O próximo salto das criptomoedas não virá da especulação, mas da regulação

Por Giuliano Kohler*
Durante anos, o mercado de criptomoedas foi marcado por ciclos de euforia e correção, impulsionados principalmente pela expectativa de valorização dos ativos. Bitcoin, ether e outros criptoativos conquistaram investidores, provocaram debates sobre o futuro do dinheiro e passaram a movimentar trilhões de dólares em todo o mundo.
Mas 2026 poderá ser lembrado por um motivo diferente: o ano em que o mercado cripto começou a consolidar sua transição de um ambiente predominantemente especulativo para uma infraestrutura financeira regulada e cada vez mais integrada à economia real. Essa transformação ocorre simultaneamente em dois dos mercados mais relevantes para o setor: Estados Unidos e Brasil.
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Segundo dados da plataforma CoinMarketCap, o mercado global de criptomoedas movimenta atualmente mais de US$ 3 trilhões em valor de mercado. Ao mesmo tempo, estudo da consultoria Triple-A estima que mais de 560 milhões de pessoas no mundo já possuem algum tipo de ativo digital, número que continua crescendo ano após ano.
Esses dados ajudam a explicar por que governos e reguladores passaram a dedicar cada vez mais atenção ao setor. As criptomoedas deixaram de ser um nicho tecnológico para se consolidarem como um mercado relevante sob as perspectivas financeira, tributária e regulatória.
Segurança regulatória
Nos Estados Unidos, o principal tema em discussão é o chamado Clarity Act, proposta que busca estabelecer regras mais claras para o mercado de ativos digitais. Embora o texto ainda dependa de etapas legislativas, sua eventual aprovação pode representar um divisor de águas para a indústria global.
A razão é simples: o mercado americano concentra algumas das maiores instituições financeiras do planeta. Com maior segurança regulatória, bancos, fundos de investimento, gestoras e empresas poderão ampliar sua participação no mercado de ativos digitais de forma muito mais consistente.
Os impactos, porém, não deverão se restringir aos Estados Unidos. Historicamente, decisões regulatórias adotadas pelo maior mercado financeiro do mundo influenciam práticas, investimentos e estratégias em diversas regiões, incluindo a América Latina. A definição de regras claras tende a ampliar a confiança institucional e acelerar a entrada de capital de longo prazo no setor.
No Brasil, o cenário também atravessa uma fase decisiva. A expectativa do mercado está concentrada na conclusão do processo regulatório conduzido pelo Banco Central para as Provedoras de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs). A regulamentação deverá estabelecer critérios operacionais, exigências de compliance e mecanismos de supervisão para empresas que atuam com ativos digitais.
Embora parte do mercado enxergue a regulação como uma barreira, a experiência internacional mostra justamente o contrário. Mercados regulados tendem a atrair mais participantes, gerar maior segurança jurídica e ampliar o volume de negócios. Em outras palavras, a regulação não representa o fim da inovação, mas sua condição necessária para alcançar escala.
A questão dos impostos
Esse movimento também ajuda a explicar por que discussões tributárias envolvendo criptomoedas ganham espaço.
Existe a possibilidade de novos debates sobre a incidência de impostos em operações com ativos digitais, incluindo eventuais mudanças relacionadas ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Ainda não há definições claras por parte das autoridades, mas o tema passou a integrar a agenda pública em um contexto de busca por aumento de arrecadação e ampliação da base tributária.
Independentemente do formato que essas discussões assumam, elas revelam uma mudança importante: o mercado cripto já alcançou uma dimensão econômica que torna impossível sua permanência à margem das estruturas regulatórias e fiscais tradicionais.
Talvez a transformação mais relevante em curso esteja relacionada às stablecoins. Atualmente, esses ativos digitais lastreados em moedas fiduciárias já movimentam centenas de bilhões de dólares globalmente. Dados da DefiLlama apontam que o mercado de stablecoins supera US$ 250 bilhões em valor circulante, consolidando-se como uma das principais aplicações práticas da tecnologia blockchain.
O potencial de crescimento, porém, ainda é muito maior. Hoje, muitas empresas evitam utilizar stablecoins em pagamentos internacionais devido à ausência de definições jurídicas, fiscais e regulatórias mais claras. Isso cria barreiras para uma adoção mais ampla por importadores, exportadores e companhias com operações globais.
Oportunidade nas stablecoins
À medida que esse cenário evoluir, uma nova etapa de desenvolvimento do setor deverá ganhar força. A utilização dessas moedas pode reduzir custos operacionais, acelerar liquidações internacionais e ampliar a eficiência de transações transfronteiriças. Para empresas que operam globalmente, os ganhos de produtividade podem ser significativos.
É justamente por isso que a regulamentação das stablecoins nos Estados Unidos e no Brasil possui potencial para impulsionar uma nova onda de adoção institucional. Ao contrário dos ciclos anteriores, impulsionados principalmente por investidores individuais, a próxima fase de crescimento do mercado pode ser liderada por empresas, instituições financeiras e participantes da economia real.
O debate sobre criptomoedas deixou de ser uma discussão restrita à tecnologia ou à especulação financeira. Hoje, trata-se de infraestrutura econômica. E é justamente por isso que as decisões regulatórias previstas para os próximos meses podem ser muito mais relevantes para o futuro do setor do que qualquer oscilação de preço observada no curto prazo.
O próximo salto do mercado cripto não dependerá apenas da valorização dos ativos. Dependerá da construção de regras capazes de transformar inovação em confiança, e confiança em adoção em larga escala.
*Giuliano Kohler é head da mesa cripto do Banco Braza.
