Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
29/07/2026
7 min

O marketplace que fatura R$ 10 milhões com consultas de tarô 24 horas por dia

Com 200 especialistas e mais de 10 mil clientes ativos, o Astrocentro transformou consultas esotéricas em um marketplace digital

O marketplace que fatura R$ 10 milhões com consultas de tarô 24 horas por dia

Na vitrine digital do Astrocentro, quem ocupa o topo do "Top 10 da semana" dos especialistas esotéricos é um médium e tarólogo especializado em relacionamentos amorosos, com mais de 43 mil consultas realizadas. Um selo verde no perfil avisa: ele está online agora. A consulta por chat custa R$ 6,99 o minuto; por telefone, R$ 7,99. Quem prefere não conversar pode encomendar um "e-mail simples e objetivo" por R$ 188 ou um estudo completo, por R$ 638.

A cena se repete pelos dez perfis do ranking. Tarólogas, ciganas, médiuns, oraculistas, todos a um clique de distância. É a promessa estampada no alto da página inicial: "consultas de Tarot e outros Oráculos 24h por dia".

Por trás da vitrine está o Astrocentro, marketplace que transformou um mercado historicamente informal em uma operação digital com faturamento de R$ 10 milhões por ano. Fundada em 2012, a plataforma já realizou mais de 1 milhão de consultas online, atendeu mais de 90 mil clientes e reúne cerca de 200 especialistas ativos, disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana.

"As pessoas entendem que se trata de esotéricos, de oraculistas, de tarólogos. Mas o que elas estão buscando, na verdade, não é um produto nem um serviço. Elas estão procurando alívio, acolhimento e direcionamento", afirma Eliane Ferrari, CEO do Astrocentro.

A régua de atendimento, diz Ferrari, vai "desde quem quer um pronto-socorro até uma consulta bem completa".

Como o Astrocentro se tornou uma empresa brasileira

O Astrocentro nasceu como uma aposta da francesa Wengo, marketplace europeu  presente em mais de dez países, na força do segmento esotérico no Brasil. Para montar a operação, a companhia enviou ao país o francês Guirec Courbon, contratado como executivo responsável pela gestão local. Ele trouxe Eliane Ferrari, com passagens por Nestlé e Johnson & Johnson, para estruturar a área comercial.

Em 2015, a matriz decidiu interromper os investimentos na operação brasileira. Courbon assumiu o controle da companhia, Eliane entrou na sociedade e o Astrocentro passou a operar, nas palavras da CEO, como "uma empresa 100% brasileira".

Hoje, Courbon integra o conselho, enquanto Eliane lidera o dia a dia do negócio. A empresa tem uma equipe de 15 colaboradores, que trabalha em regime de home office, além de um escritório na rua Bela Cintra, em São Paulo.

Segundo a executiva, a plataforma mudou a forma como parte dos profissionais encontrava clientes.

"Os esotéricos anunciavam em panfletos, no poste, em jornais e revistas. A gente foi meio que inovador nesse processo, com atendimento online e mais de 200 especialistas conectados", afirma Ferrari.

Como funciona o marketplace do Astrocentro

Os cerca de 200 especialistas não são funcionários. Eles utilizam uma sala virtual dentro da plataforma, definem o próprio preço por minuto e repassam ao Astrocentro uma comissão proporcional ao faturamento.

Os valores partem de R$ 4,49 por minuto, com ofertas de R$ 2,18 para novos clientes. A renda dos profissionais varia conforme o volume de atendimentos e o preço cobrado.

"Temis especialistas que ganham R$ 200 por mês e especialista que ganham R$ 20 mil por mês. Depende da meta pessoal", diz Ferrari.

Não há necessidade de agendamento. O cliente entra no site, verifica quais profissionais estão disponíveis e inicia a conversa por voz ou chat.

"Se às três horas da manhã bater uma ansiedade, você consegue falar com alguém", diz a CEO.

A disponibilidade atrai o cliente. A recorrência ajuda a sustentar a operação. Segundo Eliane, há usuários que fazem consultas todos os dias e mantêm esse hábito há anos. A primeira cliente da plataforma, cadastrada em 2012, continua ativa.

