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Sacre Investimentos
InvestMercadosACS
02/10/2026
8 min

O jogo virou para o Magalu? O que esperar da ação que subiu mais de 50% em um mês

A ação da varejista disparou no Ibovespa em setembro e teve a maior alta mensal desde janeiro de 2023

O jogo virou para o Magalu? O que esperar da ação que subiu mais de 50% em um mês
RESUMO +

As ações da varejista Magazine Luiza (MGLU3) subiram 55,09% em setembro de 2026, lideraram o Ibovespa e tiveram a maior alta mensal desde janeiro de 2023. A parceria com o Mercado Livre, o corte da Selic e o enfraquecimento da Casas Bahia impulsionaram o rali. Mesmo assim, MGLU3 acumulava queda de 14,42% no ano até 1º de outubro.

Dos nove meses de 2026, as ações do Magazine Luiza (MGLU3) acumularam queda em seis. Setembro, porém, destoou do restante do ano: os papéis dispararam 55,09%, lideraram os ganhos do Ibovespa e tiveram a maior alta mensal desde janeiro de 2023, quando avançaram quase 62%.

Avalorização foi acompanhada por uma sequência de notícias favoráveis à varejista. Ao longo do mês, a varejista anunciou uma parceria com o Mercado Livre, lançou seu serviço de delivery de comida em mais de 400 cidades e continuou sendo vista como uma das companhias que podem ganhar espaço com o enfraquecimento da Casas Bahia.

Ao mesmo tempo, o quinto corte consecutivo da taxa básica de juros, a Selic, para 13,75% ao ano, melhorou o ambiente para empresas de varejo mais sensíveis aos juros. A questão que fica para outubro é se o movimento representa uma mudança mais duradoura na percepção do mercado sobre a companhia ou se a ação apenas recuperou parte do terreno perdido.

Isso porque apesar do salto de setembro, MGLU3 ainda acumula queda de 14,42% em 2026 até o pregão de 1º de outubro nesta quinta-feira.

O comportamento ao longo do ano também ajuda a colocar a alta recente em perspectiva: além de setembro, a ação só havia subido em janeiro e julho.

Nos demais meses, acumulou perdas — em maio, chegou a cair 27,34%, justamente quando a companhia divulgou um prejuízo líquido de R$ 33,9 milhões no primeiro trimestre, ante lucro de R$ 11,2 milhões um ano antes. O histórico indica que o rali de setembro acontece depois de meses em que o papel vinha sendo penalizado.

O primeiro empurrão veio do Mercado Livre

O movimento ganhou força logo no início do mês. Em 2 de setembro, o Magalu anunciou que colocaria cerca de 27 mil a 28 mil produtos de seu estoque próprio no marketplace do Mercado Livre, incluindo itens das marcas Magalu, KaBuM! e Época Cosméticos. A ação subiu 16,88% naquele pregão.

Para a varejista, a lógica é usar a audiência do Mercado Livre para chegar a consumidores que hoje não compram em seus canais próprios. A expectativa dos bancos é que cerca de 75% dos compradores dos produtos do Magalu na plataforma sejam novos clientes para a companhia.

O potencial também está na economia de aquisição desses consumidores. O Mercado Livre fornece o tráfego em troca de uma comissão, enquanto o Magalu mantém o estoque e o faturamento. Segundo o Safra, os cerca de R$ 3 bilhões em volume bruto de mercadoria, o GMV, incremental anualizado poderiam adicionar aproximadamente 10% ao crescimento.

Aparceria também tem um componente estratégico para o Mercado Livre, que ganha acesso ao catálogo do Magalu em categorias como eletrodomésticos e outros bens de maior porte, enquanto a varejista passa a utilizar uma plataforma com audiência muito maior.

A ideia de que o Magalu pode crescer sem depender exclusivamente do tráfego de seus próprios canais. Mas o acordo, isoladamente, não resolve os problemas da companhia, de acordo com especialistas.

Juros ajudaram a mudar a fotografia

O segundo motor da alta foi macroeconômico. Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no dia 16 de setembro, o Banco Central reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo. O movimento beneficiou especialmente empresas de varejo mais sensíveis ao custo do dinheiro.

O mercado passou, portanto, a combinar uma melhora nas perspectivas para os juros com notícias específicas do Magalu.

Para Ian Lopes, economista da Valor Investimentos,a parceria com o Mercado Livre foi recebida positivamente justamente porque aparece dentro de um processo mais amplo de tentativa de recuperação da companhia.

"O mercado viu com olhos muito bons o acordo que teve entre a Magazine Luiza e o Mercado Livre. Isso fez a ação da empresa subir bastante no último mês, mostrando um processo de reestruturação que a gente vê a empresa tentando fazer para se recuperar frente a esse cenário desafiador", afirma.

