O plano de R$ 30 bilhões da Coca-Cola Brasil: ‘Teremos novas fábricas’, diz presidente
Luciana Batista conta à EXAME como a Coca-Cola Zero, bebidas alcóolicas e IA podem sustentar um novo salto de crescimento da multinacional até 2030

O Brasil já é o 4º maior mercado da Coca-Cola no mundo, mas a gigante de bebidas acredita que ainda há espaço para aumentar sua operação por aqui. Para isso, prepara um ciclo de R$ 30 bilhões em investimentos até 2030, que incluirá desde a expansão da capacidade produtiva até a construção de novas fábricas.
Em entrevista exclusiva ao “De Frente com CEO”, da EXAME, Luciana Batista, presidente da Coca-Cola Brasil, afirma que o país combina duas características importantes para a multinacional: tamanho e velocidade de expansão.
“Além de sermos o 4º maior país da companhia no mundo, nos últimos três anos também estamos entre os ‘top três’ em crescimento para a companhia”, afirma Batista.
A posição brasileira, segundo a executiva, é resultado de um trabalho construído ao longo dos anos pelo chamado Sistema Coca-Cola, que reúne a companhia e seus fabricantes no país.
Agora, a estratégia é investir para manter o Brasil entre os motores de crescimento da multinacional.
Novas fábricas estão no plano
Os R$ 30 bilhões serão distribuídos por praticamente toda a cadeia da Coca-Cola. O dinheiro deve chegar à produção, linhas adicionais, centros de distribuição, frota de caminhões, equipamentos instalados nos pontos de venda e iniciativas comerciais e de sustentabilidade.
A companhia também pretende aumentar sua capacidade industrial.
“Temos boa parte do plano voltado para expansões de fábricas existentes, mas, sim, temos no plano novas fábricas em algumas regiões do país”, afirma Batista.
A executiva ainda não pode detalhar quantas unidades serão construídas nem quais regiões receberão os projetos, mas o investimento dá continuidade a uma estratégia de expansão que já vinha sendo executada.
"O Sistema Coca-Cola investiu cerca de R$ 11 bilhões nos últimos dois anos no país", afirma.
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Luciana Batista, Presidente da Coca-Cola Brasil: “A Coca-Cola Zero está tendo taxas de crescimento dignas de startups” (Leandro Fonseca /Exame)
Inovação: Coca-Cola Zero cresce e bebidas alcóolicas são criadas
Parte desse crescimento não virá necessariamente da Coca-Cola tradicional.
A estratégia da multinacional é se posicionar cada vez mais como uma “empresa total de bebidas”, ampliando a presença em diferentes momentos do dia e acompanhando mudanças nos hábitos dos consumidores.
Uma das principais apostas está justamente nos produtos sem açúcar.
“A Coca-Cola Zero está tendo taxas de crescimento dignas de startups”, afirma Batista.
A executiva não revelou o percentual de expansão da marca, mas diz que a busca por redução calórica está ajudando a impulsionar toda a linha zero.
O movimento se estende para outras categorias. Bebidas não carbonatadas e produtos associados à funcionalidade também estão entre as alavancas de expansão.
A companhia aposta, por exemplo, em isotônicos e novas versões de produtos de marcas já conhecidas pelos brasileiros. O portfólio também vem sendo usado para entrar em ocasiões de consumo nas quais a Coca-Cola historicamente tinha presença menor. É o caso das bebidas alcoólicas prontas para beber.
A estratégia passa por combinar marcas conhecidas a coquetéis já consumidos no mercado, oferecendo uma opção pronta. Segundo Batista, a entrada na categoria não representa uma mudança no centro do negócio. “Nossa liderança é na categoria de bebidas não alcoólicas”, afirma.
A agenda de inovação também terá novos produtos em 2026. Entre os lançamentos previstos está um novo sabor de Fanta.
“Fanta, por exemplo, a gente sempre faz campanha de Halloween. Esse ano também vem com um novo sabor, muito bacana, aguardem,” diz a presidente.
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O desafio de acompanhar um consumidor que está mudando
A diversificação ganha importância em um momento de transformação dos hábitos de consumo.
Busca por alimentação mais saudável, redução de açúcar, novas funcionalidades e até medicamentos para emagrecimento, como as canetas emagrecedoras, estão alterando a maneira como parte da população escolhe alimentos e bebidas.
Para Batista, o principal desafio não está em uma tendência específica, mas na capacidade de uma empresa centenária continuar mudando junto com seu público.
“O que eu vejo que é muito importante é a gente conseguir evoluir junto com o consumidor à medida que o paladar dele evolui e o estilo de vida dele evolui”, afirma.
Isso significa equilibrar dois lados do portfólio: produtos associados à indulgência e à memória afetiva e opções adaptadas a novos estilos de vida.
