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CiênciaBDR
23/10/2026
5 min

O polêmico experimento que saiu do controle em 1971 retorna em reality show da Netflix

Experimento da Prisão de Stanford colocou estudantes nos papéis de guardas e detentos e se tornou um dos estudos mais controversos da psicologia

O polêmico experimento que saiu do controle em 1971 retorna em reality show da Netflix

Um dos experimentos mais controversos da psicologia voltou aos holofotes em uma nova série da Netflix. O reality show "The New Stanford Prison Experiment" ("O Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford") retoma a proposta de um estudo realizado em 1971, no qual estudantes universitários assumiram os papéis de guardas e prisioneiros em uma prisão simulada.

O experimento original, conduzido pelo psicólogo Philip Zimbardo, na Universidade Stanford, deveria durar duas semanas, mas foi interrompido após seis dias, diante do sofrimento psicológico dos participantes e do comportamento dos guardas.

Mais de cinco décadas depois, a plataforma apresenta uma versão com 30 participantes, gravada em uma prisão desativada nos Estados Unidos. Diferentemente da pesquisa original, a produção não pretende realizar um estudo científico, segundo informações da CNN.

A nova série também reacende discussões sobre os métodos utilizados por Zimbardo e a validade das conclusões que tornaram o experimento conhecido mundialmente.

O experimento de Stanford que terminou antes do previsto

Em agosto de 1971, Zimbardo selecionou 24 estudantes universitários, entre mais de 70 candidatos, para participar de uma pesquisa sobre o comportamento humano em ambientes prisionais.

Os voluntários foram divididos aleatoriamente entre guardas e detentos. A prisão improvisada funcionava no porão de um edifício da Universidade Stanford, na Califórnia. O objetivo era investigar como as pessoas reagiriam ao receber posições de autoridade ou submissão.

Os participantes designados como prisioneiros foram detidos em suas casas pela polícia local, submetidos a procedimentos de admissão e obrigados a seguir regras estabelecidas pelos guardas. Já os estudantes responsáveis pela vigilância receberam uniformes, óculos escuros e cassetetes de madeira.

Segundo os relatos do estudo, a situação se deteriorou rapidamente. Os guardas passaram a impor punições e práticas humilhantes, enquanto alguns detentos apresentaram sinais de sofrimento psicológico.

O experimento, inicialmente planejado para durar até 14 dias, foi encerrado no sexto dia, após a psicóloga Christina Maslach questionar as condições impostas aos participantes.

Por que o experimento da prisão de Stanford é criticado?

Durante décadas, o estudo foi apresentado como uma demonstração de que pessoas comuns poderiam adotar comportamentos abusivos ao receber autoridade sobre outras. Entretanto, de acordo com a CNN, documentos, gravações e depoimentos posteriores levantaram dúvidas sobre essa interpretação.

Uma das principais críticas envolve a atuação de Zimbardo, que assumiu o papel de superintendente da prisão e participou diretamente da dinâmica entre os voluntários. Registros analisados posteriormente indicam que os pesquisadores orientaram os guardas sobre como exercer autoridade, comprometendo a ideia de que os comportamentos surgiram espontaneamente.

Em 2019, o historiador francês Thibault Le Texier publicou uma análise baseada em documentos e gravações do experimento. O trabalho questionou os métodos adotados e a interpretação dos resultados.

Outro ponto controverso envolve o sofrimento psicológico dos participantes. Relatos posteriores indicaram que algumas reações apresentadas durante a experiência não ocorreram exatamente como foram descritas inicialmente.

O estudo também passou a ser criticado por problemas éticos, incluindo a dificuldade enfrentada por alguns voluntários para abandonar a prisão simulada. Zimbardo, que morreu em 2024, contestou essas críticas e defendeu a validade da pesquisa.

Como funciona o novo reality show da Netflix?

A série "The New Stanford Prison Experiment" - ou "O Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford" na tradução para o português - reúne 30 participantes, incluindo três mulheres, em uma experiência inspirada na pesquisa de 1971.

A produção foi gravada em uma área desativada do Centro de Detenção de Adultos do Condado de Cherokee, em Canton, no estado americano da Geórgia. O programa possui seis episódios de aproximadamente 45 minutos e utiliza uma estrutura diferente da experiência original.

Os participantes assumem funções dentro do ambiente prisional, enquanto a produção introduz regras e mudanças ao longo da convivência. Os guardas recebem treinamento inicial e orientações para assumir o controle da situação.

Segundo os produtores, foram adotadas medidas de segurança, incluindo avaliações psicológicas e a possibilidade de abandonar a experiência a qualquer momento por meio de uma palavra de segurança.

Em comunicado divulgado pela produção, a produtora executiva Jane Lipsitz afirmou que a proposta não seria simplesmente reproduzir o estudo original, mas revisitar questões relacionadas ao poder e à influência dos papéis sociais sobre o comportamento.

Experimento já teve outra versão na televisão

Antes da produção da Netflix, uma experiência semelhante foi realizada em 2002 para a televisão britânica. O programa "The Experiment", exibido pela BBC, reuniu 15 voluntários, divididos entre seis guardas e nove prisioneiros.

A pesquisa foi conduzida pelos psicólogos Stephen Reicher e Alex Haslam, com acompanhamento científico e aprovação de um comitê de ética.Os resultados foram diferentes daqueles relatados em Stanford.

Em vez de assumirem comportamentos autoritários, os guardas tiveram dificuldades para exercer poder, enquanto os prisioneiros se organizaram coletivamente e desafiaram a estrutura estabelecida.

As diferenças reforçaram os questionamentos sobre o papel das instruções e da liderança no comportamento observado durante o experimento original. Agora, a Netflix retoma o tema em formato de entretenimento, trazendo novamente à discussão os limites entre autoridade, comportamento humano e as condições em que essas relações são construídas.

AutorVanessa Loiola
FonteExame
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