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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
03/09/2026
5 min

O insumo 'invisível' que disparou 1.400% e pode custar até R$ 2 bi ao agro

Crise global de oferta do enxofre pressiona insumos fosfatados e acende alerta para as próximas safras brasileiras

O insumo 'invisível' que disparou 1.400% e pode custar até R$ 2 bi ao agro

A alta do preço do enxofre, uma matéria-prima essencial para a fabricação de fertilizantes fosfatados, ameaça elevar os custos da agricultura brasileira nas próximas safras. O alerta é do Rabobank, banco holandês especializado no agro, no relatório Semiannual fertilizer outlook, divulgado nesta quarta-feira, 2, e do Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert).

Segundo a entidade, o insumo, que custava cerca de US$ 80 por tonelada em 2024, chegou a aproximadamente US$ 1,2 mil por tonelada no auge da guerra no Irã, uma alta de quase 1.400%. Embora tenha recuado para a faixa de US$ 800 por tonelada, o preço continua elevado e pressiona a cadeia de fertilizantes.

Em meio à queda da oferta global e à disparada dos preços, a indústria calcula que precisará de até R$ 2 bilhões em apoio para garantir a compra do insumo na safra 2026/27, essencial para a fabricação de fertilizantes fosfatados.

O enxofre é um dos elos menos conhecidos da cadeia agrícola. Embora não seja aplicado diretamente em grandes volumes nas lavouras, ele é uma matéria-prima essencial para a produção de ácido sulfúrico, usado na fabricação de fertilizantes fosfatados como MAP e DAP. São esses fertilizantes que entregam fósforo às plantas, nutriente importante para o desenvolvimento das raízes, a formação de energia celular e o ganho de produtividade no campo.

A alta nos preços já começou a ser sentida pelo agronegócio. Cálculos do Rabobank mostram que as exportações globais de enxofre caíram quase 40% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O preço médio do produto chegou a US$ 733 por tonelada, valor 2,7 vezes superior à média de 2025.

Segundo análise do banco, os fosfatos enfrentam atualmente o cenário estrutural mais complexo entre os principais nutrientes, devido à combinação entre restrições de oferta, aumento dos custos de produção e enfraquecimento da demanda.

“O enxofre emergiu como o principal fator de pressão no mercado de fosfatos nos últimos seis meses”, diz o relatório.

A preocupação do setor é que o problema não seja apenas uma alta pontual e continue afetando os custos agrícolas nas próximas safras. Na avaliação do Rabobank, a oferta limitada do insumo pode manter os fertilizantes fosfatados mais caros nos próximos ciclos, com impactos sobre grandes mercados consumidores, como o Brasil.

O país importa aproximadamente 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil. Os fertilizantes fosfatados são aplicados em culturas como soja, milho e cana-de-açúcar, commodities nas quais o país é um dos principais fornecedores globais.

O banco projeta que a acessibilidade dos fosfatos continuará pressionada até pelo menos julho de 2027, último mês contemplado pela previsão do modelo.

O problema está na concentração da oferta global. O Oriente Médio responde por cerca de 43% das exportações mundiais de enxofre. Com as interrupções causadas pela guerra no Irã e as restrições no Estreito de Ormuz, os embarques da região foram reduzidos pela metade.

“Preços recordes de enxofre e oferta restrita estão elevando os custos de produção dos fosfatos, reduzindo a produção e afetando o balanço financeiro de algumas empresas”, diz o banco holandês.

O Brasil aparece entre os mercados mais expostos ao movimento porque é um dos maiores consumidores mundiais de fertilizantes e depende das importações para abastecer sua agricultura.

O aperto já aparece nos dados de comércio. No primeiro semestre de 2026, as importações brasileiras de MAP, um dos principais fertilizantes fosfatados utilizados no país, caíram 24% na comparação anual. Ao mesmo tempo, as compras de TSP cresceram cerca de 40%, ajudando a compensar parte da redução.

O cenário ocorre em um momento de maior cautela dos produtores brasileiros, diante de margens apertadas e da necessidade de reduzir custos. Na safra 2026/27, a margem do produtor de soja deve ser a menor dos últimos 20 anos.

O Rabobank aponta que as dificuldades financeiras no campo devem continuar pressionando as decisões de compra de insumos. No caso brasileiro, o banco afirma que o ciclo de ajuste financeiro dos produtores deve continuar por mais 18 meses, mantendo a redução de custos como uma prioridade.

Após atingir um recorde de 49,1 milhões de toneladas em entregas de fertilizantes em 2025, o Rabobank estima que o Brasil deve consumir 45,1 milhões de toneladas em 2026.

“Ajustes financeiros dos produtores devem continuar por mais 18 meses, mantendo a redução de custos como uma prioridade”, diz o relatório sobre o mercado brasileiro.

Preço dos fertilizantes

Com custos maiores, agricultores podem reduzir a aplicação de fertilizantes fosfatados para preservar margens. O movimento ajuda a controlar despesas no curto prazo, mas pode criar uma pressão futura sobre a produtividade.

O Rabobank estima que a demanda global por fosfatos deve cair 7% em 2026 e outros 5% em 2027, o que representaria três anos consecutivos de retração no consumo.

Segundo o banco, os produtores conseguem utilizar temporariamente reservas de nutrientes existentes no solo, mas essa estratégia não resolve o problema estrutural.

“Os agricultores podem recorrer temporariamente às reservas de nutrientes do solo, mas a demanda deverá se recuperar à medida que os solos esgotados precisarem de reposição”, diz o Rabobank.

A expectativa do mercado é que países e empresas busquem alternativas para reduzir a dependência de poucos fornecedores. Mas a solução não deve ser imediata.

Segundo o Rabobank, a retomada das exportações chinesas de fosfatos poderia aliviar parte da pressão, mas não seria suficiente para reequilibrar completamente o mercado.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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