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Sacre Investimentos
Economia
28/06/2026
8 min

O fim da era das privatizações? FMI vê nova onda global de nacionalizações

O fim da era das privatizações? FMI vê nova onda global de nacionalizações

Nas últimas décadas, uma tese se sobressaiu dentre tantas na macroeconomia global: privatizações, abertura comercial, liberalização financeira e redução da participação do Estado são os pilares da ordem econômica construída após o fim da Guerra Fria.

Uma edição especial da revista Finance & Development (F&D), publicação oficial do Fundo Monetário Internacional (FMI), sugere que o mundo está entrando em uma nova fase. Em artigo publicado na edição de junho de 2026, o historiador econômico Nicholas Mulder, professor da Cornell University, afirma que governos ao redor do mundo estão retomando o controle de empresas, infraestrutura e recursos naturais no ritmo mais acelerado em meio século.

"Governos estão assumindo o controle de empresas privadas e recursos naturais no ritmo mais acelerado dos últimos 50 anos", diz Mulder, em artigo.

Segundo ele, o movimento não é pontual nem resultado de circunstâncias locais. Trata-se da "quarta grande onda de nacionalizações" observada desde o início do século XX.

Para Mulder, mais do que um debate sobre o tamanho do Estado, a discussão está inserida em uma transformação mais ampla da economia global. A própria edição da F&D foi dedicada ao tema da geoeconomia — conceito que descreve a crescente convergência entre política econômica, segurança nacional e competição geopolítica.

No artigo de abertura da revista, Josh Lipsky, diretor do GeoEconomics Center do Atlantic Council, afirma que a separação entre economia e segurança nacional está desaparecendo. A publicação tem uma abertura curiosa para os leitores brasileiros. Anota Lipsky:

"O que é geoeconomia?". Um alto funcionário da área financeira do governo brasileiro inclinou-se em minha direção e me fez essa pergunta durante uma sessão que eu presidia no Rio de Janeiro, em 2024, durante a presidência brasileira do G20. Uma delegação do Atlantic Council havia ido discutir stablecoins, cadeias de suprimentos e as reservas cambiais da Rússia.

Respondi rapidamente. "É isto aqui — o que estamos fazendo neste exato momento: a combinação entre finanças e segurança nacional."

"Ah", disse ele, antes de fazer uma pausa."Aqui no Brasil, nós simplesmente chamamos isso de política."

Montagem fotográfica mostrando Donald Trump e o CEO da Anthropic, Dario Amodei, representando as negociações entre a empresa de inteligência artificial e o governo dos EUA sobre o modelo Claude Mythos Preview.

Donald Trump e Dario Amodei, CEO da Anthropic: gestão do republicano mandou suspender uso de modelos de IA da empresa (Getty Images)

No Ocidente, e principalmente nos Estados Unidos, acadêmicos e pesquisadores estão redescobrindo um conceito que, para boa parte dos países emergentes, nunca deixou de existir: a ideia de que comércio, investimento, energia, moeda e recursos estratégicos são instrumentos de poder nacional.

Segundo ele, durante boa parte do período pós-Guerra Fria — até a pandemia e a invasão da Ucrânia pela Rússia — os Estados Unidos e a Europa tiveram o luxo de frequentemente separar a política econômica das questões de segurança nacional. "Hoje, a possibilidade de isolar políticas públicas econômicas e de segurança nacional acabou", diz Lipsky.

É justamente nesse contexto que Mulder, que estuda a histórica econômica dos países, enxerga a atual onda de nacionalizações de empresas.

Da França aos Estados Unidos

O artigo reúne exemplos que mostram como a intervenção estatal voltou a ganhar espaço em economias desenvolvidas e emergentes.

Desde 2020, França e Alemanha assumiram o controle de empresas dos setores de energia e utilidades públicas. A França colocou sob controle estatal o maior estaleiro da Europa. O Reino Unido nacionalizou ferrovias e operações siderúrgicas. A Rússia confiscou mais de US$ 48 bilhões em portos, fábricas e empresas após a invasão da Ucrânia.

Já os Estados Unidos passaram a deter participação dominante na única produtora doméstica de terras raras do país — e proibiu a exportação de tecnologia de ponta da Anthropic recentemente.

Paralelamente, diversos governos ampliaram o controle sobre recursos considerados estratégicos, incluindo lítio, ouro, urânio, níquel e óleo de palma. Segundo Mulder, entre 2016 e 2026 o valor dos ativos nacionalizados no mundo ficou entre US$ 239 bilhões e US$ 544 bilhões, dependendo da metodologia utilizada.

"A onda atual de nacionalizações não demonstra sinais de arrefecimento", afirma.

A quarta onda

Ao analisar o último século, Mulder identifica quatro grandes ciclos de nacionalização. A primeira onda ocorreu durante a Grande Depressão dos anos 1930. O colapso do padrão-ouro, a retração do comércio internacional e a crise bancária levaram governos a assumir instituições financeiras, ferrovias e setores industriais inteiros. Entre 1931 e 1935, os Estados Unidos nacionalizaram cerca de um terço do capital financeiro do país. Na Alemanha, mais da metade do sistema bancário passou para controle estatal.

