O produtor brasileiro pisou no freio — e isso vai mexer com os fertilizantes
Margens apertadas, endividamento e preços elevados reduzem o consumo, que deve cair para 45,1 milhões de toneladas em 2026, segundo o Rabobank

O mercado global de fertilizantes chega à safra 2026/27 com um dilema. Os preços dos insumos seguem elevados em diversas regiões, mas os produtores têm cada vez menos espaço no orçamento para comprá-los.
Com a pior margem em 20 anos e dificuldades financeiras no campo, agricultores reduzem custos, adiam compras e ficam mais seletivos na aplicação de fertilizantes.
O Brasil está entre os mercados em que esse aperto já aparece nos números uma vez que o país importa 85% dos fertilizantes que utiliza. Após um recorde de 49,1 milhões de toneladas de fertilizantes entregues em 2025, o país deve reduzir o consumo para 45,1 milhões de toneladas em 2026, segundo o Rabobank no relatório Semiannual fertilizer outlook.
A estimativa já caiu de 47 milhões de toneladas em abril, e o banco ainda vê espaço para uma nova revisão para baixo.
Segundo o Rabobank, as altas taxas de inadimplência restringem a capacidade de compra dos agricultores, que precisam reduzir custos e recuperar seus balanços. O banco estima que esse processo de ajuste financeiro dure mais um ano e meio.
“O ciclo de ajuste financeiro dos produtores deve continuar por mais 18 meses, mantendo a redução de custos como uma prioridade”, afirma o banco.
A situação financeira ajuda a explicar por que uma eventual queda nos preços dos fertilizantes não necessariamente provoca uma recuperação imediata das compras. O índice de acessibilidade calculado pelo Rabobank melhorou depois dos piores momentos de 2026, mas continua negativo nas principais regiões analisadas.
No Brasil, o indicador caiu de 0,05 em janeiro para -0,14 em abril. Entre os nitrogenados, a deterioração foi ainda maior, de 0,22 para -0,25 no mesmo período. Em julho, porém, a acessibilidade da ureia havia se recuperado para 0,19.
O cenário mostra que o produtor está fazendo escolhas para administrar o orçamento de insumos. A demanda por fertilizantes não desaparece, mas parte das compras pode ser adiada enquanto as margens permanecem pressionadas.
O Rabobank espera uma melhora da acessibilidade nos próximos 12 meses. Ainda assim, o banco afirma que a recuperação deve permanecer frágil, porque os problemas de oferta e a volatilidade devem continuar enquanto persistirem as tensões no Oriente Médio, principal fornecedor global do insumo.
Compra de fertilizantes
O aperto financeiro já aparece nas importações brasileiras. No primeiro semestre de 2026, as compras de MAP, fertilizante usado para fornecer fósforo às lavouras, caíram 24%, enquanto as de TSP, também fonte de fósforo, cresceram cerca de 40%. Considerando o conteúdo de P₂O₅, a queda dos fosfatados foi de aproximadamente 8%.
As importações de ureia recuaram 31%, enquanto as de potássio subiram 6%. Para os fosfatados, o Rabobank projeta queda de 7% na demanda global em 2026 e de 5% em 2027. Se confirmado, será o terceiro ano consecutivo de retração.
“Os agricultores podem recorrer temporariamente às reservas de nutrientes do solo, mas a demanda deverá se recuperar à medida que os solos esgotados precisarem de reposição”, afirma o banco.
A demanda por ureia deve cair 5% globalmente em 2026, mas o Rabobank espera recuperação com a melhora da acessibilidade. No Brasil, o indicador da ureia passou de -0,25 em abril para 0,19 em julho. O atraso nas importações, porém, pode representar um risco para milho de segunda safra em 2027.
A volta daChina às exportações de ureia pode aliviar o mercado. O país deve liberar entre 2 milhões e 2,5 milhões de toneladas em uma segunda rodada de cotas, mas o efeito sobre os fosfatados tende a ser limitado.
O El Niño também adiciona incerteza ao mercado agrícola, sobretudo na Ásia. Para milho e soja no Brasil e nos Estados Unidos, porém, o Rabobank não encontrou correlação clara entre o fenômeno e a produtividade. Apesar dos riscos, os estoques globais de grãos permanecem historicamente elevados.
“O mercado permanece mais resiliente, com maior capacidade de absorver choques de oferta ou demanda”, diz o banco.
