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Sacre Investimentos
Economia
22/09/2026
8 min

O paradoxo da dívida pública: por que Brasil deve menos que países desenvolvidos, mas paga mais caro?

O Brasil está longe de ser o país mais endividado do mundo. Japão, Itália, Estados Unidos e França carregam dívidas públicas superiores à brasileira — em alguns casos, acima de 100% do Produto Interno Bruto (PIB). A deterioração das contas públicas, portanto, não é uma exclusividade nacional. O problema ganhou dimensão global após anos de […]

O paradoxo da dívida pública: por que Brasil deve menos que países desenvolvidos, mas paga mais caro?

O Brasil está longe de ser o país mais endividado do mundo. Japão, Itália, Estados Unidos e França carregam dívidas públicas superiores à brasileira — em alguns casos, acima de 100% do Produto Interno Bruto (PIB). A deterioração das contas públicas, portanto, não é uma exclusividade nacional.

O problema ganhou dimensão global após anos de aumento dos gastos públicos e crescimento mais lento das economias. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida pública mundial ficou próxima de 94% do PIB em 2025 e deve alcançar 100% até 2029.

O tamanho da dívida, entretanto, conta apenas parte da história. Com o fim do longo período de juros baixos, iniciado após a crise financeira de 2008, os governos passaram a pagar mais caro para refinanciar seus débitos. Ao mesmo tempo, despesas com Previdência, defesa e programas sociais continuam pressionando os orçamentos.

Nesse cenário, surge um aparente paradoxo: se países ricos conseguem conviver com dívidas maiores que a brasileira, por que o Brasil não poderia se dar a esse luxo? Economistas ouvidos pelo Money Times afirmam que não há um limite universal. O risco depende do custo dos juros, do crescimento da economia, da moeda em que a dívida é emitida e, principalmente, da confiança dos investidores.

Por que a dívida ficou mais perigosa?

O avanço das dívidas públicas não começou agora. Desde a crise financeira de 2008, governos e bancos centrais adotaram estímulos para sustentar suas economias, enquanto as taxas de juros permaneceram próximas de zero nos principais mercados.

O crédito barato permitiu que os países ampliassem os gastos sem que o serviço da dívida pressionasse tanto os orçamentos. Esse cenário, porém, começou a mudar com a volta da inflação e a elevação dos juros globais.

“O déficit sempre existiu e é crônico. Só que, agora, o sapato está apertando, porque as taxas de juros estão subindo no mundo todo”, afirma Marcelo Cabral, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital.

O movimento já aparece nas decisões recentes dos bancos centrais. Em setembro, o Federal Reserve (Fed) elevou os juros americanos em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, diante da persistência da inflação. No Japão, o banco central também vem retirando gradualmente os estímulos adotados durante décadas, enquanto outras economias avançadas mantêm taxas restritivas por mais tempo.

Ainda que as decisões não caminhem todas na mesma direção, o cenário mostra que a era do dinheiro praticamente gratuito ficou para trás. Isso significa que dívidas contraídas ou ampliadas quando os juros estavam próximos de zero terão de ser refinanciadas a custos maiores.

Na avaliação do economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Barros, o risco está justamente na combinação entre um estoque elevado de dívida e um custo maior para refinanciá-la. À medida que os títulos vencem, os governos precisam substituí-los por novos papéis, agora remunerados por taxas mais altas.

A situação se torna mais delicada quando o custo médio da dívida supera o crescimento da economia. Nesse cenário, o estoque do endividamento avança mais rapidamente que o PIB, aumentando o esforço fiscal necessário para estabilizar a relação dívida/PIB.

“Hoje, o estoque de dívida é maior e o custo de rolagem também. Isso cria uma dinâmica muito negativa para a própria trajetória da dívida”, explica Barros.

O efeito pode se espalhar pelo restante da economia. Com governos emitindo mais títulos para financiar seus déficits, aumenta a disputa pelo dinheiro dos investidores. Para atrair compradores, os retornos precisam ser maiores, pressionando especialmente os juros de longo prazo – como tem acontecido com os títulos brasileiros e os Treasuries nos EUA, que têm batido recordes sucessivamente.

Segundo Barros, esse movimento encarece o financiamento de projetos, reduz os investimentos produtivos e, com o tempo, afeta a geração de emprego e renda. Forma-se, assim, um ciclo vicioso difícil de romper: a dívida eleva os juros, os juros prejudicam o crescimento e o menor crescimento torna a dívida ainda mais pesada.

Dívidas altas, condições diferentes

O Brasil não está entre os países com as maiores dívidas públicas do mundo. Pelas projeções do FMI para 2026, a dívida bruta brasileira corresponde a 96,5% do PIB, abaixo de grandes economias como Japão, Itália, Estados Unidos e França.

País Dívida bruta/PIB em 2026
Japão 204,4%
Itália 138,4%
Grécia 136,9%
Estados Unidos 125,8%
França 118,4%
Canadá 110,7%
China 106,9%
Reino Unido 103,6%
Brasil 96,5%
Alemanha 63,9%

Fonte: FMI — World Economic Outlook, abril de 2026. Dados da dívida bruta do governo geral.

