‘O futebol é uma paixão que nos une’, diz cônsul da França

O Brasil e a França deixaram a disputa pelo título da Copa do Mundo em 2026, mas a conexão entre os dois países por meio do futebol continua em campo. Para Alexandra Mias, cônsul-geral da França em São Paulo, o esporte vai além da competição e ajuda a aproximar mercados, formar talentos e ampliar a cooperação bilateral.
“O futebol é uma paixão que nos une”, afirma Mias em entrevista exclusiva à EXAME durante a Festa Nacional da França, realizada nesta terça-feira, 14, em São Paulo.
A declaração ocorreu poucas horas depois que a seleção francesa perder por 2 a 0 para a Espanha na semifinal do Mundial. Apesar do fim da busca pelo terceiro título francês, a diplomata ressaltou que o esporte representa uma história compartilhada entre franceses e brasileiros.
“Entre a França e o Brasil, o futebol é muito mais do que um esporte. É uma história compartilhada, marcada pela admiração mútua”, diz.
Futebol: uma paixão em comum
Ao destacar a relação entre os dois países, Mias citou jogadores brasileiros que construíram parte importante da carreira na França, como Raí, Ronaldinho e Marquinhos.
“Muitos jogadores brasileiros marcaram o futebol francês. Eles foram recebidos na França com um entusiasmo que ultrapassa as fronteiras”, afirma.
A circulação de atletas ajuda a movimentar uma cadeia que envolve clubes, patrocinadores, direitos de transmissão, produtos esportivos, turismo e formação profissional. Para a cônsul, essa relação também contribui para fortalecer a imagem dos dois países e criar novas conexões entre suas sociedades.
O Brasil se consolidou historicamente como exportador de jogadores, enquanto a França se tornou uma das principais portas de entrada para atletas brasileiros no mercado europeu. Ao mesmo tempo, os dois países ganharam protagonismo na identificação e na formação de novos talentos.
Paris e São Paulo como polos de talentos
Segundo Mias, Paris e São Paulo têm papel estratégico na revelação de jovens jogadores. As duas regiões concentram clubes, projetos sociais, escolas de formação e uma ampla rede de profissionais ligados ao esporte.
“Tanto Paris quanto São Paulo são grandes polos de jovens talentos no futebol”, afirma.
A diplomata destacou que o esporte já faz parte da agenda de cooperação entre o estado de São Paulo e a região de Île-de-France, que engloba Paris e municípios do entorno da capital francesa.
O tema ganhou espaço durante a visita ao Brasil de Valérie Pécresse, presidente da região de Île-de-France. Segundo Mias, a cooperação com São Paulo e o futebol estiveram entre os principais pontos discutidos.
A aproximação pode abrir espaço para intercâmbios entre instituições esportivas, formação de atletas, capacitação de profissionais e compartilhamento de práticas de gestão.
Esporte como diplomacia
Na avaliação da cônsul, a capacidade de aproximar pessoas faz com que o futebol também funcione como uma ferramenta de relações internacionais.
“O esporte tem uma capacidade única de aproximar as nações. Talvez seja tão eficaz quanto a diplomacia”, disse, em tom de brincadeira.
A afirmação reforça a estratégia francesa de ampliar os laços com o Brasil para além das áreas tradicionais de investimentos, infraestrutura, energia e comércio. Cultura, ciência, educação e esporte também fazem parte da construção dessa relação.
O investimento de R$ 100 bilhões da França no Brasil
Hoje, a França divide com a Espanha a posição de segundo maior investidor estrangeiro no Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos.
No último ano, foi anunciado um compromisso de R$ 100 bilhões em investimentos de empresas francesas no Brasil até 2030, e apesar do cenário de incertezas econômicas e da proximidade de eleições tanto no Brasil quanto na França, o plano segue sendo cumprido, afirma Mias.
"Esse anúncio corresponde a investimentos privados, que seguem o tempo de cada empresa, dos conselhos de administração e dos leilões. O plano está sendo cumprido", diz.
O país europeu possui cerca de 1.400 empresas instaladas no Brasil, das quais aproximadamente 650 estão em São Paulo. Ao mesmo tempo, Brasil e França mantêm parcerias em setores como bioeconomia, transição energética, pesquisa e formação profissional.
O futebol aparece neste cenário como mais uma ponte entre os dois mercados. Mesmo sem Brasil ou França na final da Copa, a relação construída fora das quatro linhas continua avançando.
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França realizará evento para atrair empresas brasileiras
Se o fluxo de investimentos franceses no Brasil é consolidado, o movimento inverso ainda é considerado tímido.
De acordo com a cônsul, os investimentos brasileiros na França somam menos de US$ 2 bilhões, o que abre espaço para uma aproximação maior entre os dois mercados.
Ela cita casos como Embraer e BWGI como exemplos de empresas brasileiras que já obtiveram sucesso no país europeu e afirma que a França pretende ampliar essa presença.
"Os investimentos brasileiros estão super bem-vindos na França", diz.
Para incentivar esse movimento, o governo francês prepara um evento voltado exclusivamente para investidores brasileiros, previsto para o segundo semestre de 2027, após as eleições nos dois países - realizadas em outubro de 2026, no Brasil, e em abril de 2027, na França.
Festa Nacional da França celebra parceria entre os dois países
A entrevista com a cônsul aconteceu durante a celebração da Festa Nacional da França, realizada nesta terça-feira, 14, na Pina Contemporânea, em São Paulo. O evento reuniu representantes do governo, do corpo diplomático, empresários e integrantes da comunidade francesa no Brasil para marcar o 14 de julho, data que celebra a Queda da Bastilha, marco da Revolução Francesa, que relembra os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.
Em seu discurso de abertura, a cônsul afirmou que a relação entre os dois países está voltada para o futuro e destacou a ampliação da cooperação em áreas estratégicas como defesa, bioeconomia, ciência, cultura e investimentos.
"Seguimos reforçando nosso diálogo político e nossa parceria estratégica, que se concretiza por meio de conquistas que nos enchem de orgulho", disse.
Entre os exemplos citados pela diplomata estão os projetos conjuntos para a Amazônia, a cooperação em minerais críticos, transição energética e pesquisa científica.
Ela destacou ainda que a Universidade de São Paulo (USP) passou a abrigar quatro centros franceses de pesquisa dedicados à saúde, agricultura, transição energética e economia circular. “Isso é inédita no mundo”.
Na área cultural, Mias lembrou que a Temporada França-Brasil promoveu mais de 300 eventos no país, passando por instituições como Museu do Ipiranga, Bienal de São Paulo e Sesc. Durante a cerimônia, ela também anunciou a criação da Associação de Amizade Franco-Brasileira para a Cultura, as Ciências e a Educação, voltada ao fortalecimento da cooperação entre os dois países.
