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InvestMercados
24/06/2026
5 min

O Ibovespa a cada Copom: como as decisões de juros mexeram com a bolsa este ano

O Ibovespa a cada Copom: como as decisões de juros mexeram com a bolsa este ano

O primeiro semestre está na reta final e o que não faltou na primeira metade de 2026 foi emoção. Conflitos geopolíticos, petróleo em disparada e inflação elevada marcaram o período e mudaram a percepção sobre o futuro da economia brasileira. Se em janeiro havia a impressão de que a Selic poderia chegar em dezembro muito próxima de um dígito, a expectativa agora é que o ciclo de alívio, tímido até agora, termine antes do previsto. A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada neste terça-feira, 23, reforçou essa percepção.

No rali otimista do Ibovespa no começo do ano, a redução de juros também estava sendo precificada. Só em janeiro, a Bolsa acumulou uma expressiva alta de 14,62%. Mas cenário mudou de figura nos meses seguintes. No acumulado até maio, os estrangeiros lideraram uma retirada de R$ 19,26 bilhões, enquanto o investidor local sustentou a contraparte injetando R$ 24,01 bilhões.

Os dados parciais de junho apontam os gringos retirando mais R$ 4,37 bilhões, enquanto os nacionais aportaram R$ 4,86 bilhões. Com isso, o saldo parcial do ano consolida uma entrada líquida de R$ 4,01 bilhões de capital estrangeiro e R$ 6,12 bilhões do investidor local.

Para Raissa Florence, economista e diretora na Oz Câmbio, o avanço da fatia doméstica deve ser lido com cautela. "O aumento da participação do investidor local pode ser interpretado como um sinal de melhora gradual da confiança na renda variável, mas ainda não necessariamente como uma mudança estrutural de comportamento", pontua.

A economista explica que, durante os períodos de juros elevados, muitos investidores preferem permanecer em aplicações de renda fixa, que oferecem retornos atrativos com menor volatilidade.

"À medida que o mercado começa a enxergar maior previsibilidade para inflação, juros e crescimento econômico, parte desses recursos tende a migrar para ativos de risco", diz Florence.

A fuga global para o "porto seguro" da tecnologia

Em um cenário global repleto de incertezas macroeconômicas, o investidor internacional buscou proteção em teses de crescimento secular. As empresas de tecnologia concentraram boa parte deste capital global. O maior símbolo desse movimento foi a Nvidia: a gigante dos semicondutores superou a impressionante marca de US$ 5 trilhões em valor de mercado em maio, consolidando-se temporariamente como a empresa mais valiosa do mundo.

Dados do Bank of America (BofA) e da EPFR Global mostram que os fundos globais focados em tecnologia registraram uma captação líquida recorde de aproximadamente US$ 42 bilhões entre janeiro e maio de 2026. Paralelamente, o investimento direto (Capex) das cinco maiores Big Techs (Nvidia, Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta) alcançou US$ 115 bilhões nos primeiros cinco meses do ano, direcionados para a expansão de data centers, infraestrutura de energia e servidores de Inteligência Artificial.

Rodrigo Moliterno, head de renda variável e sócio da Veedha Investimentos, explica que esse fluxo que migrou dos mercados emergentes e das commodities em direção ao ecossistema de tecnologia desenhou o chamado smart money. Contudo, esse movimento pode estar perto de uma estabilização com o avanço recente das negociações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Irã para conter o conflito geopolítico que se arrasta há meses.

O sócio da Veedha entende que os dados mais recentes já mostram um horizonte mais animador para o ambiente doméstico, com o investidor estrangeiro voltando a olhar para os múltiplos da Bolsa brasileira com algum interesse, ainda que sem o entusiasmo febril do início de 2026.

"Esse movimento sugere que os investidores estão voltando a considerar oportunidades de longo prazo na Bolsa, mas a continuidade dessa tendência dependerá da evolução do cenário macroeconômico, da trajetória dos juros e dos resultados das empresas. Nos próximos meses, o comportamento do investidor local deve continuar bastante sensível às expectativas para a política monetária e ao desempenho da economia brasileira", pondera Raissa Florence.

O espelho macro: Boletim Focus vs. Ibovespa

A tabela abaixo cruza o comportamento do Ibovespa nos dias de decisão do Copom com as respectivas projeções do Boletim Focus divulgadas naquelas mesmas semanas. O levantamento deixa nítido o momento de virada do mercado.

Reunião do Copom (2026) IPCA 2026 IPCA 2027 Selic 2026 Selic 2027 Fechamento Ibovespa Variação Diária Alta Acumulada no Ano
1ª) 28 de janeiro (sem corte) 4,00% 3,80% 12,25% 10,50% 184.694 pts +0,58% +14,62%
2ª) 18 de março (queda de 0,25 p.p) 4,10% 3,80% 12,25% 10,50% 179.639 pts -0,43% +13,00%
3ª) 29 de abril (queda de 0,25 p.p) 4,86% 3,99% 13,00% 11,25% 184.694 pts -2,05% +14,66%
4ª) 17 de junho (queda de 0,25 p.p) 5,30% 4,10% 13,75% 12,00% 169.648 pts -0,38% +5,52%

O Ibovespa ainda conseguiu se manter próximo dos 180 mil pontos até a reunião de abril, mesmo quando o Focus já indicava as primeiras revisões altistas na inflação.

A realidade macroeconômica e o estresse fiscal doméstico cobraram o preço de forma mais pesada em junho: com o IPCA projetado estourando o teto da meta (5,30%), as expectativas de juros foram revisadas para cima e a bolsa perdeu o suporte histórico, derretendo mais da metade dos ganhos acumulados no ano.

AutorPaulo Holland
FonteExame
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