“O investidor trocou Vale por Petrobras”: a combinação que faz a mineradora perder R$ 24 bilhões enquanto o Ibovespa festeja
A pressão sobre a mineradora contrasta com o avanço da Petrobras e reflete fatores como o recuo do dólar e a alta do petróleo, que encarece o frete para exportar minério

Quem olha para a festa que o Ibovespa tem feito desde que Flávio Bolsonaro saiu líder dos votos para presidente no primeiro turno das eleições — com salto de 10% em outubro e 6% desde o pleito — pode até se deprimir com o pífio desempenho de uma das gigantes do índice, a Vale (VALE3).
A mineradora acumula desvalorização de 8% desde a eleição, o que representa uma perda de R$ 24,64 bilhões em valor de mercado. Em outubro, as ações recuam 5%, reduzindo a capitalização da companhia em R$ 15,13 bilhões.
O movimento pode parecer contraintuitivo, já que um dos grandes responsáveis pelo desempenho do principal índice de ações da B3 é o fluxo gringo, que já descarregou mais de R$ 18,5 bilhões por aqui no mês. Geralmente, boa parte desse total vem por meio de ETFs que replicam o Ibovespa. Assim, gigantes como Vale tenderiam a beneficiar.
Mas no caminho três fatores pressionaram a Vale: o petróleo, o dólar e outra gigante da bolsa, a Petrobras (PETR4).
O que aconteceu com a Vale?
Na teleconferência de resultados do segundo trimestre de 2026, Rogério Nogueira, vice-presidente executivo de Desenvolvimento Comercial da Vale, deu um recado ao mercado: olho no petróleo.
Ele alertava aos investidores que o desempenho da commodity impactaria diretamente os resultados da mineradora, uma vez que influencia o preço do bunker — combustível dos navios de carga que a Vale usa para exportar o minério. Isso aumenta os custos com frete e, por sua vez, os da companhia como um todo, reduzindo sua margem.
Quase três meses depois, o petróleo Brent, usado como padrão internacional e referência nesse caso, segue como estava quando Nogueira fez o aviso: acima dos US$ 100 o barril, graças à guerra persistente que se desenrola no Oriente Médio.
Assim, o mercado já vem precificando que o resultado da Vale no terceiro trimestre deste ano deve vir pressionado por isso, o que prejudica o desempenho da ação.
O Itaú BBA, por exemplo, projeta que o aumento do frete deve pressionar o Ebitda da divisão de ferrosos, estimado pelo Itaú BBA em US$ 2,66 bilhões no terceiro trimestre, queda de 13% na comparação anual.
Segundo o banco, esse custo mais elevado deve mais do que neutralizar a alta de 4% nos embarques, projetados em 82,7 milhões de toneladas.
A companhia divulga o balanço do terceiro trimestre de 2026 no dia 29 de outubro.
“O investidor trocou Petrobras por Vale”
Nesse cenário, enquanto a Vale perde valor, a Petrobras avança. Para Rodrigo Glatt, sócio fundador da GTI Administração de Recursos, a estatal se tornou uma espécie de refúgio diante da alta do petróleo — e chegou a encostar dna marca recorde de R$ 800 bilhões em valor de mercado.
“Aí o mercado trocou Vale por Petrobras. Inclusive, parte do mercado que está comprado na petroleira tem posição vendida [short] em Vale”, diz Glatt.
O analista da Empiricus Research, Ruy Hungria, concorda com a avaliação.
“Entendemos que alguns investidores podem estar usando os papéis como fonte de recursos: vendem a descoberto as ações da mineradora e direcionam o dinheiro para empresas que poderiam se beneficiar mais de uma eventual melhora das perspectivas fiscais”, afirma Hungria.
O que nos leva ao terceiro motivo por trás da desvalorização da Vale: a queda do dólar.
Por que o dólar afeta o desempenho da Vale?
Com a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, o dólar saiu dos R$ 5,20 para os R$ 5, em uma desvalorização de quase 4%. O movimento reflete a percepção de redução do risco fiscal diante da possibilidade de vitória do senador pelo PL do Rio de Janeiro.
A expectativa de maior entrada de capital estrangeiro também passou a ganhar força, empurrando a moeda ainda mais para baixo.
Como a mineradora recebe em dólares por boa parte de suas vendas, a conversão dessa receita em reais rende menos. Embora custos e outras linhas do balanço também sejam afetados pelo câmbio, o efeito pode reduzir a receita e as margens em reais, caso os demais fatores permaneçam constantes.
Assim, a valorização do real pode favorecer empresas mais expostas ao mercado doméstico, mas pesar sobre companhias exportadoras como a Vale.
“Tem uma combinação de desvalorização do dólar, aumento nos custos de frete por conta do petróleo e minério de ferro em queda que devem provocar uma queda dos resultados da Vale na comparação anual”, diz Hungria.
