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Sacre Investimentos
Mundo
09/08/2026
6 min

O preço de viver mais: mundo passa quase 11 anos com doenças ou incapacidades

Fenômeno é quase universal e chama atenção de demógrafos, que alertam sobre a importância tanto da expectativa de vida quanto da expectativa de vida saudável

O preço de viver mais: mundo passa quase 11 anos com doenças ou incapacidades

Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista The Lancet Public Health mostra que a população mundial está vivendo mais, mas também passando mais tempo convivendo com doenças crônicas e incapacidades.

A pesquisa analisou dados de 204 países e territórios entre 1990 e 2023 e concluiu que os avanços da medicina ampliaram a longevidade mais rapidamente do que a capacidade de preservar a saúde ao longo da vida.

O trabalho, conduzido por pesquisadores do Global Burden of Disease Study 2023, utiliza dois indicadores: a expectativa de vida (EV) e a expectativa de vida saudável (HALE). A diferença entre eles é chamada de lacuna de morbidade, que representa quantos anos uma pessoa vive com problemas de saúde que limitam sua qualidade de vida.

Em conversa com a EXAME, o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves explica o fenômeno e sua universalidade como um reflexo de melhores condições de vida humana ao longo do tempo e um lado negativo natural desse processo.

"A primeira coisa que temos que considerar é que a expectativa de vida subiu. Então, as pessoas estão vivendo mais tempo. E a questão é que, quanto mais você envelhece, maior a probabilidade de ter alguma doença", diz Alves.

Lacuna da morbidade

Conceito de saúde mental

Justamente por vivermos mais, passamos, em média, mais tempo doentes (Richard Drury/Getty Images) (Richard Drury/Getty Images)

Em 1990, a expectativa de vida globalera de 64,6 anos, enquanto a expectativa de vida saudável era de 55,9 anos. Isso significava uma lacuna de 8,8 anos vividos com doença ou incapacidade. Em 2023, a expectativa de vida subiu para 73,8 anos e a expectativa de vida saudável para 63,1 anos, ampliando a lacuna para 10,7 anos.

O aumento foi de 21,9% em pouco mais de três décadas, o equivalente a quase dois anos adicionais de vida com saúde comprometida. Em média, a população mundial passou a viver 14,5% da vida com algum grau de incapacidade, contra 13,6% em 1990.

"Então, a expectativa de vida saudável também está aumentando, o que é muito positivo, mas aumenta menos do que a expectativa de vida geral", continua o especialista. "Ou seja, esse aumento da expectativa saudável não acompanhou a expectativa geral. Então, falamos que temos mais morbidade: você reduz a mortalidade, mas aumenta a morbidade."

E esse fenômeno ocorre de forma virtualmente universal. A lacuna de morbidade aumentou em 203 dos 204 países e territórios analisados, indicando que o problema não se restringe a regiões específicas ou a sistemas de saúde menos desenvolvidos.

Países de maior renda apresentam as maiores lacunas absolutas. Em 2023, os Estados Unidos lideraram o ranking com 14 anos vividos em más condições de saúde, seguidos por Austrália (13,9 anos) e Canadá (13,7 anos). Já a África Subsaariana registrou a menor lacuna média, de 9 anos.

Desafios e soluções

Ford-Tapete-Acessibilidade

A acessibilidade e a qualidade de vida podem ser melhoradas por políticas públicas, o que poderia reduzir a lacuna de morbidade (Ford/Divulgação) (Ford/Divulgação)

O estudo também identificou uma forte desigualdade entre homens e mulheres. As mulheres vivem mais e, portanto, passam mais tempo doentes: a lacuna média entre mulheres e homens foi de 12,1 anos, contra 9,3 anos entre os homens.

Além disso, o aumento do tempo de vida com incapacidade não ocorre apenas na velhice. A deterioração da saúde se distribui ao longo de toda a vida adulta, o que amplia o impacto sobre o trabalho, a renda, os cuidados familiares e os sistemas de saúde.

"A política pública tem que focar em comprimir a morbidade, ou seja, reduzir o tempo que as pessoas passam doentes. Então, não se trata simplesmente de aumentar a expectativa de vida. Você tem que aumentar a expectativa de vida, mas comprimir a morbidade para que você fique menos tempo doente ao longo da sua vida", diz o pesquisador.

Mais de 57% dos anos vividos com saúde comprometida concentram-se em um grupo relativamente pequeno de doenças crônicas, predominantemente não fatais.

Entre elas estão distúrbios musculoesqueléticos, especialmente dor lombar e problemas de coluna, transtornos mentais como depressão e ansiedade, perda auditiva e visual relacionada à idade e lesões não intencionais, como quedas em idosos.

Os principais fatores de risco associados a essas condições foram alta glicemia em jejum, excesso de peso e obesidade, desnutrição materna e infantil e uso de tabaco. Os autores observam que muitos desses fatores podem ser prevenidos ou controlados precocemente.

Na avaliação do pesquisador, uma das saídas para mitigar o problema envolve a aplicação de políticas públicas.

"Investir em uma estrutura de moradia melhor, evitando casas [para idosos] com degraus. Corrimãos dentro da casa e pela cidade. Você pode investir em calçadas, em telhas e em uma boa mobilidade, para que as pessoas possam ter contato com a natureza", diz.

"Se você controla a alimentação e mantém uma alimentação adequada, e se você faz exercício físico, isso tudo faz com que a pessoa tenha uma vida mais saudável e jogue a morbidade lá pro final da vida", afirma Alves.

Brasil

Força nacional do SUS em atendimento aos Yanomamis: garantir acesso à saúde ajuda a mitigar problemas ainda prevalecentes no Brasil, que já não afetam potências desenvolvidas (Igor Evangelista/MS/Divulgação) (Igor Evangelista/MS/Reprodução)

No Brasil, o cenário segue a tendência global, mas com números preocupantes. O tempo médio de vida com doença passou de 10,4 anos em 1990 para 12,5 anos em 2023, um aumento de 2,1 anos, o que corresponde a cerca de 20%.

Com esse resultado, o país ocupa a 16ª posição entre os 204 países e territórios com maior número de anos vividos em más condições de saúde. O dado sugere que o ganho de longevidade no Brasil não foi acompanhado de uma expansão equivalente dos anos vividos com boa saúde.

Além dos riscos usuais, como o sedentarismo, transtornos mentais, dietas pouco saudáveis e o tabagismo, Alves destaca outros fatores que ampliam a lacuna no Brasil.

"O Brasil ainda enfrenta problemas de saneamento básico. Geralmente, nas grandes cidades, as populações de periferia, a população mais pobre, estão sujeitas a doenças que, em outros países, já foram erradicadas há muito tempo. Doenças como a dengue e a chikungunya agravam a morbidade", diz.

Dessa forma, o Brasil enfrenta uma dupla carga de fatores. Assim, a expectativa de vida dos brasileiros, bem como a expectativa de vida saudável, permanece abaixo da observada em países desenvolvidos.

Para o especialista, as políticas públicas de saúde têm priorizado excessivamente a redução da mortalidade — fazer as pessoas viverem mais — e dado menos atenção à redução da morbidade — fazer as pessoas viverem melhor.

Para enfrentar o problema, demógrafos defendem que os sistemas de saúde passem a adotar como meta a ampliação do healthspan, ou seja, dos anos vividos com saúde. Isso exigiria maior investimento público em prevenção, saúde mental, controle da dor crônica, mobilidade, atividade física e no manejo precoce de fatores metabólicos, como obesidade e diabetes.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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