O mundo perdeu 2 bilhões de barris e mesmo assim o petróleo não explodiu
Apesar de altas e sustos, choque da guerra do Irã não é nem perto do maior da história - se Ormuz é tão vital para o petróleo, por que o choque não foi pior?

Seis meses após o início do conflito militar entre os Estados Unidos e o Irã, o mercado global de energia enfrenta a maior interrupção física na oferta de petróleo já registrada. O bloqueio do Estreito de Ormuz também afetou o transporte de gás natural liquefeito e outras commodities estratégicas.
Mais de 2 bilhões de barris de petróleo tiveram seus embarques interrompidos ao longo do ano, segundo um estudo do think tank Council on Foreign Relations (CFR).
Por sua vez, a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) classificou o episódio como a maior ruptura de fornecimento da história do mercado mundial de petróleo.
Todavia, apesar da dimensão do choque, os preços do petróleo permaneceram bem abaixo, em termos reais, dos níveis alcançados em crises anteriores: por exemplo, o choque provocado pelo embargo árabe de 1973-74 viu um aumento nos preços do petróleo bruto de 400% da noite para o dia, e a Revolução Iraniana de 1978-79 resultou na cifra de US$ 162 por barril no ano seguinte.
Mais recentemente, na crise econômica de 2008, segundo gráficos do CFR, o preço do petróleo bruto atingiu mais de US$ 200 — em comparação, o pico atual do conflito no Irã foi de cerca de US$ 126, o que mostra que a crise atual teve impacto limitado no crescimento mundial.
O Fundo Monetário Internacional reduziu apenas modestamente sua previsão para a economia global e projeta uma expansão de 3% neste ano, com crescimento ainda maior no próximo. A estimativa, porém, prevê que não haverá uma escalada significativa do conflito no Oriente Médio.
Mitigação
Petróleo: preço do barril oscila com guerra no Irã, mas não atinge picos históricos (atlascompany/Freepik)
Parte do otimismo está nas condições do mercado quando a guerra começou. A oferta mundial de petróleo estava relativamente confortável, e a IEA previa um excedente de cerca de 4 milhões de barris por dia para 2026, o que reduz o risco de uma reação de pânico entre os investidores.
Outro fator foi a mobilização coordenada das reservas estratégicas: países desenvolvidos liberaram cerca de 273 milhões de barris, na maior operação desse tipo já realizada, ajudando a compensar parte da oferta perdida e a limitar a pressão sobre os preços internacionais.
A existência de rotas alternativas também reduziu os efeitos do bloqueio. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos conseguiram direcionar milhões de barris por dia por meio de oleodutos que evitam o Estreito de Ormuz, aproveitando uma infraestrutura que permanecia parcialmente ociosa.
A própria transformação energética dos Estados Unidos também alterou o impacto da crise. A revolução do shale levou o país de uma posição de grande dependência das importações de energia, característica das décadas de 1970 e 1980, para a condição de um dos principais produtores e exportadores mundiais de petróleo e gás.
Essas proteções são resultado, em grande medida, das lições aprendidas com as crises anteriores. A IEA foi criada em 1974 justamente para coordenar reservas estratégicas, enquanto conflitos anteriores estimularam investimentos em rotas alternativas e em novas fontes de petróleo fora do Oriente Médio.
O elemento mais surpreendente da atual crise, porém, está do lado da demanda. O CFR aponta que governos e consumidores conseguiram reduzir o consumo de combustíveis de forma mais rápida e coordenada do que muitos especialistas imaginavam, ajudando a absorver parte do choque de oferta.
Pequim ao resgate
Com boas estratégias, a China mitigou os impactos do preço para si e para os mercados globais (Getty Images)
A China é o principal exemplo dessa mudança. Até junho, o país havia reduzido suas importações marítimas de petróleo bruto em mais de 5 milhões de barris por dia, o que representa mais de 40% abaixo dos níveis anteriores à guerra, sem provocar um colapso econômico doméstico.
Pequim conseguiu compensar parte da queda com reservas estratégicas acumuladas quando os preços estavam baixos, além de recorrer temporariamente ao carvão e às fontes renováveis. O governo também restringiu as exportações de derivados e adotou medidas para reduzir o consumo doméstico de combustíveis fósseis.
Entre essas medidas estão incentivos a veículos de energia alternativa, políticas de eficiência energética e investimentos no transporte público.
O caso chinês demonstra que reduzir a demanda pode ser tão importante quanto aumentar a oferta durante uma emergência energética,e que os efeitos podem beneficiar o mercado global.
Para o CFR, essa é a principal lição do conflito. A eficiência energética, durante muito tempo tratada como uma espécie de "combustível esquecido", pode assumir um papel central na segurança energética, especialmente à medida que a eletrificação, os veículos elétricos e as tecnologias mais eficientes se espalham pela economia.
O avanço da eletrificação já indica essa transformação: seu crescimento ocorre a um ritmo duas a três vezes superior ao da demanda global total por energia.
Se essa tendência continuar, futuras crises poderão ser administradas não apenas aumentando a produção de petróleo e gás, mas também reduzindo a quantidade de energia necessária para manter a atividade econômica.
