O mundo está mais dividido que nos anos 1980 — e isso custa 1% do PIB
Estudo do Goldman Sachs mede o efeito das alianças geopolíticas sobre o crescimento. Guerra passa em dois anos; um rompimento diplomático leva 14 para cicatrizar

O mundo está menos alinhado geopoliticamente do que em qualquer momento desde os anos 1980 — e isso impacta diretamente a economia mundial.
A deterioração das alianças entre potências na última década já subtraiu cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) global de forma acumulada, segundo uma análise do Goldman Sachs Research.
O impacto, de acordo com o banco, foi desigual no mundo. Em mercados emergentes, a perda chegou a 1,9% do PIB; nos desenvolvidos, ficou em 0,8%.
"Os impactos de longo prazo das mudanças nas alianças geopolíticas não são pequenos", escrevem Johan Allen e Joseph Briggs, economistas responsáveis pelo relatório.
Como se mede o alinhamento entre países?
O estudo se apoia em dois índices construídos com inteligência artificial (IA). Um deles mede eventos de risco geopolítico, como confrontos militares, crises políticas e incidentes diplomáticos. O outro mede o alinhamento entre nações, ou seja, a qualidade das relações entre elas.
Ambos usam modelos de linguagem, a mesma tecnologia por trás de ferramentas como o ChatGPT, para analisar grandes volumes de texto. O índice de risco, desenvolvido por Matteo Iacoviello, do Federal Reserve, e Jonathan Tong, da Universidade de Wisconsin, varre artigos de jornal para identificar e medir a intensidade de eventos geopolíticos.
O de alinhamento, baseado em pesquisa de Tianyu Fan, da Universidade de Princeton, usa IA para mapear eventos históricos entre países e quantificar o grau de aproximação ou afastamento.
Os dois indicadores mostram que os eventos de risco dispararam nos últimos cinco anos, e o alinhamento entre nações se deteriora há cerca de uma década — ambos estão perto de máximas históricas.
Risco e alinhamento não são a mesma coisa
O relatório faz questão de separar dois fenômenos que costumam ser confundidos. Um evento de risco é agudo e passageiro; o alinhamento muda de forma lenta e estrutural. Os autores mostram que nem sempre andam juntos.
O Brexit, por exemplo, marcou uma piora no alinhamento do Reino Unido com outros países, mas não um aumento de eventos de risco.
Já o Vietnã viu o risco geopolítico despencar com o fim da guerra contra os Estados Unidos, mas o alinhamento só melhorou duas décadas depois.
A diferença aparece também na duração. Segundo o banco, um choque de risco perde força em até dois anos e se dissipa em cinco. Já um choque de alinhamento dura muito mais e pode levar cerca de 14 anos para se recompor.
"Guerras, atos de terror e ameaças de violência entre Estados são profundamente disruptivos, mas felizmente costumam durar dias, meses ou, no máximo, anos", escrevem os autores. A deterioração das relações entre nações, por outro lado, "é um processo gradual que se desenrola ao longo de décadas".
O que o alinhamento faz pela economia?
Se a fragmentação custa, a aproximação rende. O estudo calcula que uma melhora no alinhamento equivalente a um desvio padrão eleva o PIB de um país em cerca de 3% ao longo de sete anos.
Para dar escala, os autores comparam esse movimento ao que aconteceu com a China após a visita do presidente americano Richard Nixon, em 1972.
Três canais explicam esse ganho, segundo o banco. O investimento fixo aumenta, à medida que relações melhores ampliam o acesso a mercados de capital globais.
As exportações crescem, porque o alinhamento reduz barreiras comerciais — efeito mais forte em economias menores. E o consumo das famílias e do governo sobe, ainda que menos que o PIB total, como efeito secundário do avanço do investimento e do comércio.
O que esperar adiante
As projeções apontam para os dois lados. Uma volta do alinhamento global aos níveis de meados da década de 2010 implicaria um aumento de 0,8% no PIB mundial até o fim desta década.
Já uma nova rodada de fragmentação, semelhante à que ocorreu no fim dos anos 2010, poderia reduzir o PIB global em 1% no longo prazo.
Os conflitos abertos, por sua vez, pesam menos do que se imagina no cálculo direto.
O banco estima que uma alta sustentada no índice de risco do tamanho do pico provocado pela guerra no Irã subtrairia apenas 0,3 ponto percentual do crescimento global no primeiro semestre de 2026 — um efeito modesto e de curta duração, ligado à cautela de consumidores e empresas.
