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Mundo
16/08/2026
6 min

O plano que pode mudar a forma como Hong Kong governa sua economia

Plano para 2026 a 2030 amplia alinhamento com a China continental e reacende debate sobre a identidade econômica da cidade

O plano que pode mudar a forma como Hong Kong governa sua economia

Em um momento inédito em sua história administrativa, a cidade de Hong Kong, que opera como território semiautônomo na China, deve assinar, até o fim de setembro,o primeiro plano quinquenal da cidade, alinhado às diretrizes de desenvolvimento da China continental. A iniciativa marca uma mudança  no modelo de governança do centro financeiro asiático.

Pela primeira vez, o planejamento econômico e social deixará de depender apenas de discursos anuais de política pública e de orçamentos e refletirá uma tradição histórica em vigor na China desde os tempos de Mao Zedong, sendo o primeiro esboçado em 1953. Desde então, as decisões socioeconômicas da China continental vêm sendo tomadas com base nos planos.

O debate ganhou força após o encerramento de uma consulta pública sobre o plano para o período de 2026 a 2030, que reuniu mais de 16 mil propostas. O novo modelo busca definir prioridades estratégicas de longo prazo para áreas consideradas essenciais ao futuro da cidade.

Um novo capítulo

Entre os defensores da mudança está o economista Heiwai Tang, da Universidade de Hong Kong. Segundo ele, em entrevista ao South China Morning Post (SCMP), também de Hong Kong,  a ausência de planejamento abrangente contribuiu para problemas estruturais, como a escassez de moradias, a crescente desigualdade e a baixa mobilidade social.

Tang argumenta que o modelo de livre mercado laissez-faire, embora tenha gerado prosperidade por décadas, não conseguiu resolver os desafios de longo prazo. Para ele, confiar exclusivamente nas forças de mercado deixou lacunas importantes na coordenação das políticas públicas.

A adoção do plano quinquenal representa, portanto, uma ruptura com uma tradição consolidada desde os anos 1970, ainda sob o domínio britânico. Mesmo após a devolução à China em 1997, Hong Kong manteve a mesma lógica de intervenção estatal limitada.

Com o novo modelo, os discursos anuais e os orçamentos passarão a funcionar como instrumentos de implementação,ao invés de decidir o rumo socioeconômico da cidade. Dessa maneira, o plano quinquenal deverá estabelecer metas mais amplas e servir de referência para as ações de cada governo.

As autoridades pretendem publicar as contribuições recebidas na consulta pública e concluir o texto até setembro; antes da divulgação oficial, o documento passará por uma revisão interna de alto nível.

Fontes ligadas ao processo afirmam ao SCMP que a estratégia é lançar o plano antes do próximo discurso anual do chefe do Executivo. Assim, o discurso funcionaria como um documento de execução das diretrizes já definidas.

Um plano robusto

Pedestre passa por trás de banca em Hong Kong, onde manchete de revista da The Economist diz: "juntos à terra prometida" (Phillippe Lopez, AFP) (PHILIPPE LOPEZ / Equipe/Getty Images)

O plano está estruturado em seis pilares centrais. Eles incluem o desenvolvimento da Northern Metropolis — planos para desenvolver a parte norte da cidade como um novo polo industrial —, economia e finanças, inovação tecnológica, bem-estar social, cooperação regional e integração entre cultura, esportes e turismo.

Esses eixos dialogam diretamente com as prioridades do atual 15º Plano Quinquenal chinês: entre elas, a integração da Grande Baía, a internacionalização do yuan, a autossuficiência tecnológica e a ideia de “prosperidade comum”.

Ainda não está claro se Hong Kong adotará metas numéricas detalhadas, como faz a China continental.

O chefe do Executivo, John Lee, indicou que o documento trará apenas “indicadores macro”, enquanto as metas operacionais ficarão nos planos anuais.

Parlamentares favoráveis à proposta dizem que o objetivo é garantir continuidade entre diferentes administrações. Assim, mesmo com mudanças de liderança, a direção geral das políticas públicas permaneceria estável.

A pergunta que domina o debate é por que Hong Kong precisa de um plano desse tipo agora. Afinal, a cidade já possui políticas de longo prazo em áreas como habitação e saúde, o que leva críticos a questionar a necessidade de um novo arcabouço.

Analistas políticos afirmam que, durante décadas, participar do ciclo de planejamento nacional era considerado um tabu.

O argumento predominante era que “um país, dois sistemas” significava manter distância das práticas de planejamento da China continental.

Segundo veteranos da política local, Pequim considera que o ambiente político mudou após a lei de segurança nacional e a reforma eleitoral, implementadas em resposta aos protestos de 2019, o que teria aberto espaço para a institucionalização do planejamento de longo prazo.

O comentarista Sonny Lo afirma ao SCMP que o centro do debate deixou de ser apenas a preservação dos “dois sistemas”. A prioridade agora seria ampliar a integração com o continente sem abandonar as vantagens específicas de Hong Kong.

Muito perto do sol?

Bandeiras de Hong Kong e da China: apesar do potencial do plano, existe o temor do polo libertário se aproximar muito do modelo de Pequim (Peter Parks/AFP) (Peter Parks/AFP)

A possível aproximação com o modelo chinês reacendeu temores sobre o futuro da identidade econômica da cidade. Hong Kong foi, durante décadas, apresentada comoum dos exemplos mais puros de economia de livre mercado. Ao longo de seu desenvolvimento, o polo era impulsionado pelos baixos impostos e pela reduzida intervenção estatal como motores do crescimento do território, atraindo elogios do Ocidente.

Portanto, críticos do novo plano temem que um modelo de planejamento inspirado na China possa comprometer essa reputação. O ex-presidente da Morgan Stanley Asia, Stephen Roach, advertiu que o planejamento centralizado frequentemente “promete demais e entrega de menos”.

Por sua vez, o governo local reagiu, assegurando que Hong Kong não está migrando para uma economia de comando.

A secretária Janice Tse disse que a cidade continuará sendo uma economia de mercado liderada pelo setor privado e facilitada pelo governo. Economistas lembram que o planejamento estratégico não é exclusividade de sistemas socialistas: por exemplo, o Japão, a Coreia do Sul e Singapura combinaram orientação estatal forte com mercados abertos e integração internacional.

Lau Siu-kai, ligado a um think tank próximo de Pequim, sustenta ao SCMP que o plano não alterará a essência capitalista da cidade. Segundo ele, empresas privadas, capital comercial e profissionais continuarão sendo a base do crescimento econômico.

Ele argumenta que o novo modelo pode elevar o nível estratégico da burocracia local. Em vez de focar apenas na execução de curto prazo, os funcionários públicos seriam obrigados a pensar em tendências globais e prioridades nacionais.

Tang, por sua vez, vê no plano uma oportunidade de diversificar a economia e aumentar a resiliência frente a choques geopolíticos.

Para ele, Hong Kong precisa continuar aberta ao mundo, mas também agir de forma mais estratégica. O economista ressalta, porém, que o sucesso dependerá menos do documento e mais da execução. Sem ações específicas, indicadores claros e mecanismos de responsabilização, o primeiro plano quinquenal corre o risco de se tornar apenas uma declaração de intenções.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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