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Mundo
18/09/2026
4 min

O fim da velha aliança? Como Trump mudou a relação entre Canadá e EUA

Meses de imbróglios diplomáticos e econômicos entre os vizinhos e aliados podem acabar com décadas de parceria comercial, alerta um estudo do CFR

O fim da velha aliança? Como Trump mudou a relação entre Canadá e EUA

O Canadá entrou em uma nova fase de sua relação com os Estados Unidos, marcada pelo aumento das tarifas, pela deterioração da confiança entre os dois governos e pela disposição de Ottawa de reagir às medidas de Washington. Segundo análise publicada pelo Council on Foreign Relations (CFR), o conflito comercial começa a pôr em xeque um modelo de integração econômica que sustentou a relação bilateral por décadas.

O desgaste ganhou força após Donald Trump impor tarifas de 50% sobre US$ 27,6 bilhões em exportações canadenses para os Estados Unidos. O episódio provocou uma resposta imediata de Ottawa e coincidiu com uma pesquisa em que 41% dos canadenses disseram considerar os Estados Unidos um “país inimigo”, o que sinaliza uma mudança relevante na percepção pública sobre o principal parceiro econômico do país.

A tensão é particularmente significativa porque o Canadá construiu sua estratégia econômica em torno da aproximação ao mercado americano. O movimento começou com o Acordo de Livre Comércio de 1988 e avançou com o famoso acordo de livre comércio norte-americano, a Nafta, e, posteriormente, com o seu sucessor, o USMCA — United States-Mexico-Canada Agreement, que representa até 30% do PIB global. Ao longo do tempo, mais de 70% das exportações canadenses passaram a ter os Estados Unidos como destino.

O estudo reitera, no entanto, que as divergências comerciais e os imbróglios diplomáticos entre os aliados já precedem Trump: Washington e Ottawa já haviam disputado temas como a pesca, a construção do Canal de São Lourenço e barreiras comerciais em setores como a madeira e os produtos agrícolas. O diferencial atual está na intensidade do confronto e na disposição canadense de assumir os custos de uma resposta.

Para o CFR, a política de Trump transformou essa integração em uma fonte de vulnerabilidade, não só de discordâncias. Além das tarifas, declarações do presidente americano sobre a possibilidade de tornar o Canadá o 51º estado dos Estados Unidos e provocações contra o primeiro-ministro Mark Carney contribuíram para intensificar o sentimento de insegurança e irritação entre os canadenses.

Elbows Up

Premiê canadense, Mark Carney, palestra dobre guerra na Ucrânia. Líder canadense adota postura dura contra tarifas de Trump, pondo em risco muito do comércio de seu país, mas busca alternativas na Europa. (AFP)

Carney decidiu retaliar as tarifas americanas apesar da forte dependência do Canadá em relação ao mercado dos Estados Unidos, seguindo seu slogan de campanha "Elbows Up" — um termo defensivo do hóquei, esporte mais popular do país — que promove resistência, não aceitação, às pressões de Washington. De acordo com o estudo, a estratégia combina cálculo político e econômico: o primeiro-ministro havia prometido enfrentar Trump durante a campanha e, ao mesmo tempo, precisava demonstrar que decisões de Washington também poderiam gerar prejuízos do outro lado da fronteira.

A avaliação também foi discutida com Rohinton Medhora, professor da McGill University e pesquisador do Centre for International Governance Innovation, em um episódio do podcast The President’s Inbox, do CFR. Para ele, Ottawa precisava mostrar que estava disposto a pagar um preço para criar custos também para os Estados Unidos e preservar sua capacidade de negociação.

A disputa afeta setores em que as duas economias estão profundamente interligadas. O CFR cita as pressões de Trump sobre a Bombardier, que mantém uma extensa cadeia de fornecedores nos Estados Unidos, além de propostas no governo americano para transferir parte da produção automotiva canadense para o território dos EUA.

Para os canadenses, o problema passou a ir além de uma discussão sobre tarifas. As exigências de Washington levantam dúvidas sobre a segurança de uma relação econômica construída sob a expectativa de estabilidade e sobre a possibilidade de que a integração seja utilizada como instrumento de pressão política.

Mesmo assim, o estudo realça que ainda não está claro se a ruptura das negociações comerciais em agosto representa um impasse duradouro ou apenas uma etapa rumo a um novo acordo. Trump voltou recentemente a demonstrar otimismo sobre um entendimento, mas a instabilidade dos últimos meses já alterou a percepção canadense sobre a dependência em relação aos Estados Unidos, levando o país a buscar alianças extraordinárias com a União Europeia, que também enfrenta problemas semelhantes com o líder americano.

Mesmo que os dois governos cheguem a um novo acordo, a tendência, segundo o CFR, é que Ottawa procure reduzir sua vulnerabilidade econômica. A experiência recente e a possibilidade de futuras administrações americanas adotarem políticas semelhantes devem estimular o Canadá a buscar novos mercados e ampliar suas alternativas comerciais.

O resultado pode ser uma transformação gradual de um dos relacionamentos econômicos mais integrados do mundo. Na avaliação de Medhora, os acontecimentos atuais representam os primeiros meses de uma transição para um modelo menos dependente dos Estados Unidos, processo que pode acabar gerando custos para as duas economias.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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