O mercado teme o fim do “efeito Ozempic” com guerra nos preços. Por que o CEO da RD Saúde (RADL3) não se preocupa tanto?
CEO da RD Saúde detalha por que acredita que a guerra de preços da semaglutida não compromete a tese de crescimento dos medicamentos para obesidade e diabetes; empresa também revela nova aposta

O mercado passou as últimas semanas tentando entender se o "efeito Ozempic" havia acabado para as redes de farmácias, em especial a RD Saúde (RADL3). Nesta quarta-feira (5), o CEO da empresa, Renato Raduan, resolveu endereçar esse temor durante a teleconferência de resultados do segundo trimestre de 2026. Para ele, o pessimismo do mercado sobre isso está exagerado.
A dúvida surgiu depois que a queda da patente da semaglutida, princípio ativo por trás de várias destas "canetas emagrecedoras", abriu caminho para uma guerra de preços entre os fabricantes, levantando o receio de que os medicamentos para emagrecimento deixassem de ser um dos motores de crescimento das varejistas do setor. Entenda mais detalhes nesta reportagem do Seu Dinheiro.
"Honestamente, nós que estamos fazendo a gestão do negócio continuamente não temos essa apreensão. Nem o mais pessimista pressupõe que vai haver destruição de valor nesse mercado para o nosso futuro", afirmou o executivo durante a teleconferência.
RD Saúde foca em categoria "blindada" da guerra nos preços
Raduan afirmou que a exposição da RD Saúde à semaglutida é menor do que muitos investidores imaginam.
Hoje, os GLP-1, classe de medicamentos usados para tratar a obesidade, representam cerca de 12% da receita da companhia, mas apenas 3,5% disso vêm da semaglutida. Os outros 8,5% correspondem à tirzepatida, o princípio ativo por trás do Monajuro — uma versão mais potente e premium desse tipo de remédio.
"O mercado está dando pouca atenção à tirzepatida, cuja patente ainda demora para cair e está completamente blindada dessa briga com os similares. O desafio nesse sentido é atrair o consumidor que hoje compra no mercado paralelo, por meio da importação ilegal, ampliando o acesso para que essa demanda migre para o mercado formal", disse Ruadan.
O executivo também afirmou que a companhia tem observado pouca migração de pacientes que usam o Mounjaro para versões mais baratas da semaglutida, como o Ozivy, primeiro medicamento nacional desenvolvido pela EMS com esse princípio ativo.
O aumento das vendas está compensando a queda dos preços
Outra tese que o mercado tenta responder é se a maior demanda pelos medicamentos, diante de um aumento de oferta de opções mais baratas, conseguirá compensar a pressão causada pela guerra dos preços na semaglutida.
Em outras palavras, questiona-se se o volume compensará a pressão nas margens. Para o CEO da RD Saúde, sim — e esse movimento já está acontecendo.
Segundo o executivo, considerando toda a categoria de GLP-1, o preço médio caiu 7% no segundo trimestre. Ainda assim, o aumento da demanda mais do que compensou esse movimento, fazendo a receita bruta crescer 8% na comparação com o primeiro trimestre.
Na semaglutida, a pressão foi bem mais intensa. Após a entrada dos similares, o preço médio recuou 22%, mas a receita permaneceu estável graças ao forte aumento do volume vendido.
"O preço médio caiu 22%, mas foi integralmente compensado pela elasticidade de volume, o que leva a receita bruta para o mesmo patamar e a uma margem bruta muito similar, por enquanto", afirmou.
Já na tirzepatida, o cenário continua mais favorável. O preço médio caiu apenas 1%, enquanto a receita da categoria avançou 12% entre o primeiro e o segundo trimestres, refletindo a menor pressão competitiva e a demanda ainda crescente pela molécula.
Para a RD Saúde, o céu é o limite
Hoje, a categoria movimenta cerca de 1 milhão de unidades por mês no Brasil, mas o potencial de crescimento é muito maior.
A companhia estima que existam 95,9 milhões de brasileiros com obesidade ou sobrepeso, além de 38,1 milhões com hipertensão, 8,4 milhões com doenças cardiovasculares e 7,9 milhões com diabetes — públicos que podem se beneficiar desse tipo de tratamento.
O CEO também argumentou que a expansão da categoria não dependerá apenas da queda de preços. Segundo ele, o mercado deverá ganhar novas frentes de crescimento com a chegada de novos princípios ativos, como a retatrutida e a orforglipron, além de novas apresentações, como medicamentos orais e canetas de longa duração.
A expectativa da companhia é que o avanço dos similares e a ampliação da oferta tornem os tratamentos mais acessíveis, ampliando a base de consumidores. "A quantidade de alavancas e de crescimento que a gente projeta para o GLP-1 como um todo é muito grande", afirmou Raduan.
A nova aposta da RD Saúde
A RD Saúde também apresentou ao mercado uma nova frente de crescimento que vai além da abertura de lojas.
A companhia inaugurou sua primeira Raia Conceito, um formato que busca transformar a farmácia em um espaço de experiência e consultoria, reforçando a estratégia de diferenciação em um momento de competição crescente com plataformas digitais.
A primeira unidade foi aberta na região da Faria Lima, em São Paulo (SP), e traz um sortimento muito mais amplo do que o das lojas tradicionais.
O espaço adiciona cerca de 50 novas marcas e 2.500 produtos, com destaque para beleza premium, suplementos e equipamentos voltados ao acompanhamento da saúde.
Segundo o CEO da companhia, o principal diferencial não está apenas no portfólio, mas no atendimento. A proposta é oferecer consultoria personalizada por farmacêuticos e especialistas em beleza, criando uma experiência física que o comércio eletrônico não consegue reproduzir.
O executivo classificou o projeto como um marco para a empresa e afirmou que o novo modelo deve contribuir para acelerar o ganho de participação de mercado e fortalecer a posição competitiva da RD Saúde no longo prazo.
Raduan afirmou que essa ideia nasceu de uma crise recente que a RD enfrentou, no segmento de Higiene e Cuidados Pessoais (HPC), com avanço de gigantes como Amazon e Mercado Livre. Entenda detalhes nesta reportagem do Seu Dinheiro.
"A gente escutou muito os nossos clientes e percebeu que precisava oferecer uma experiência que o digital não consegue entregar. A cereja do bolo é o atendimento, com farmacêuticos e consultores preparados para orientar o cliente", disse o CEO.
