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Sacre Investimentos
Inteligência ArtificialBDR
05/08/2026
7 min

O mercado trilionário dos robôs humanoides que escancara o atraso do Brasil

Mercado pode movimentar US$ 5 trilhões até 2050, segundo o Morgan Stanley. A China concentra 85% das implantações, e o Brasil não tem uma única fabricante nacional

O mercado trilionário dos robôs humanoides que escancara o atraso do Brasil

Durante décadas, os robôs humanoides faziam parte apenas do imaginário da ficção científica. Agora, começam a disputar espaço no mundo real.

Impulsionados pelos avanços da inteligência artificial (IA), os humanoides deixaram de ser protótipos de laboratório para se tornar uma das maiores apostas da indústria global, em um mercado que pode movimentar US$ 5 trilhões até 2050, segundo o Morgan Stanley. O Brasil, ainda um coadjuvante nessa corrida, começará a receber os primeiros competidores já em 2026

A AiMOGA Robotics, divisão de robótica da Chery International, começará a operar no país no último trimestre deste ano com dois produtos: Mornine, a humanoide para concessionárias, e Argos, cão robótico que será vendido ao público. É a primeira vez que o produto estará disponível para compra direta no país — e os robôs já foram homologados pela Anatel. A informação foi divulgada com exclusividade à EXAME.

O momento não poderia ser mais oportuno para a empresa, já que o mercado dos robôs humanoides está em ampla expansão e desponta como a próxima aposta no setor de IA.

Foram cerca de 15 mil humanoides embarcados no mundo em 2025, segundo a consultoria Omdia. Para este ano, os embarques globais devem superar 50 mil unidades, mais do que o setor entregou em todos os anos anteriores somados.

O braço curto do Brasil

No Brasil, a expectativa é de que o setor de robôs humanoides atinja uma receita de US$ 753,1 milhões até 2030, segundo a consultoria Grand View Horizon, com uma taxa de crescimento anual prevista em 40,4% — liderando a América Latina.

Apesar do potencial, o país está atrasado. Não existe por aqui uma empresa focada na produção e comercialização de robôs humanoides — o que há é uma indústria de integração, formada por companhias que projetam e operam sistemas montados com equipamento importado.

A base sobre a qual esse mercado teria de crescer é estreita. São cerca de 20 mil robôs industriais em operação, concentrados no Sudeste e no Sul, com densidade robótica inferior a 50 unidades por 10 mil trabalhadores.

A comparação com o resto do mundo explica o tamanho do problema. A média global é de 141 robôs por 10 mil trabalhadores, quase o triplo da brasileira.

A Europa Ocidental chegou a 267 unidades em 2024, a América do Norte a 204 e a Ásia a 131, segundo o relatório World Robotics 2025, da Federação Internacional de Robótica (IFR, na sigla em inglês). No topo da lista, a Coreia do Sul opera com 1.220 robôs por 10 mil trabalhadores — 24 vezes mais que o Brasil.

O parque instalado segue a mesma proporção. O mundo tem mais de 4,6 milhões de robôs industriais em operação, e só a China concentra cerca de 2 milhões, 4,5 vezes o volume do Japão, que aparece em segundo. Os 20 mil aparelhos brasileiros equivalem a 1% do estoque chinês.

A distância também cresce em ritmo anual. Foram 542 mil robôs instalados no mundo em 2024, quarto ano consecutivo acima de meio milhão de unidades. A Ásia respondeu por 74% desse total, com a China sozinha instalando 295 mil aparelhos — mais de 14 vezes todo o parque brasileiro acumulado.

As barreiras apontadas por especialistas do setor são conhecidas: custo inicial de implementação, necessidade de requalificação de mão de obra e infraestrutura de conectividade ainda irregular em várias regiões.

Há demanda, porém, nos setores que puxariam a adoção. A indústria automotiva responde por cerca de um quarto das instalações globais de robôs, e é justamente onde o Brasil tem parque industrial relevante — o mesmo vale para alimentos e logística.

A China faz 'seus corres'

Unitree: empresa deve ser a 1ª de robôs humanoides a fazer IPO (Marc Tawil)

Se o Brasil ficou na retaguarda da corrida, globalmente, a China disparou. No ano passado, o país representou 85% das implantações de robôs humanoides, de acordo com o banco britânico Barclays.

"Está ficando evidente que o apoio nacional à 'IA incorporada' pode ser muito maior na China do que em qualquer outra nação, impulsionando a inovação contínua e a formação de capital", disse Sheng Zhong, chefe de pesquisa industrial do Morgan Stanley, em relatório divulgado no ano passado. "Em nossa opinião, a liderança da China em robótica com IA pode precisar ser ampliada antes que os concorrentes, incluindo os EUA, prestem mais atenção."

