.
O problema era o momento do clube. Havia salários atrasados, uma eleição se aproximava e uma troca de comando era provável. Aos 26 anos, Pontes tinha emprego, bom salário e estabilidade em uma empresa de marketing esportivo. Consultou pessoas próximas. A recomendação foi praticamente unânime: não vá.
Ele chegou a recusar. Até ouvir de Caetano uma frase que mudaria sua decisão: “Se você quer estabilidade, ar-condicionado e bunda na cadeira, fica aí que o futebol não foi feito para você.”
Pontes foi.
Doze anos depois, aquela escolha parece parte de uma pós-graduação prática em negócios esportivos. O publicitário passou pelos departamentos de alguns dos maiores clubes brasileiros, trabalhou na organização da Copa do Mundo de 2014 e acumulou uma agenda de contatos que hoje inclui atletas, ex-jogadores, treinadores, executivos e marcas.
Foi dessa experiência que nasceu a ALOB Sports, agência que conecta empresas ao universo esportivo. A companhia faturou R$ 76 milhões em 2025 e projeta alcançar R$ 100 milhões em 2026, crescimento de cerca de 32%. O negócio saiu de uma sala na casa de Pontes para uma estrutura com aproximadamente 60 funcionários.
Na Copa deste ano, a agência esteve por trás de negócios envolvendo nomes como Cafu, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Fabio Cannavaro, Júlio César, René Higuita e Renato Gaúcho.
“Eu preciso entender o momento em que a gente está. Sei qual é o próximo passo e quais são os seguintes, mas não posso dar o quinto passo antes de dar o primeiro”, diz Pontes.
Como ele aprendeu o negócio dentro dos clubes
O futebol apareceu na carreira de Pontes antes mesmo do primeiro emprego no setor.
Nascido no Rio de Janeiro e formado em Publicidade e Propaganda pela ESPM, ele entrou na faculdade em 2006. Ali, fundou a atlética da instituição no Rio e organizou um seminário de marketing esportivo que reuniu executivos dos quatro grandes clubes cariocas.
“Eu estava fazendo aquilo para os alunos da faculdade, mas era o primeiro aluno na primeira fileira, ouvindo e absorvendo tudo”, diz.
Antes de chegar aos clubes, fez um pouco de tudo. Trabalhou em festas infantis, foi vendedor da Blue Man e fez produção em eventos como Red Bull Air Race, Red Bull X-Fighters, camarotes no Maracanã e na Sapucaí. Depois trabalhou na comunicação do filme 5x Favela — Agora por Nós Mesmos, de Cacá Diegues, e teve uma passagem por uma agência que atendia a Nike.
A porta do futebol profissionalse abriu em 2011. Uma agência que atendia o Fluminense o colocou na conta do clube. Pouco depois, a operação foi internalizada e Pontes virou coordenador de marketing.
Na sequência, recebeu um convite para trabalhar no Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014, atendendo delegações. Durou sete meses. O modelo rígido da FIFA, diz ele, não combinava com seu perfil. Voltou ao Fluminense como gerente de marketing.
Depois veio o Vasco. Pontes assumiu um departamento com nove pessoas em meio à turbulência política do clube. Mesmo com a troca de Roberto Dinamite por Eurico Miranda, o marketing foi mantido. Ficou dois anos.
No fim de 2015, mudou-se para São Paulo para comandar o marketing da Arena Corinthians. Depois viriam Cruzeiro e Flamengo.
A passagem por tantos ambientes diferentes deu a Pontes algo difícil de aprender em sala de aula: como clubes, patrocinadores, torcedores e jogadores se relacionam — e onde o dinheiro se perde nessa cadeia.
Como os fracassos ajudaram a encontrar o negócio
Antes da ALOB, Pontes já havia tentado empreender.
Ao deixar a Arena Corinthians, em 2017, criou a Thanks Fan, uma startup para aproximar torcedores de seus ídolos. A plataforma vendia desde vídeos personalizados de nomes como Zico e Tiago Leifert até experiências esportivas.
Um dos projetos mais ambiciosos ocorreu naquele mesmo ano. Pontes fretou um avião para levar torcedores do Grêmio à Argentina para a final da Libertadores contra o Lanús. Com o título gremista, 50 deles depois viajaram para Abu Dhabi para acompanhar o Mundial de Clubes.
A imagem da marca estampada na fuselagem do avião ficou na memória do empresário. O resultado financeiro, não.
“Percebi que o modelo de negócio não estava bom para a empresa. Estava bom para o talento, estava bom para o fã e não estava bom para a gente”, afirma. A startup acabou descontinuada.
