O mercado por Elas: A nova rota do imobiliário internacional aponta para o leste
Em meio à instabilidade política, brasileiros trocam a lógica do imóvel de verão pela primeira residência e fazem da segurança institucional uruguaia o novo critério de decisão

Há um movimento silencioso remodelando o mapa de onde os brasileiros e boa parte da América Latina, escolhem colocar seu patrimônio, sua família e seus próximos anos de vida. Ele não passa por Lisboa, nem por Miami. Passa, cada vez com mais força, por um pedaço de litoral uruguaio que carrega o nome no destino: Punta del Este. A rota mudou de direção. Aponta para o leste.
Por muito tempo, essa rota foi sazonal. As casas abriam em dezembro e fechavam no fim de janeiro, num ciclo que se repetia ano após ano. Hoje, o padrão é outro. "Estamos vendo uma mudança clara: cada vez mais pessoas buscam passar períodos longos em Punta del Este, de três ou quatro meses, e muitas diretamente consideram a possibilidade de viver aqui o ano todo", conta Tati Chiarino, radicada em Punta del Este desde 2022, é hoje Diretora de Vendas da Cipriani Residences Punta del Este e broker da Market del Este.
Fernanda Rocha, fez parte da área comercial do Edifício Acqua e hoje lidera a área comercial do Grupo Château, com foco em clientes internacionais, principalmente brasileiros, descreve o mesmo fenômeno com outras palavras: "Deixou de ser apenas um destino de verão para se tornar, cada vez mais, uma primeira residência."
Num momento de instabilidade política, é natural perguntar: o assunto aparece nas negociações?
Para as duas, a resposta é a mesma e revela algo sobre o tipo de comprador que está refazendo essa rota. "O cliente que chega ao Uruguai normalmente já vem muito informado. Muitas vezes chega recomendado por amigos, familiares ou assessores que conhecem o país", explica Tati. Fernanda acrescenta uma camada mais pessoal: "Não vemos apenas clientes. Vemos pessoas que muitas vezes estão tomando uma decisão enorme para suas vidas e que depositam em Punta del Este e no Uruguai algo muito importante: sua confiança."
E as duas fazem questão de separar dois planos. Um é o político: que nenhuma das duas usa como argumento comercial. "Não vendemos política", diz Fernanda. "Essa confiança não está associada a um partido. É uma construção do país ao longo de muitos anos." O outro plano é o institucional: previsibilidade jurídica, continuidade, regras que não mudam a cada eleição. É esse segundo plano que os clientes já trazem pronto na cabeça quando desembarcam.
Perguntadas sobre o que pesa além da segurança, as duas convergem para uma ideia difícil de colocar numa planilha: tempo e qualidade de vida. "O Uruguai oferece algo que hoje tem muitíssimo valor: oferece tempo. Tempo para viver, para estar com os filhos, para caminhar, para olhar o mar, para se encontrar com amigos", resume Fernanda. Tati traduz a mesma equação em termos mais práticos: "Punta del Este tem praias, natureza, bairros residenciais e privados, espaços verdes, boa gastronomia e uma comunidade acostumada a receber pessoas de diferentes países."
Ambas citam também os fatores mais objetivos — residência, tributação, câmbio — mas fazem questão de dizer que isso, sozinho, não fecha negócio. Como resume Fernanda: "Hoje há outros países da América Latina que podem oferecer benefícios fiscais muito interessantes. Mas o Uruguai oferece algo muito mais difícil de colocar numa planilha: qualidade de vida."
Os brasileiros redesenharam o mapa
Historicamente, os argentinos foram — e continuam sendo — a presença estrangeira mais forte em Punta del Este. Mas as duas apontam o mesmo fenômeno recente: a ascensão acelerada do público brasileiro como protagonista dessa rota.
"Para muitos brasileiros, Punta del Este começa a aparecer não apenas como destino turístico, mas também como alternativa para investir, ter uma segunda residência ou projetar uma futura radicação", diz Tati.
Fernanda enxerga o mesmo movimento de dentro dos empreendimentos que comercializa: "Há aproximadamente dez anos, e com muito mais força nos últimos anos, os brasileiros adotaram Punta del Este como residência, como lugar para fazer negócios, instalar empresas e, para muitos, como seu lugar no mundo. Punta entendeu o brasileiro, e o brasileiro também entendeu Punta."
Uma inversão interessante que as duas apontam: a ordem clássica da decisão mudou.
Antes, comprava-se para investir; hoje, cada vez mais gente compra primeiro para morar. "Uma vez que têm um primeiro pé no Uruguai e conhecem melhor o país, muitos começam também a investir em tijolo", diz Fernanda. "Primeiro confiam para viver, e depois essa confiança muitas vezes se transforma também em investimento." Tati observa o reflexo disso no tipo de imóvel procurado: quem vem para morar busca casas com jardim e espaço; quem investe busca apartamentos com serviços e administração centralizada, inclusive para o mercado de aluguel de temporada, ainda muito aquecido na cidade.
Cada uma traz um caso recente que resume o momento. Tati fechou neste mês a venda de três apartamentos da Cipriani Residences a um cliente brasileiro cujos investimentos imobiliários estavam concentrados em Miami, até conhecer Punta del Este pela primeira vez em fevereiro.
Fernanda comercializa hoje dois empreendimentos do Grupo Château: o Fendi Château, já consolidado e com poucas unidades restantes, e o novo Château Royale, com cerca de 50% do projeto vendido ainda na planta.
Sobre a marca Fendi especificamente, Fernanda é enfática: "Fendi Château não apenas se vê, se vive." Para ela, a presença de marcas internacionais de luxo funciona menos como chamariz e mais como termômetro da maturidade do próprio mercado: "Quando uma marca global de luxo identifica uma oportunidade em um destino, é porque existe uma demanda e um público que podem sustentar uma proposta desse nível."
Toda mudança de rota tem um motivo que não cabe inteiro numa planilha. Fernanda resume o espírito das duas conversas com uma frase: "Por trás de cada investimento há uma pessoa. Por trás de cada apartamento há uma família." E talvez seja por isso que, quando o mundo pede previsibilidade, cada vez mais gente esteja olhando para a rota do leste.