A conjuntura econômica também entra nessa conta. Com a renda das famílias pressionada, a companhia precisa pensar em formatos e produtos que mantenham a marca acessível.
“Temos alguns desafios econômicos pela frente, que exigem adaptar o portfólio e pensar em produtos mais acessíveis, à medida que o orçamento das famílias fica mais apertado”, afirma Batista.
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Retornáveis unem preço e sustentabilidade
É nesse contexto que as embalagens retornáveis ganham uma função dupla na estratégia brasileira.
Além de reduzirem a necessidade de produção de novas embalagens, elas ajudam a oferecer o produto por um preço mais baixo.
“Ela combina o lado da sustentabilidade, pela própria retornabilidade e menor fabricação de outras embalagens, com uma embalagem que chega a um preço mais acessível para o consumidor final, ajudando a democratizar o consumo da marca”, diz Batista.
A agenda ambiental também está incluída no pacote de R$ 30 bilhões.
Entre as frentes estão projetos de coleta e reciclagem de resíduos, iniciativas com catadores e investimentos relacionados à água. Nas fábricas, um dos objetivos é reduzir continuamente a quantidade de água.
18“Queremos chegar o mais próximo possível de consumir apenas um litro de água para cada litro de bebida produzido. Para isso, fazemos ações para reduzir esse consumo e, ao mesmo tempo, iniciativas de reposição hídrica”, afirma.
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Futebol e música também viraram motores de vendas
Além da inovação no portfólio e na operação, grandes eventos continuam sendo uma ferramenta importante para impulsionar vendas da Coca-Cola no Brasil. A Copa do Mundo mostrou o tamanho desse efeito.
Batista afirma que as ativações realizadas nos países participantes tiveram impacto comercial relevante durante o trimestre da competição. Globalmente, a companhia registrou crescimento de 5% em volume no período do Mundial, com marcas associadas ao esporte entre os destaques.
“Não é apenas um patrocínio para a construção de marca. Ele acaba gerando uma parte comercial muito forte”, afirma.
No Brasil, essa estratégia também passa por festivais de música e por outros campeonatos de futebol.
“Neste ano, ampliamos ainda mais nossa participação no futebol por meio do acordo com a CBF, com o patrocínio do Campeonato Brasileiro masculino e feminino”, diz. “Queremos fazer na Copa feminina do ano que vem algo tão grande quanto fizemos na Copa masculina. Estamos presentes desde a primeira edição, em 1991”.
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Os brasileiros que dão o 'gás' à Coca-Cola no mundo
A relevância brasileira dentro da Coca-Cola vai além de vendas e investimentos. O país também se tornou um celeiro de executivos para posições de liderança da multinacional no exterior, inclusive em alguns dos principais cargos da companhia.
O maior exemplo é Henrique Braun, brasileiro que chegou ao posto de CEO global da The Coca-Cola Company em 2026, após uma trajetória de mais de três décadas no grupo. A lista de brasileiros em posições internacionais inclui ainda Bruno Pietracci, como presidente na América Latina, e Claudia Lorenzo, como presidente da Coca-Cola no Oriente Médio e Eurásia.
Para Batista, que é a primeira mulher a ocupar a cadeira de presidente da Coca-Cola no Brasil, a experiência de administrar negócios em um mercado complexo como o brasileiro ajuda a explicar essa presença, além do peso da operação brasileira, que é um mercado relevante e aberto a testar novos produtos e formas de fazer negócios
“Os brasileiros trazem essa adaptabilidade, essa resiliência em diferentes ambientes de negócio, que acabam sendo um superativo para uma companhia global”, afirma Batista.
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Dados da Coca-Cola no mundo justificam o investimento
O tamanho do aporte também reflete a expectativa de que o mercado brasileiro continue crescendo nos próximos anos. Questionada sobre as perspectivas para a operação, Batista afirma que a companhia espera “seguir entregando crescimento, assim como vem entregando nas últimas décadas”.
O tamanho do aporte também reflete a expectativa de que o mercado brasileiro continue crescendo nos próximos anos. O movimento ocorre em um momento de expansão global da companhia. Em 2025, a Coca-Cola registrou US$ 47,9 bilhões em receita líquida, alta de 2%, enquanto a receita orgânica avançou 5%. No primeiro semestre de 2026, o ritmo acelerou: a receita líquida cresceu 9%, a receita orgânica subiu 8% e o volume global vendido avançou 4%.
Para uma empresa que vende bebidas há mais de um século, o desafio agora é usar essa escala histórica sem deixar que o tamanho reduza sua velocidade.
“Uma empresa do nosso tamanho nunca cresce por uma coisa só. É uma soma de várias iniciativas, com muita consistência ao longo do tempo”, diz Batista.
No Brasil, essa consistência ganha agora o reforço de R$ 30 bilhões em investimentos até 2030. Seja no negócio ou no comando, o país promete continuar dando o gás à Coca-Cola no mundo.
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