"A onda de nacionalizações dos anos 1930 foi um sintoma da desintegração econômica e financeira global. No curto prazo, ela evitou falências, mas também fragmentou mercados nacionais e reduziu o comércio e os investimentos internacionais", escreve Mulder. "Com o tempo, a ampliação da presença do Estado na economia deu aos governos maior autonomia para formular políticas públicas e permitiu que eles ajudassem a construir uma nova ordem econômica internacional no fim da Segunda Guerra Mundial."

As quatro ondas de nacionalização na economia global

Onda I
1931-1938
Onda II
1945-1952
Onda III
1970-1979
Onda IV
2020-hoje
Regime monetário Fim do padrão ouro e sistema de câmbio fixo Sistema de Bretton Woods Fim de Bretton Woods Sistema de câmbio flutuante
Cenário global de preços Deflação Inflação Inflação Inflação
Tendência no comércio global Avanço do protecionismo Maior liberalização Maior liberalização Avanço do protecionismo
Setores mais nacionalizados Sistema bancário e indústria Indústria, infraestrutura e transporte Energia e commodities Commodities, infraestrutura e mineração

Fonte: Nicholas Mulder, The Age of Confiscation (em publicação)

A segunda onda surgiu após a Segunda Guerra Mundial. Em meio à reconstrução econômica, diversos países adotaram modelos de economia mista. Reino Unido e França nacionalizaram bancos, energia, telecomunicações, transportes e setores industriais considerados fundamentais para o crescimento do pós-guerra.

A terceira onda, a mais intensa da história até então, ocorreu nos anos 1970. O fim do sistema de Bretton Woods, a desvalorização do dólar e os choques do petróleo estimularam países produtores de commodities a assumir o controle de recursos naturais e ativos pertencentes a investidores estrangeiros. Entre 1971 e 1980, economias em desenvolvimento nacionalizaram pelo menos US$ 26 bilhões em propriedades estrangeiras.

O auge ocorreu em 1975, quando 28 países realizaram 83 expropriações — uma média de uma nacionalização a cada quatro dias.

Agora, segundo Mulder, o mundo entrou em uma quarta fase.

Do petróleo ao lítio

Embora existam semelhanças com os anos 1970, o novo ciclo temi características próprias. A principal delas é a mudança dos ativos considerados estratégicos. Se a terceira onda foi marcada pelo petróleo, a atual gira em torno dos insumos necessários para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia. Lítio, níquel, urânio, cobre, terras raras e infraestrutura energética tornaram-se peças centrais da competição econômica entre as grandes potências.

O fenômeno está diretamente relacionado ao conceito de geoeconomia apresentado por Lipsky. Segundo ele, a geoeconomia contemporânea está na interseção entre finanças, segurança nacional e macroeconomia e busca compreender como fluxos de comércio e capital são remodelados pela rivalidade estratégica entre países — e a disputa entre Estados Unidos e China é o principal exemplo desse processo.

Nas últimas décadas, Washington, Wall Street e o Vale do Silício frequentemente seguiram caminhos distintos. Enquanto autoridades americanas alertavam para riscos associados à China, empresas e investidores ampliavam sua exposição ao país asiático. Hoje, argumenta Lipsky, essa separação deixou de ser possível.

Ao mesmo tempo, governos passaram a utilizar instrumentos econômicos para atingir objetivos estratégicos: sanções financeiras, restrições à exportação de tecnologia, subsídios industriais, controle de cadeias produtivas e participação estatal em empresas. Nesse ambiente, recursos naturais deixaram de ser apenas ativos econômicos e passaram a ser vistos como ativos de segurança nacional.

Vista de satélite do Estreito de Ormuz com linhas gráficas brancas representando rotas marítimas globais e tráfego marítimo entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Conceito estratégico de transporte de petróleo

Estreito de Ormuz: fechamento da rota comercial elevou o preço do petróleo neste ano (GettyImages)

Fim da globalização?

Ao contrário do que ocorreu nos anos 1930, quando a retração do comércio internacional acompanhou o avanço da intervenção estatal, o historiador econômico acredita que a integração financeira global continuará avançando. "Essas tomadas vão mudar mas não vão retardar a integração financeira e econômica", escreve .

Em sua avaliação, o comércio, os investimentos e os fluxos financeiros devem se reorganizar em torno de blocos geopolíticos mais definidos. Países alinhados entre si tendem a aprofundar suas relações econômicas, enquanto nações neutras podem se beneficiar atuando como intermediárias confiáveis entre rivais estratégicos.

A conclusão de Mulder sugere que o mundo está se afastando do paradigma que dominou os anos 1990 e 2000. A lógica de privatização irrestrita e integração econômica acima de considerações estratégicas vem sendo substituída por uma visão em que governos voltam a enxergar determinados ativos como essenciais para a segurança nacional e a competitividade industrial.

Como resume o autor, a retomada das nacionalizações ocorre justamente em um momento de integração financeira sem precedentes — sinal de que forças macroeconômicas e geopolíticas profundas estão redefinindo o papel do Estado na economia global.

"O avanço das nacionalizações nos dias de hoje, apesar do nível historicamente elevado de integração dos mercados de capitais, aponta para fortes forças macroeconômicas e geopolíticas que favorecem intervenções estatais — e para uma convicção política crescente de que as nacionalizações voltaram a ser um instrumento central de política econômica em uma era de fragmentação geoeconômica", escreve Mulder.

AutorLuciano Pádua
FonteExame
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