O pai vendia ração no interior. Hoje, a indústria da família faz R$ 75 milhões com cercas para gado
Com fábrica própria e presença em quatro países, indústria de cercas elétricas diversifica produtos e avança para além da região Sul

RESUMO +
A fabricante gaúcha de cercas elétricas Zebu faturou R$ 75 milhões em 2025 e prevê alcançar R$ 82,5 milhões em 2026, alta de 10%. Fundada em 1985, a empresa aposta em eletrificadores movidos a energia solar, automação industrial e novos mercados para crescer entre 10% e 15% em 2027.
Uma cerca em uma fazenda pode parecer um produto simples, mas foi com a fabricação de equipamentos para controlar o movimento do gado que uma empresa familiar do interior do Rio Grande do Sul construiu um negóciode R$ 75 milhões. Agora, quatro décadas depois de começar a montar os primeiros aparelhos em pequenas caixas de madeira, a fabricante aposta em energia solar, automação e novos mercados para continuar crescendo.
A empresa é a Zebu Sistemas Eletrônicos, fundada em 1985, em Lajeado (RS), por José Antônio Hickmann. Hoje, a operação emprega 80 pessoas, mantém uma rede de 4,5 mil parceiros comerciais e tem presença em todos os estados brasileiros, além de exportar para quatro países.
Em 2025, a companhia faturou R$ 75 milhões, com uma receita mensal média de R$ 6,2 milhões. Para 2026, a previsão é de crescimento de 10%, o que levaria o faturamento a R$ 82,5 milhões.
Parte dessa expansão vem de uma mudança no próprio mercado. As cercas elétricas, antes utilizadas principalmente para manter o gado dentro de áreas delimitadas, passaram a atender outras necessidades dos produtores rurais, como proteger lavouras e impedir a entrada de animais silvestres.
"Hoje existe uma variedade muito maior de necessidades dentro da propriedade, e o produtor procura equipamentos que entreguem segurança e confiabilidade em diferentes situações", afirma Michel Antônio Hickmann, sócio-diretor da Zebu e filho do fundador.
A empresa também está ampliando sua estrutura industrial, internalizando etapas da fabricação e desenvolvendo equipamentos que funcionam sem depender da rede elétrica. O objetivo é aproveitar a demanda por soluções capazes de operar em regiões afastadas das propriedades rurais.
Como nasceu a fabricante de cercas elétricas
A história da Zebu começou com uma atividade bastante diferente da indústria eletrônica. Antes de fabricar equipamentos, José Antônio Hickmann trabalhava vendendo ração pelo interior do Rio Grande do Sul.
Foi durante essas viagens que identificou uma oportunidade no mercado rural: os produtores precisavam de alternativas para controlar o gado e organizar as áreas de pastagem.
Na época, o uso de arame farpado era comum, e os sistemas elétricos disponíveis eram menos desenvolvidos do que os atuais. Hickmann decidiu apostar na fabricação de eletrificadores, aparelhos responsáveis por transmitir pulsos elétricos aos fios das cercas.
Para começar, passou a buscar componentes eletrônicos no Paraguai. A montagem era artesanal, feita em pequenas caixas de madeira, sem os gabinetes plásticos utilizados atualmente.
A produção inicial era de apenas cinco a dez unidades. Aos poucos, os pedidos aumentaram, o negócio ganhou estrutura e a empresa passou a incorporar novas tecnologias.
"A empresa sempre iniciou com cerca elétrica e continuamos com cerca elétrica. Claro que, no início, foi uma coisa. Hoje a gente tem muita tecnologia agregada", diz Michel.
O empresário, de 39 anos, cresceu dentro da fábrica. Atualmente, divide a sociedade e a gestão com o pai e a irmã, Larissa Hickmann, em um processo de transição geracional.
A especialização no mesmo segmento durante quatro décadas permitiu à Zebu desenvolver um portfólio que hoje reúne mais de 40 modelos de eletrificadores, além de acessórios para instalação, carregadores de bateria e outros equipamentos utilizados no meio rural.
Produção própria: fábrica da Zebu, em Lajeado (RS), produz cerca de 25 mil peças por semana e aposta em automação e energia solar para ampliar os negócios. (Zebu/Divulgação)
Como funciona o negócio que fatura R$ 75 milhões
Diferentemente de empresas que vendem diretamente ao consumidor, a Zebu construiu sua operação sobre uma rede de distribuição.
Os equipamentos são comercializados principalmente por lojas agropecuárias, que os revendem aos produtores rurais. A companhia não realiza a instalação das cercas, serviço que pode ser executado pelo próprio comprador ou por profissionais contratados.
O principal produto é o eletrificador, responsável por enviar pulsos elétricos ao sistema de fios instalado na propriedade. O contato com a cerca provoca uma descarga que desencoraja o animal a ultrapassar o limite estabelecido.
Segundo Michel, o funcionamento está relacionado ao condicionamento do animal. "A cerca elétrica, na verdade, é uma barreira psicológica", afirma.
