O início da era John Ternus na Apple: por que o novo CEO voltou às raízes de Steve Jobs
Em sua estreia como CEO, executivo resgata o conceito do "hub digital" de Steve Jobs e consolida o iPhone como o pilar central da IA da Apple

RESUMO | A Apple apresentou nesta quarta-feira, 9, em Cupertino, sua nova linha de iPhones e marcou a estreia de John Ternus como CEO, no lugar de Tim Cook. Ao posicionar o iPhone como uma “central de inteligência pessoal”, Ternus retomou a estratégia do “hub digital” usada por Steve Jobs e revelou o iPhone Duo, primeiro dobrável da marca.
Em Cupertino, na Califórnia, a Apple apresentou sua nova linha de iPhones em um evento aguardado pelo setor na quarta-feira, 9 — não só pela lineup de produtos, mas também pela estreia de John Ternus como novo CEO da empresa.
Ternus sucede Tim Cook, que ficou 15 anos no comando de uma das companhias mais valiosas do mundo, e chegou ao palco reeditando uma estratégia já aplicada por Steve Jobs, fundador da Apple, há um quarto de século.
Conhecido como "arquiteto do iPhone", Ternus deu ao evento um foco maior no que chamou de "central de inteligência pessoal". Para ele, a inteligência artificial (IA) "torna possíveis tipos inteiramente novos de experiências", e se torna ainda mais útil quando conectada aos aplicativos e serviços que a pessoa já usa todo dia — o que coloca, novamente, o iPhone no centro da experiência do usuário.
A jogada reproduz, quase palavra por palavra, um discurso que Jobs fez há 25 anos — só que sobre outro produto. Em 2001, meses antes de revelar o iPod, Jobs defendeu o Mac como o "hub digital" central da vida das pessoas, num momento em que analistas já decretavam a morte do computador pessoal.
"Estamos dizendo que o PC não está morrendo, de jeito nenhum. Achamos que ele está entrando em sua terceira grande era", disse Jobs à época, apontando para uma lápide com os dizeres "Amado PC" projetada atrás dele — resposta às citações pessimistas de analistas de mercado e executivos de rivais como Compaq e Gateway. O Mac acabou virando a base de conexão para câmeras digitais, camcorders e tocadores de DVD — um posicionamento que, meses depois, abriu caminho para o iPod.
Ternus enfrenta hoje uma versão quase idêntica desse dilema, só que em relação ao iPhone, às vésperas de completar 20 anos de mercado. O futuro do aparelho já vinha sendo questionado nos últimos anos. Uma manchete da revista Fortune declarou que "os dias do smartphone estão contados", e outra, do Axios, descreveu o fim da era Cook como "um desafio existencial para a Apple: descobrir o que vem depois do iPhone".
Os números ainda não sustentam essa possibilidade. No último balanço trimestral divulgado pela Apple — referente ao terceiro trimestre fiscal de 2026, encerrado em junho, o último reportado sob o comando de Cook —, o iPhone segue disparado como a maior fonte de receita da empresa, com US$ 54,3 bilhões, alta de mais de 20% na comparação anual.
Diferentemente de Cook, que passou anos tentando convencer o mercado financeiro de que a Apple era mais do que só o iPhone, Ternus optou pelo caminho oposto: dobrou a aposta no aparelho que já domina o portfólio da empresa, em vez de sinalizar uma nova categoria de produto para substituí-lo.
O progresso da sucessão
A apresentação também marcou a virada institucional da companhia: foi Cook quem, ao fim de um vídeo cinematográfico sobrevoando a Big Sur até o Apple Park, cedeu o palco ao sucessor, chamando-o de novo "protagonista" da Apple.
Ternus abriu seu primeiro discurso como CEO com um tom mais pessoal do que técnico, dizendo que se sentia privilegiado por "representar as equipes notáveis" da empresa, e prometeu que a Apple vai "continuar mudando o mundo de formas que vocês não conseguem imaginar" — recebido por uma ovação de pé da plateia.
Ao longo da apresentação, Ternus também usou o palco para atacar, de forma indireta, rivais que constroem seus próprios ecossistemas de inteligência artificial.
"Outros veem seus dados pessoais como algo a ser coletado e armazenado", disse, em um dos comentários mais diretos já feitos pela Apple sobre como pretende se diferenciar da concorrência em IA. "A confiança só vai até certo ponto quando seus dados deixam de estar sob seu controle — por isso a Apple Intelligence roda no próprio aparelho sempre que possível."
O dobrável da Apple chega sete anos depois de rivais, mas pode soar como uma grande inovaçãoO discurso chega em meio à disputa por óculos inteligentes, hoje liderada por Meta, Google e Samsung — categoria em que a Apple é frequentemente criticada por chegar atrasada.
Ao manter o iPhone como centro da estratégia de IA, em vez de anunciar um novo hardware para competir diretamente nesse mercado, Ternus aposta no único aparelho que a maioria das pessoas carrega o tempo todo, mesmo quando deixa notebook e tablet em casa.
Apresentação do iPhone Duo, o aguardado primeiro smartphone dobrável da Apple com formato "passaporte". (Apple/Reprodução)
É simbólica, nesse sentido, a cena em que ele mostra ao mundo o primeiro iPhone dobrável da história da empresa como Jobs fez com o iPhone há quase vinte anos — e também o mais caro já vendido pela companhia.