Segundo Lopes, a situação da concorrência também entrou nessa conta. Arecuperação judicial da Casas Bahia, que envolve R$ 17,3 bilhões em passivos, abriu espaço para que investidores passassem a enxergar o Magazine Luiza como um possível beneficiário da perda de participação da rival.

"A retirada de capital por parte dos investidores da Casas Bahia, que é uma das principais concorrentes por conta dessa situação complicada do setor de varejo, fez o mercado apostar mais em Magazine Luiza do que nas demais concorrentes", diz Lopes.

A percepção não ficou restrita ao mês de setembro. Em agosto, quando a Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial, o JP Morgan avaliou que o fechamento de lojas e a reestruturação financeira da companhia poderiam gerar ganhos de participação de mercado para o Magalu em categorias como eletrodomésticos e eletrônicos.

Mas o mesmo cenário que cria oportunidade também expõe o tamanho do desafio. A recuperação judicial da Casas Bahia ocorreu em um ambiente de juros ainda elevados, crédito restrito e pressão sobre consumo e capital de giro, problemas que também afetam o Magalu.

O mercado está comprando uma recuperação?

Em meio a esse cenário ainda de pressão, um gestor de ações ouvido pela EXAME avalia que o movimento foi muito mais sustentado por expectativas macroeconômicas e fatores competitivos do que por uma transformação comprovada na operação da companhia. "É algo muito amparado aí numa expectativa de melhora do fiscal, redução de juros", afirma.

Na visão desse especialista, a parceria com outros marketplaces, embora positiva, ainda não é suficiente para caracterizar uma mudança estrutural no negócio. "É muito pouco embasado em uma melhora estrutural do negócio apenas porque fizeram parcerias com outros marketplace", diz.

Na avaliação do gestor, o enfraquecimento da Casas Bahia também ajudou a redirecionar o fluxo de investidores para o Magalu. "Acho que teve um fluxo ali porque a Casas Bahia está deteriorada, então teve um fluxo que a Magazine Luiza poderia ganhar um pouco de market share. Acho que foi essa combinação".

A leitura ajuda a explicar por que a disparada da ação não necessariamente significa que o mercado passou a considerar resolvidosos problemas da companhia. O gestor afirma que acompanha o Magalu, mas não mantém posição na ação. Ele pondera que a empresa perdeu relevância no varejo ao longo dos últimos anos e teve dificuldades para combinar a expansão de seus negócios com logística, custos e recorrência.

"Ela não conseguiu sustentar o tamanho dela de operação. Não conseguiu combinar a gestão de custos e despesas com o tamanho que ela queria alcançar", afirma. Ao mesmo tempo, ressalta que existem ativos que considera relevantes dentro do grupo, como a Netshoes. "A Magazine Luiza tem seus méritos com a Netshoes, que eu acho que é um ativo lá dentro que tem um valor oculto, uma operação que funciona".

O que mudou — e o que ainda não mudou

A estratégia da companhia em setembro também foi além do Mercado Livre. O Magalu lançou o Magalu Delivery em mais de 400 cidades, reunindo pedidos de refeições, supermercado, farmácia e conveniência dentro de seu aplicativo. A operação é conduzida pelo aiqfome, adquirido pelo grupo em 2020, e já conta com cerca de 23 mil restaurantes.

A tese é atacar uma das limitações do varejo tradicional: a baixa frequência de compra. Segundo Igor Remigio, CEO do aiqfome, um consumidor ativo do Magalu faz cerca de três pedidos por ano, enquanto no aplicativo de delivery são 3,5 pedidos por mês.

A própria S&P também reafirmou o rating da companhia em brAA-, com perspectiva estável, destacando a expectativa de melhora operacional e redução da alavancagem. A agência também projetou recuperação das vendas e das margens, apoiada pelas parcerias no comércio eletrônico e por um ambiente competitivo mais favorável.

Mas a fotografia financeira ainda exige cautela. A gigante varejista encerrou o 2° trimestre com prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões, revertendo o lucro de R$ 1,8 milhão registrado um ano antes, e dando continuidade ao resultado líquido negativo dos três primeiros meses do ano, quando a companhia também somou prejuízo de R$ 33,9 milhões.

A companhia também continua exposta ao custo da dívida. O JP Morgan projetava alavancagem elevada e apontava cerca de R$ 2,2 bilhões em vencimentos entre 2026 e 2027, o equivalente a aproximadamente 45% da dívida bruta. E é essa diferença entre a cotação e os fundamentos que coloca a disparada de setembro em perspectiva.

AutorClara Assunção
FonteExame
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