O mercado de abacate de US$ 3 bilhões que virou problema de segurança no México
Violência no estado de Michoacán, no oeste do México, ameaça produção e exportação da fruta, um produto importante na relação bilateral com os EUA

O governo do México enviou mais de 1.500 soldados ao estado de Michoacán após a suspensão das exportações de abacate para os Estados Unidos por motivos de segurança.
A decisão foi anunciada após a embaixada americana interromper suas atividades na região, citando uma “ameaça aos interesses americanos”, o que suscitou preocupações quanto à influência do crime organizado no principal polo produtor da fruta no México, importante para a relação bilateral com os EUA.
Além disso, a interrupção afeta o trabalho dos inspetores responsáveis por inspecionar e certificar a qualidade das exportações destinadas ao mercado americano.
O México é o maior produtor mundial de abacate e exportou mais de 1 milhão de toneladas para os Estados Unidos em 2025.
As vendas renderam mais de US$ 3 bilhões, dos quais aproximadamente dois terços da produção exportada provêm de Michoacán. A dependência do mercado americano torna a estabilidade da região essencial para a economia local e nacional.
Em resposta, o Ministério da Defesa do México anunciou o envio de 1.557 militares do Exército e da Guarda Nacional.
As forças serão distribuídas em diferentes municípios para reforçar a segurança nas áreas de cultivo, empacotamento e transporte. O objetivo é conter a extorsão aos produtores e garantir a continuidade da cadeia produtiva.
Esta é a terceira vez desde 2022 que os Estados Unidos retiram seus inspetores da região devido à violência ligada ao crime organizado.
As suspensões anteriores duraram cerca de uma semana e provocaram alta nos preços no atacado. Como a oferta alternativa é limitada, o mercado americano sente rapidamente os efeitos de qualquer interrupção em Michoacán.
Repercussões
A presidente do México, Claudia Sheinbaum. (AFP/AFP)
O episódio representa um desafio político para a presidente Claudia Sheinbaum, que assumiu o cargo prometendo uma postura mais firme contra os cartéis.
O governo tem destacado a queda das taxas nacionais de homicídio como um sinal de melhora na segurança pública. A nova crise, porém, mostra que a violência continua a afetar setores econômicos estratégicos.
Após se reunir com produtores de abacate, Sheinbaum afirmou que está elaborando um plano para ampliar a presença das forças de segurança nas zonas de produção e de empacotamento. Segundo ela, algumas áreas ainda tinham cobertura insuficiente da Guarda Nacional. A presidente disse que pretende fortalecer, de forma permanente, a proteção da atividade econômica.
Sheinbaum também informou que solicitou uma reunião com o governo dos Estados Unidos para discutir o retorno dos inspetores americanos. Caso isso não seja possível no curto prazo, o México estuda a substituição temporária desses agentes por inspetores do próprio governo mexicano. A presidente declarou esperar que as operações sejam retomadas rapidamente.
A Associação Mexicana do Abacate Hass afirmou, em carta enviada aos seus associados, que não prevê impacto significativo no abastecimento do mercado durante esta pausa operacional. Mesmo assim, analistas acompanham o risco de pressão sobre os preços caso a suspensão se prolongue. Califórnia, Peru e o estado mexicano de Jalisco têm capacidade limitada para compensar uma interrupção prolongada.
O setor do abacate em Michoacán está profundamente inserido em territórios disputados por organizações criminosas.
Relatos de extorsão, tomada de terras, sequestros e assassinatos de trabalhadores e empresários são frequentes na região. Embora os homicídios tenham caído desde o pico registrado em 2021, crimes como extorsão e roubo de veículos continuam muito acima da média nacional.