Ele ainda criou uma escola online de gestão esportiva e tentou tirar do papel, com Ronaldinho Gaúcho, um complexo itinerante de esportes de praia em Barcelona. Viajou quatro vezes à Espanha, tinha data de lançamento e fundo de investimento alinhado, segundo ele. O projeto caiu antes de estrear.
Em 2020, Pontes decidiu voltar ao mundo dos clubes. Aceitou uma proposta do Flamengo. Curiosamente, foi ali que começou a pensar em sair de vez.
Segundo ele, havia sido contratado para uma função ligada a patrocínios, mas, no primeiro dia, foi apresentado em outra posição. Um mês depois veio a pandemia. Pontes permaneceu cerca de um ano e meio no clube, enquanto preparava a próxima tentativa de empreender.
Dessa vez, havia uma tese mais clara.
Como jogadores viraram um negócio milionário
Anos dentro dos clubes fizeram Pontes perceber uma distorção. Um jogador reserva de um grande time brasileiro poderia acumular 500 mil ou 700 mil seguidores nas redes sociais e, ainda assim, gerar pouca ou nenhuma receita publicitária com essa audiência.
Ao mesmo tempo, empresas investiam milhões em patrocínios esportivos, mas nem sempre gastavam para transformar a marca estampada numa camisa ou competição em algo percebido pelo torcedor.
A ALOB nasceu para atacar os dois problemas. De um lado, conecta atletas, ex-atletas e criadores de conteúdo às marcas. Do outro, desenvolve ativações para empresas que patrocinam clubes, torneios e outras propriedades esportivas.
“Se você está colocando R$ 10 milhões, pelo menos 10% a 20% desse investimento precisa ser usado para criar iniciativas”, afirma Pontes. “Se você não der vida a esse patrocínio, vai ser uma marca que passa batida.”
A empresa não cuida do desempenho dos jogadores dentro de campo. O negócio está na imagem, publicidade e conexão comercial que existe do lado de fora dele.
Com o crescimento, outras frentes foram adicionadas. Em 2025, a empresa incorporou serviços relacionados à Lei de Incentivo ao Esporte. Neste ano, entrou em hospitalidade. Hoje atua ainda com ativações, influência e intermediação entre marcas e propriedades como clubes e torneios.
Como se fecha negócio com Kaká, Cafu e Ronaldinho
Há uma matéria-prima pouco mensurável por trás do modelo: relacionamento. Pontes passou mais de uma década circulando por clubes e pelo mercado esportivo. Agora, tenta transformar essa agenda em uma vantagem competitiva.
Segundo ele, a ALOB procura negociar diretamente com o atleta ou com seu representante oficial. A ideia é encurtar uma cadeia na qual uma marca pode contratar uma agência, que procura outra agência especializada em influência, que, por sua vez, chega a mais um intermediário antes de encontrar o representante do atleta. Cada camada acrescenta custo e complexidade.
Isso não significa que escolher um jogador para uma campanha seja simplesmente contratar quem tem mais seguidores.
A empresa cruza preço, audiência, engajamento, capacidade de comunicação e disponibilidade antes de recomendar um nome. Nos bastidores, há atletas que chegam ao set conhecendo cada detalhe da campanha e outros que precisam de acompanhamento até para gravar uma fala curta.
Na Copa do Mundo, essa engrenagem ganhou escala. Entre as negociações citadas por Pontes estão Cafu com Johnnie Walker, Ronaldinho Gaúcho com Pedigree, Kaká e Cannavaro com o Grupo Boticário, Júlio César com Ambev, Higuita com Samsung e Renato Gaúcho com Swift.
É a tradução comercial de algo que Pontes aprendeu antes mesmo de virar empresário: no Brasil, futebol não é apenas entretenimento. É uma enorme plataforma de comunicação.
Para onde vai o negócio de R$ 100 milhões
A Copa ajudou a fazer de 2026 um ano particularmente forte, mas a ALOB já olha para o próximo grande evento. Em 2027, o Brasil receberá a Copa do Mundo Feminina, e Pontes espera uma nova corrida das marcas pelo esporte.
“Quem não falar de Copa do Mundo feminina vai ficar pelo caminho”, diz. Para ele, a tendência de crescimento vai além dos grandes torneios. “Quem tem feito está gostando e está repetindo.”
Por enquanto, a expansão será controlada, diz o empresário. A ALOB passou de uma pessoa trabalhando de casa para três funcionários, depois sete, dez, 15 e agora 60. Pontes afirma não ter pressa de chegar a 200 ou 300.
É um negócio bem diferente daquele que Pontes encontrou quando começou a trabalhar nos clubes. Mas a matéria-prima continua praticamente a mesma: a capacidade brasileira de transformar futebol em audiência — e audiência em dinheiro.
