O Pix já atravessa fronteiras com stablecoins; para que usar acordos entre bancos?
Ativos digitais podem ser uma forma de complementar a eficiência trazida pela ferramenta instantânea do Banco Central

Por Rocelo Lopes*
Nas últimas semanas, uma notícia circulou com força nas redes: o Pix já pode ser usado por brasileiros para pagar compras em oito países — Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Estados Unidos, Portugal, Espanha e França. Basta ler o QR Code do comerciante, e o valor é convertido para reais em tempo real, sem precisar sacar dólar ou euro antes da viagem.
É uma boa notícia. Mas também é reveladora de um problema que o próprio Banco Central admite: não existe um "Pix internacional" oficial. O que existe são acordos pontuais, país a país, entre instituições financeiras autorizadas a operar câmbio. No Chile, é uma parceria com a VirtualPOS. Na Argentina, o Banco do Brasil precisou negociar diretamente com o Banco Patagonia. Cada nova rota depende de uma nova negociação bilateral, que é lenta, cara de manter e limitada à cobertura que essas parcerias específicas conseguem oferecer.
O dado que chama atenção é o volume de transações internacionais, que cresce, segundo a PagBrasil, cerca de 22,5% ao mês. Existe demanda real por pagar fora do país sem os dois pesadelos clássicos do brasileiro viajante: procurar casa de câmbio e pagar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 3,5% que incide hoje sobre operações com cartão de crédito no exterior.
E o IOF é só a parte visível da conta: some a ele o spread cambial embutido na cotação do cartão, ou seja, a diferença entre o dólar que o banco compra e o dólar que repassa ao cliente, que quase nunca é favorável a quem está pagando. Somando as duas coisas e, dependendo da bandeira, da instituição e do dia, o custo efetivo de uma compra no cartão internacional pode passar de 7% acima do valor original, o que é bem mais do que a conversão feita hoje via stablecoin. O mercado está correndo atrás dessa demanda, um acordo bilateral de cada vez.
Solução via stablecoins
Acompanho esse movimento com um misto de entusiasmo e déjà vu, porque o problema que o Pix está tentando resolver (mover valor entre países sem depender da burocracia cambial tradicional) é exatamente o que venho vendo ser resolvido, há três anos, por outro caminho.
O Pix internacional, do jeito que existe hoje, precisa que dois bancos, de dois países diferentes, se sentem à mesa e construam uma integração técnica e regulatória específica. É um modelo que funciona, mas que escala devagar: cada país novo é um projeto novo.
Já existem soluções que resolvem esse mesmo problema por outro ângulo. Em vez de depender de pontes bilaterais entre sistemas bancários nacionais, há infraestruturas que conectam ativos digitais — como stablecoins — a redes de pagamento locais, sempre por meio de parceiros autorizados e em conformidade com as regulamentações de cada mercado. Na prática, isso significa manter parte do valor em dólar digital e usá-lo no dia a dia por meio de integrações com sistemas como o próprio Pix, sem que cada rota precise ser negociada banco a banco.
Um ponto que costuma gerar dúvida é sobre quem fica com o dinheiro nesse modelo. Diferente de uma conta em banco, em que a instituição custodia o saldo do cliente, numa carteira autocustodiada o controle dos ativos permanece com o próprio usuário e a empresa por trás da infraestrutura não tem acesso às chaves privadas de ninguém. Isso muda a relação de responsabilidade: exige mais educação do usuário, mas também retira dele a dependência de terceiros para acessar o próprio patrimônio, seja em uma viagem, seja numa transferência entre países.
É um modelo que existe há três anos, atravessou ciclos distintos do mercado cripto e evoluiu de aplicativo voltado ao usuário final para infraestrutura pensada também para empresas e fintechs que querem incorporar ativos digitais às próprias operações.
Uso da stablecoin conforme o volume
Outro detalhe que passa despercebido nessa conversa sobre custo: nem todo brasileiro tem cartão de crédito e, entre quem tem, nem todo mundo dispõe de limite compatível com o que precisa gastar numa viagem ou numa compra internacional. É uma barreira silenciosa, mas real, de inclusão financeira. O Pix, nesse sentido, já muda a régua: o limite de uso passa a ser o saldo disponível em conta, não uma linha de crédito aprovada por um banco.
Há ainda um ponto estrutural que vale explicar, porque é onde a diferença entre os dois modelos fica mais clara. Hoje, para o Pix internacional funcionar, cada parceria bilateral normalmente exige que uma das instituições mantenha reservas pré-alocadas na moeda do outro país. Isso é dinheiro parado, guardado como garantia, para viabilizar a liquidação das operações.
Um modelo baseado em stablecoin resolve esse problema de outro jeito. Uma instituição financeira estrangeira adquire a stablecoin localmente, se conecta a essa infraestrutura de integração e passa a operar sob demanda: usa a stablecoin de acordo com o volume real que seus usuários movimentam, em vez de manter centenas de milhares de reais parados só para garantir a operação. A stablecoin faz o papel de padrão comum de liquidação entre instituições de países diferentes, sem que uma precise pré-financiar a outra.
Pix e stablecoins se complementam
Não vejo o Pix internacional e as carteiras autocustodiadas de stablecoin como concorrentes. Na verdade, são duas respostas diferentes para a mesma pergunta: como fazer o dinheiro atravessar fronteiras com a mesma facilidade com que hoje atravessa um QR Code dentro do Brasil.
O Pix está tentando resolver isso caminhando pela via bancária tradicional, expandindo acordo por acordo. Quem constrói esse tipo de infraestrutura chegou à mesma pergunta pela via da autocustódia e dos ativos digitais, com uma arquitetura pensada desde o início para ser global.
O que os dois movimentos têm em comum é o diagnóstico: o brasileiro quer pagar fora do país sem precisar carregar dinheiro vivo, sem pagar IOF e spread cambial embutidos no cartão, e sem que o acesso dependa de limite de crédito aprovado por um banco. Essa demanda não vai diminuir — só tende a crescer, à medida que mais gente viaja, compra em plataformas internacionais e trabalha remotamente para empresas fora do Brasil.
A pergunta que fica não é se o dinheiro vai continuar cruzando fronteiras com mais fluidez, pois isso já é fato. A pergunta é qual arquitetura vai sustentar esse movimento na próxima década: uma rede de acordos bilaterais que precisa ser renegociada a cada novo país, ou uma infraestrutura pensada, desde a origem, para não conhecer fronteira nenhuma.
*Rocelo Lopes é criador da Truther by RezolvePay e chefe da iniciativa de moedas digitais da Rezolve AI