Os números, entretanto, escondem condições de financiamento bastante diferentes. Os Estados Unidos contam com a principal moeda de reserva mundial, o maior mercado de capitais do planeta e uma economia com maior capacidade de crescimento.

“São três fatores: crescimento econômico, dólar e mercado de capitais doméstico”, resume Cabral. Essas características, segundo ele, garantem demanda pelos títulos do Tesouro americano e permitem ao país financiar uma dívida maior.

O Japão também possui uma condição particular: apesar da dívida superior a 200% do PIB, emite seus títulos em moeda local e conta com uma ampla base doméstica de compradores. Na Europa, o quadro é mais delicado porque países como França e Itália combinam endividamento elevado, baixo crescimento e envelhecimento populacional.

“Os Estados Unidos têm dívida alta e crescimento alto. A Europa tem dívida alta e crescimento baixo”, pondera Cabral.

Isso não significa que essas economias possam ampliar indefinidamente seus débitos. Significa apenas que possuem condições diferentes para financiá-los. É justamente nesse ponto que aparece a principal fragilidade brasileira: embora sua dívida seja menor, o país paga muito mais caro para mantê-la.

Por que o Brasil paga mais?

Com a Selicem 13,75% ao ano, o custo dos juros consome uma parcela relevante do orçamento. O FMI estima que o Brasil gastará cerca de 8,3% do PIB com juros neste ano. Na projeção do organismo, a dívida bruta deve passar de 96,5% do PIB neste ano para perto de 107% em 2031.

Segundo Gabriel Barros, o histórico de desequilíbrio fiscal e inflação acima da meta faz com que os investidores cobrem um prêmio maior para financiar o governo brasileiro.

“A diferença é que a gente não é moeda de reserva e não tem uma demanda global para rolar a nossa dívida”, afirma o economista-chefe da ARX.

O que protege o país?

Apesar da piora das contas públicas, o Brasil ainda aparece em posição relativamente favorável entre os mercados emergentes. Na avaliação de Barros, isso ocorre menos por uma melhora estrutural do país e mais pela deterioração fiscal e institucional de outras economias.

Para ele, o Brasil também não está diante de uma crise fiscal iminente. A maior parte da dívida pública é emitida em reais, enquanto a parcela vinculada a moedas estrangeiras é pequena. O país ainda possui reservas internacionais robustas e um mercado doméstico capaz de absorver os títulos públicos.

Essas características reduzem o risco de uma crise clássica de balanço de pagamentos, marcada pela falta de dólares para honrar compromissos externos.

“A possibilidade de o Brasil entrar em uma crise de balanço de pagamentos é muito pequena, porque o país depende hoje muito menos do setor externo”, avalia Cabral.

Qual ajuste o Brasil precisa fazer?

Para interromper essa dinâmica de falta de confiança e juros altos, o país precisa produzir resultados primários positivos de forma consistente. Em sua avaliação mais recente, o FMI calculou que um superávit primário próximo de 1,5% do PIB seria necessário para estabilizar a dívida no médio prazo.

Barros, porém, considera que o desequilíbrio acumulado exige um esforço maior. Em seus cálculos, um ajuste integral chegaria a cerca de quatro pontos do PIB. A dificuldade, na sua visão, é política: cortes rápidos de despesas podem produzir recessão e forte custo social, enquanto um ajuste insuficiente oferece apenas um alívio temporário.

“Quanto mais tempo você leva para fazer o ajuste, maior se torna a dose do remédio”, afirma.

Para o economista, o Brasil adiou por tanto tempo a correção das contas que perdeu espaço para uma solução apenas gradual. Além de controlar os gastos, o país precisa elevar sua capacidade de crescimento, condição essencial para reduzir o peso da dívida em relação ao PIB.

Tem jeito?

Apesar dos riscos, o cenário internacional também abre uma oportunidade. Diante das incertezas nos Estados Unidos, Europa, China e Rússia, investidores estrangeiros encontram poucas economias emergentes grandes, líquidas e diversificadas. O Brasil aparece entre essas opções.

“Os emergentes não ficaram mais bonitos, não viraram os mais bonitos da festa. Só deixaram de ser os mais feios”, resume Barros.

Esse ambiente pode aumentar o fluxo de capital para o país e reduzir temporariamente a pressão sobre os ativos brasileiros. Mas, segundo o economista, o cenário externo apenas compra tempo — não substitui reformas nem resolve o desequilíbrio fiscal.

“O cenário geopolítico ajuda a comprar tempo para entregarmos as reformas necessárias. É uma janela de oportunidade”, afirma.

A diferença entre uma dívida sustentável e uma trajetória perigosa, portanto, não será determinada apenas pelo nível da dívida/PIB. Dependerá da capacidade do Brasil de aproveitar essa janela para organizar as contas públicas, reduzir o custo dos juros e voltar a crescer.

AutorJuliana Caveiro
FonteMoney Times
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