Duas empresas sustentam boa parte desse volume. A Unitree despachou cerca de 5,5 mil humanoides em 2025, mais de um terço de tudo o que o mundo embarcou no ano, segundo a Omdia, e a AgiBot vendeu outras 5,1 mil unidades no mesmo período. Atrás delas, mais de 150 fabricantes chinesas disputam o mesmo mercado.

O impulso não vem só do setor privado. Pequim determinou que 10 mil robôs humanoides estejam em operação em fábricas, hospitais e serviços de resposta a desastres até 31 de dezembro deste ano — uma ordem de implantação, não uma meta indicativa. Diante disso, a Unitree projeta 20 mil unidades em 2026, e amontadora BYD estabeleceu o mesmo número, partindo de uma base de apenas 1.500 robôs no ano passado.

O mercado financeiro acompanhou a revisão. O Morgan Stanley dobrou a projeção de vendas chinesas para este ano, de 14 mil para 28 mil unidades.

A prova do apetite dos investidores chega em breve, quando a Unitree abre subscrição para sua estreia na bolsa de Xangai, com avaliação base de 42 bilhões de yuans. Será a primeira fabricante lucrativa de humanoides a listar ações — a companhia registrou receita de US$ 235 milhões em 2025, com margem bruta de 60%, embora o lucro líquido tenha caído 52% no primeiro trimestre deste ano.

Foi nesse ambiente que a AiMOGA passou a vender diretamente ao consumidor chinês, em abril, pela loja oficial no JD.com, segunda maior plataforma de comércio eletrônico do país. A humanoide Mornine M1 é listada por 285.800 yuans, cerca de US$ 41.800, e o cão robótico Argos X1 sai por 15.800 yuans, aproximadamente US$ 2.300.

A escala já existe para sustentar a expansão. Até o fim de 2025, a companhia havia entregado 300 humanoides e mil cães robóticos em mais de 30 países, e só a linha de quadrúpedes tinha capacidade instalada para 15 mil unidades por ano.

Os EUA fecham a porta

SHANGHAI, CHINA - JULY 28 2025: An Optimus humanoid exhibited by Tesla at the World Artificial Intelligence Conference in Shanghai, China Monday, July 28, 2025. The robot is scheduled to be available to customers this year. (Photo credit should read LONG WEI / Feature China/Future Publishing via Getty Images)

Optimus: robô é o humanoide da Tesla, de Musk (LONG WEI / Feature China/Future Publishing/Getty Images)

Do outro lado do mundo, nos Estados Unidos, a distância é grande. Tesla, Figure AI e Agility Robotics entregaram cerca de 150 unidades cada em 2025, segundo a Omdia — somadas, as três não chegam a 10% do que a Unitree despachou sozinha.

O dinheiro, porém, seguiu caminho oposto ao da produção. A Figure AI captou mais de US$ 1 bilhão em setembro de 2025 e alcançou avaliação de US$ 39 bilhões, sem receita relevante — quase sete vezes o valor com que a líder chinesa pretende estrear em bolsa.

A Tesla apostou na escala antes de resolver a fabricação. A companhia converteu a antiga linha do Model S/X, na fábrica de Fremont, para produzir o Optimus, com capacidade projetada de 1 milhão de unidades por ano. Mas Elon Musk afirmou que a produção inicial será extremamente lenta, pela ausência de cadeia de fornecimento madura para cerca de 10 mil componentes inteiramente novos. A produção em massa só é esperada quando a fábrica do Texas entrar em operação, em 2027.

A Agility Robotics avançou por outro caminho ao construir uma unidade com capacidade para 10 mil robôs Digit por ano e anunciou acordo de US$ 2,5 bilhões para abrir capital na Nasdaq.

Enquanto a indústria americana tenta acelerar, Washington escolheu ganhar tempo pela regulação. No fim de julho, a FCC, agência que regula telecomunicações nos Estados Unidos, incluiu robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior na lista de produtos considerados ameaça à segurança nacional, o que barra novos modelos de obter a autorização necessária para venda no país.

O escopo é amplo e alcança robôs móveis terrestres acima de 2 quilos que combinem sensores, conectividade e software de controle. O documento não cita empresas, mas um grupo interagências convocado pela Casa Branca apontou risco de monitoramento de cidadãos e de controle remoto dos aparelhos por terceiros. O Ministério do Comércio da China pediu a revogação da medida e ameaçou adotar contramedidas.

Em meio à corrida da IA e da briga incessante pelos modelos de linguagem, a próxima queda de braço pode ser — literalmente — robótica.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
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