O futuro das finanças e do open finance depende de preservar a confiança

Por Ghassan Dreibi*
Durante muito tempo, inovar no mercado financeiro significava entregar uma experiência melhor ao cliente. O banco no celular substituiu a agência, o Pix reduziu transações que antes levavam dias a poucos segundos e a inteligência artificial começou a tornar atendimento, crédito e prevenção a fraudes mais eficientes.
Inovar continua sendo essencial. O que mudou foi a natureza do desafio. A discussão deixou de girar apenas em torno de novos produtos e passou a envolver uma questão muito mais ampla: como preservar a confiança em um sistema cada vez mais automatizado? Essa talvez seja a mudança mais importante que estamos vivendo.
Existe uma percepção comum de que a inteligência artificial inaugurou uma nova era dos ataques cibernéticos. Mas, na verdade, ela funcionou como um acelerador. As campanhas indiscriminadas deram lugar a ações cada vez mais precisas, voltadas para uma organização específica, um sistema ou até uma única pessoa. A tecnologia reduziu custos, ampliou a escala e tornou essas operações muito mais eficientes. E isso muda completamente a lógica da defesa.
Até pouco tempo atrás, equipes de segurança trabalhavam com uma janela razoável para identificar uma vulnerabilidade, analisar seu impacto e aplicar uma correção. Essa janela está diminuindo rapidamente. Ferramentas baseadas em inteligência artificial conseguem localizar falhas em códigos em uma velocidade inédita. Infelizmente, quem ataca também passou a usar essas mesmas capacidades.
Sistemas legados
Enquanto isso, boa parte das instituições financeiras continua operando sobre infraestruturas construídas ao longo de décadas. São ambientes robustos, mas inevitavelmente complexos, com sistemas legados convivendo com APIs, plataformas em nuvem, Open Finance e novos serviços digitais. É justamente nessa convivência entre tecnologias antigas e novas que surgem muitos dos riscos.
Há outro aspecto que merece mais atenção do que normalmente recebe. Durante décadas, toda a arquitetura de segurança foi desenhada para validar pessoas. Agora começam a surgir agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas em nome de clientes, colaboradores e empresas. Eles consultam sistemas, negociam informações, automatizam processos e, em alguns casos, podem até iniciar operações.
Quem autentica esses agentes? Quais dados eles podem acessar? Quem responde quando tomam uma decisão inadequada? Ainda não existem respostas definitivas para essas perguntas, mas elas já fazem parte da agenda dos líderes de tecnologia.
O mesmo vale para os próprios modelos de inteligência artificial. Eles aprendem continuamente, recebem novos dados, evoluem e podem ser influenciados por informações incorretas ou maliciosas. Em um banco, isso pode afetar mecanismos de prevenção a fraudes, análises de crédito ou sistemas de atendimento. Não se trata de um risco teórico. Quando as decisões passam a ser apoiadas por IA, testar continuamente esses modelos deixa de ser uma boa prática. Passa a ser parte da gestão do negócio.
Criar confiança com IA
Curiosamente, a inovação financeira nunca pareceu tão simples para quem está do outro lado da tela. Um pagamento acontece em segundos. Uma conta é aberta em minutos. Um investimento pode ser recomendado por um assistente virtual. Essa simplicidade, porém, esconde uma infraestrutura cada vez mais sofisticada, conectada e sensível.
Talvez esse seja o grande paradoxo do setor financeiro atualmente. Quanto mais simples a experiência, mais complexa se torna a responsabilidade de protegê-la.
Por isso, acredito que a próxima vantagem competitiva das instituições financeiras dificilmente será determinada apenas pela velocidade de adoção da inteligência artificial. Ela será definida pela capacidade de criar confiança em um ambiente onde pessoas, máquinas e agentes inteligentes passam a compartilhar decisões.
O sistema financeiro sempre soube inovar. O desafio agora é garantir que essa inovação continue merecendo o ativo mais valioso que o setor construiu ao longo do tempo: a confiança dos clientes.
*Ghassan Dreibi é diretor de cibersegurança da Cisco América Latina