Tarô, baralho cigano e cartomancia estão entre os oráculos mais procurados. Os especialistas podem reunir diferentes formações e práticas, mas o tarô está presente nos atendimentos oferecidos pela plataforma.

Como o Astrocentro seleciona os especialistas

A entrada dos especialistas esotéricos no marketplace passa por um processo de seleção. O candidato preenche uma ficha com qualificações, especialidades e tempo de experiência. A empresa faz a primeira triagem de acordo com a demanda da plataforma naquele momento.

Quem avança, conversa com uma recrutadora e passa por uma consulta-teste. Nessa etapa, um profissional experiente assume o papel de cliente para avaliar a comunicação e o domínio da especialidade apresentada.

Depois da aprovação, uma equipe responsável pelo acompanhamento e pelo resultado dos profissionais, oferece treinamento e analisa as avaliações deixadas pelos clientes, publicadas no próprio site.

A curadoria busca reduzir um dos riscos do modelo e não conectar o usuário a um profissional sem experiência ou incapaz de conduzir o atendimento. "O mercado é conhecido pelas indicações, a confiança influencia a recorrência dos clientes", explica Ferrari.

O público do Astrocentro é formado principalmente por mulheres. Elas representam 80% da base, concentrada entre 25 e 55 anos.

Amor e trabalho são os assuntos mais recorrentes. No segundo grupo, entram dúvidas sobre carreira, dinheiro e decisões profissionais.

Um mercado mais disputado

A pandemia acelerou a migração dos atendimentos para o digital. Agora, o desafio é encontrar uma nova frente de expansão depois do salto provocado pelo isolamento social.

Uma das apostas é a Astrid, assistente esotérica baseada em inteligência artificial que está disponível no site desde o fim de 2025. A ferramenta tira a carta do dia, apresenta previsões por signo e ajuda o usuário a escolher um especialista.

A solução busca resolver um problema do próprio marketplace. Diante de cerca de 200 profissionais e diferentes especialidades, novos clientes podem não saber por onde começar.

A CEO, porém, delimita o papel da tecnologia, inclusive diante do uso de chatbots genéricos como conselheiros.

"A inteligência artificial acolhe, e as pessoas procuram acolhimento. Mas ela não é humana, não tem o poder de análise crítica de um ser humano e pode alucinar e te direcionar para o buraco", diz Ferrari.

A estratégia é usar a IA para orientar o cliente e facilitar sua entrada na plataforma. A consulta continua sendo feita por uma pessoa.

O movimento também responde a uma concorrência maior. Depois do pioneirismo do Astrocentro, profissionais passaram a atender diretamente por TikTok, Instagram, WhatsApp e outras plataformas, sem depender de um marketplace.

No Brasil, os dados sobre esse mercado são imprecisos, mas há tração pelas buscas por leituras de tarô e mapa astral.

Nos Estados Unidos, o exemplo mais conhecido é o Co-Star, aplicativo que se tornou febre entre os mais jovens e soma mais de 30 milhões de usuários, segundo reportagem da The Economist. O modelo de monetização de US$ 2,99 dá direito a um pacote de cinco perguntas ao app. Por trás das respostas, a empresa combina dados astronômicos da Nasa com inteligência artificial e a curadoria de astrólogos humanos para gerar leituras personalizadas do mapa de cada usuário. 

Para conquistar e reter usuários, o Astrocentro combina redes sociais, anúncios, parcerias e participação em eventos. Entre as ações estão a Mystic Fair, feira voltada ao universo místico, e o patrocínio ao Miss Universo São Paulo.

Eliane conhece de perto o público que a empresa tenta alcançar. "Eu sou uma mulher empresária, de 46 anos, que tem família, casa e empresa para cuidar. Eu sou o meu próprio público", afirma.

Ela também se consulta quando um novo especialista entra na plataforma. Parte do hábito funciona como controle de qualidade. Parte vem da busca por direcionamento que move os 10 mil clientes ativos da plataforma. Ferrari já perdeu a conta de quantas vezes se consultou.

AutorIsabela Rovaroto
FonteExame
Distribuído por