O peso do IPO da Shein sobre as varejistas brasileiras, segundo o BTG Pactual

A Sheinobteve a aprovação da China para a sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) em Hong Kong, movimento que acende um alerta para o e-commerce e varejo brasileiro, vê o BTG Pactual.
A decisão da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China (CSRC) abre os caminhos para uma listagem após tentativas frustradas em Nova York e Londres.
A gigante asiática do fast fashion deve buscar uma avaliação entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões, abaixo dos US$ 100 bilhões atribuídos em sua rodada privada de 2022 e dos US$ 66 bilhões da captação realizada em 2023.
“Mesmo nesses níveis, a Shein permaneceria entre as maiores empresas globais de vestuário listadas em bolsa em termos de valor de mercado”, avaliam analistas do BTG. Para a equipe de analistas liderada por Luiz Guanais, o IPO reforça que a concorrência internacional está se tornando cada mais estrutural, e não apenas cíclica.
“Embora as mudanças regulatórias tenham reduzido parcialmente algumas das vantagens históricas das plataformas de comércio transfronteiriço, nosso mais recente Índice do Varejo de Vestuário indica que a Shein ainda mantém uma vantagem significativa de preços em relação às varejistas locais de moda”, diz o banco.
Esse cenário sugere que a pressão dificilmente irá diminuir no curto e médio prazo, reforçando a necessidade de que os nomes brasileiro busquem outras formas de se destacaram diante do consumidor.
O impacto Shein
A Shein se consolidou como uma forte competidora pela combinação de escala, tecnologia e cadeia de suprimentos como vantagens relevantes.
Enquanto nomes do varejo brasileiro atuam sob os fundamentos de coleções sazonais, desenvolvidas com meses de antecedência e que correm risco de remarcações de preços e estoques parados, a Shein vai por outro caminho.
A empresa monitora continuamente o comportamento de busca dos consumidores, tendências nas redes sociais e dados de compras para identificar oportunidades emergentes de moda. Novos produtos podem passar da fase de design para a produção em um período ágil de três a sete dias, com lotes iniciais frequentemente limitados a cerca de 100 peças.
A análise da companhia permite que apenas os produtos que demonstram forte desempenho de vendas recebem novos pedidos de fabricação, testando a demanda dos consumidores antes de avançar na produção.
“Esse modelo de ‘pequenos lotes e reposição rápida’, apoiado por inteligência artificial, análise em tempo real do comportamento do consumidor e uma rede altamente integrada de fornecedores, tornou-se uma das mais importantes vantagens competitivas estruturais da Shein”, diz o BTG Pactual.
Na leitura dos analistas do banco, o varejo brasileiro precisa buscar diferenciações por meio de:
- Desenvolvimento mais rápido de produtos;
- Fortalecimento de suas marcas;
- Expansão das capacidades omnichannel;
- Personalização baseada em inteligência artificial; e
- Uma experiência superior para o cliente,
- Em vez de dependerem exclusivamente da competição por preços.
A próxima fase da concorrência, na visão do BTG, será cada vez mais determinada pela força dos ecossistemas digitais, pela eficiência logística, pelo comércio impulsionado por criadores de conteúdo pela monetização dos marketplaces e pela descoberta de produtos apoiada por inteligência artificial.
“Nesse contexto, execução e inovação serão os principais fatores de diferenciação, enquanto o Brasil continua sendo um dos mercados de e-commerce mais atrativos do mundo sob a perspectiva de longo prazo”, dizem os analistas.
Para a Shein, o cenário também mudou
O IPO também acontece em um momento em que o ambiente operacional da Shein se tornou consideravelmente mais complexo.
Autoridades dos Estados Unidos e da Europa endureceram as regras relacionadas às importações de baixo valor, isenções alfandegárias e conformidade de produtos, enquanto questões ligadas às práticas trabalhistas, sustentabilidade e transparência da cadeia de suprimentos continuam sendo alvo de crescente atenção tanto dos reguladores quanto dos investidores institucionais.
Ao mesmo tempo, a concorrência se intensificou de maneira significativa, com Temu, TikTok Shop e Amazon ampliando de forma agressiva seus investimentos em iniciativas voltadas ao varejo de baixo custo.
Como consequência, os investidores tendem a concentrar ainda mais sua atenção na capacidade da Shein de sustentar um crescimento rentável enquanto absorve custos mais elevados de conformidade e opera em um ambiente regulatório progressivamente mais restritivo.
O Brasil evidencia a capacidade da Shein de se adaptar e acelerar seu crescimento
Na visão do BTG Pactual, o Brasil tornou-se um dos exemplos mais claros da flexibilidade operacional da Shein. Após a implementação do programa Remessa Conforme, em 2024, a companhia ajustou sua política de preços, ampliou iniciativas de compras locais e otimizou sua rede logística para preservar sua competitividade.
Mais recentemente, a reversão da tributação federal sobre compras internacionais elegíveis criou um ambiente operacional mais favorável, permitindo que o crescimento voltasse a acelerar.
“A combinação de preços agressivos, execução local e uma cadeia de suprimentos altamente responsiva continua encontrando forte aceitação entre os consumidores brasileiros, que são bastante sensíveis a preços”, ponderam os analistas.