O sistema permite organizar áreas de pastagem e controlar a circulação de rebanhos de leite e corte. O empresário ressalta, porém, que os equipamentos precisam ser instalados corretamente e que não é recomendável combinar cercas elétricas com arame farpado, devido ao risco de animais ou pessoas ficarem presos e receberem descargas repetidas.
A empresa também fornece os acessórios necessários à montagem do sistema, como isoladores e componentes utilizados para sustentar os fios.
Para distribuir esses produtos, a Zebu conta com mais de 30 representantes comerciais e aproximadamente 4,5 mil parceiros espalhados pelo país.
No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em parte do Paraná, as entregas são realizadas por uma frota própria. Nas demais regiões, a empresa utiliza transportadoras.
Essa estrutura ajudou a consolidar a presença da fabricante no Sul, mas a expansão mais recente vem de outros mercados.
Segundo Michel, estados como Bahia, Tocantins, Amazonas e Mato Grosso ganharam importância comercial em 2026, compensando o desempenho mais fraco de algumas regiões tradicionais.
Por que a energia solar virou uma aposta de crescimento
Uma das principais frentes de expansão da Zebu está nos equipamentos alimentados por energia solar.
A tecnologia permite instalar cercas elétricas em pontos afastados da sede das propriedades, onde a ligação à rede convencional pode ser difícil ou economicamente pouco interessante.
Durante o dia, os equipamentos utilizam a energia captada pelos painéis solares. À noite, continuam funcionando com o auxílio de baterias.
A linha solar é apontada pela empresa como a categoria de maior crescimento dentro de seu portfólio, embora a companhia não tenha divulgado sua participação no faturamento.
"Estamos investindo bastante na parte da linha solar, que vai trabalhar apenas com energia do sol e a bateria durante a noite", afirma Michel.
Um exemplo da diversificação é o JAVA300, eletrificador solar desenvolvido especificamente para o controle de javalis e apresentado na Expointer de 2026. O equipamento foi projetado para proteger áreas rurais da entrada desses animais, que podem provocar prejuízos às lavouras e apresentam intensa atividade durante a noite.
A empresa também prepara novos lançamentos. Segundo Michel, dois produtos estão em processo de certificação pelo Inmetro e poderão chegar ao mercado em 2027, depois da aprovação.
A estratégia é ampliar a oferta de soluções para diferentes tamanhos de propriedades e necessidades de cercamento, sem abandonar o negócio que deu origem à companhia.
Onde a empresa está investindo para crescer
O avanço comercial vem acompanhado de mudanças na fábrica de Lajeado. Em 2026, a Zebu ampliou a área de seu parque industrial e começou a produzir internamente isoladores plásticos, acessórios que antes eram fabricados por uma empresa terceirizada.
A mudança representa um movimento de verticalização da produção, com maior controle sobre uma etapa importante da fabricação. O valor investido na expansão não foi divulgado.
A companhia também automatizou a fabricação das placas eletrônicas utilizadas nos equipamentos. Segundo Michel, o processo permite produzir lotes de até 10 mil componentes em um único dia. A produção final é de aproximadamente 25 mil peças por semana, conforme o empresário.
Essa estrutura dá à empresa margem para aumentar a produção sem necessariamente realizar uma nova expansão imediata do maquinário.
"Hoje, a minha capacidade produtiva de maquinário, eu consigo produzir isso tranquilamente", afirma o empresário, ao explicar que a fábrica teria condições de absorver até mesmo um aumento de 50% na demanda.
A operação também passou a incorporar materiais reciclados na fabricação de acessórios plásticos.
Entre as matérias-primas utilizadas estão plásticos provenientes de caixas de transporte de frangos e bebidas, além de resíduos separados dentro da própria indústria, como galões e tampas.
Esses materiais são processados e transformados em novos componentes.
A fabricante possui certificação ISO 9001 desde 2011, relacionada à gestão da qualidade, e ISO 14001 desde 2021, voltada à gestão ambiental.
Michel destaca ainda a rastreabilidade dos componentes. Cada lote pode ser acompanhado desde a origem dos materiais até o produto final, permitindo identificar eventuais problemas de fabricação.
Quais são os próximos mercados da Zebu
Embora o Brasil concentre a maior parte dos negócios, a Zebu também exporta para Uruguai, Paraguai, Bolívia e México.
O Paraguai é um dos mercados que mais ganharam relevância recentemente, diz Michel. A expansão internacional ocorre paralelamente ao crescimento em estados brasileiros fora da região Sul, historicamente mais importante para a empresa.
O empresário afirma que a Zebu ocupa uma posição de liderança nacional no segmento de cercas elétricas, mas a companhia não apresentou dados independentes de participação de mercado que permitam confirmar essa posição.
Para os próximos anos, a estratégia combina novos equipamentos, fortalecimento da distribuição e ampliação das vendas fora dos mercados tradicionais.
